Julien Dossena: O Homem Que Trouxe de Volta a Paco Rabbane

Fomos conhecer um pouco melhor o designer a quem todos os outros estão atentos. Imagens: © D. R. - Texto: Sara McPaline

A sobrancelha de Julien Dossena está franzida. Uma das mãos faz sombra sobre parte da cara (uma cara que, vale a pena sublinhar, é notoriamente bonita: aquela beleza clássica dos atores de Hollywood, de olhos escuros e intensos, e o rosto com marcas de sorrir semelhantes às de Robert Redford) e parece profundamente pensativo. Hoje, veste um “uniforme” discreto, semelhante ao que os designers do sexo masculino usam dando-lhes um ar sobrenaturalmente cool. Mas não é um cool qualquer, é um cool muito bem estudado: a t-shirt preta, opaca e imaculada, Prada conjuga-se na perfeição com as calças de denim azul, com os ténis da Adidas que parecem ter acabado de sair da caixa e com as meias da Carhartt num tom de branco puro. Dossena é mestre na arte de fazer com que algo mais complexo pareça casual – habilidade a que recorre e que usa com mestria na Paco Rabanne, onde é diretor artístico desde 2013, transformando a sorte (e a reputação) da casa de moda com 53 anos.

Dossena ri-se quando lhe digo que faz com que tudo isto [da roupa] pareça fácil. «Eu sou uma pessoa realmente particular», admite, antes de deixar os seus olhos focarem-se num ponto da mesa imaculada no quartel-general de Paco Rabanne, em Paris. «Mas sempre valorizei o trabalho. Às vezes, de forma estúpida, no sentido de não acreditar no talento, apenas que tudo surge com o trabalho. E essa é a única razão pela qual me sinto confiante em relação àquilo que faço como designer. Ainda assim, quando fui contratado, fiquei surpreso.»

Na verdade, muitas pessoas ficaram espantadas quando Dossena foi nomeado diretor criativo da Paco Rabanne, há seis anos. Afinal, ele era um perfeito desconhecido quando entrou. No entanto, também a marca o era (para uma geração mais jovem, que estava mais familiarizada com os seus perfumes (Black XS ou Lady Million). Mas isso não acontecia nos anos 60, quando Paco Rabanne (nome verdadeiro de Francisco Rabaneda Cuervo) alcançou o sucesso com as suas peças inspiradas na era espacial: através dos seus minivestidos em malha metálica, e dos figurinos para o filme de ficção científica Barbarella, em 1968. Quase meio século depois, considerou-se que a marca estava completamente perdida (na melhor das hipóteses; irrelevante, na pior) quando o seu fundador começou a concentrar-se no mundo da arte – e a profetizar sobre o Apocalipse. Seja como for, o destino desta casa de moda parecia estar traçado quando o costureiro de origem basca se aposentou em 1999. «Era realmente como… bouuufff», suspira Dossena, enquanto toca com os dedos nas têmporas, gesticulando, como se estivesse a passar-nos a mensagem (através dos movimentos das mãos) de que tinha perdido o juízo – e, de facto a imprensa pensou que sim, batizando Rabanne de “Wacko Paco” (que em português se traduz para “Paco Louco”).

No entanto, tudo mudou sob a direção de Dossena. A marca conseguiu voltar a ter apelo comercial (embora tenha passado por alguns falsos relançamentos, devido às dificuldades que a Puig teve em manter os seus últimos designers: Manish Arora e Lydia Maurer, que estiveram apenas um ano). Dossena provou ser a pessoa certa para repensar o passado-futuro da marca, tornando-a atraente para uma nova geração de clientes. Tinha apenas 30 anos quando entrou, mas contava já com um excelente currículo enquanto designer sénior de uma casa de moda multimilionária: antes de chegar aqui, Dossena tinha sido uma das estrelas dos bastidores da Balenciaga, trabalhando ao lado de Natacha Ramsay-Levi como braço direito do então diretor criativo, Nicolas Ghesquière. Ali, levaram adiante a moda francesa com peças fáceis de usar em tecidos futuristas que se destacaram entre os clássicos gigantes parisienses: Chanel, Dior e Saint Laurent. «A cena parisiense era um bocado aborrecida antes do Nicolas», lembra Dossena, instantaneamente movendo as mãos para reiterar que não está a desprezar as grandes Maisons francesas (ele tem este hábito de corrigir ou qualificar as suas declarações para as apaziguar, através de gestos e de um sorriso largo). «E como não havia marcas novas… então tornei-me obcecado pela Balenciaga», acrescenta – e como ele, muitos outros designers assim ficaram.

Ghesquière e Ramsay-Levi foram rapidamente recompensados por tornarem a Balenciaga uma das etiquetas mais entusiasmantes do século XXI. Ghesquière conquistou um lugar de topo na Louis Vuitton, tornando-se o responsável pela linha feminina, e Ramsay-Levi é a diretora criativa da Chloé. E para Dossena qual foi a recompensa? O reconhecimento que chegou depois da transformação que operou no negócio de roupa da Paco Rabanne.

Ao longo destes últimos seis anos, Dossena conseguiu despojar a marca do seu futurismo kitsch. Sob o seu controlo, a Paco Rabanne agora trabalha um radicalismo suave, apostando na precisão de corte das peças, para que assentem facilmente no corpo. E essa é, precisamente, a sua habilidade: fazer com que o seu trabalho elaborado pareça fácil e, mais importante, bonito. Das peças para usar no ginásio às de alfaiataria, das inspirações barrocas às clássicas peças em malha (resistentes à passagem do tempo), a roupa que ele desenha é simples de usar e de conjugar (ainda que um vestido com cristais da coleção FW19 leve 144 horas a ser produzido). Essa característica é algo que o designer credita ao tempo que passou na Balenciaga, à qual se refere sempre com carinho enquanto falamos. «Eu ainda lá estaria se o Nicolas estivesse», admite. Mas a separação de Ghesquière da marca, em 2012, envolvendo um processo de 9,2 milhões de dólares, tornou essa opção obviamente inviável.

«Aprendi muito ao testemunhar como tudo terminou», diz Dossena. E recorda que o tempo que ali passou o preparou para dirigir a Atto – a sua própria marca, que teve uma vida curta, e que se comprometia com o seu público apresentando peças bem cortadas, lançada em 2013 – e depois a Paco Rabanne. «Eu era conhecido como “o homem das calças”», afirma a rir-se. Para colocar o “homem das calças” em contexto, naquela época a Balenciaga era a criadora das calças “It”. Se não sabe do que falamos, lembra-se das calças cargo que ressurgiram na década passada? Agradeça à Balenciaga por isso. E as versões mais casuais de alfaiataria slim-fit com um corte preciso? Igualmente. Pois bem, tudo isto aconteceu no curto espaço de quatro anos, e foi graças ao talento de Dossena, que conseguiu deixar de ser apenas estagiário e passou a designer sénior da marca. «O Julien era um dos mais jovens no estúdio», lembra Ghesquière, defendendo Dossena e torcendo sempre do lado de fora – ou melhor, na primeira fila – em todos os shows da Paco Rabanne. «Pode dizer-se que era um talento puro, que o seu futuro seria tornar-se diretor criativo de uma Maison. Ele tinha um foco e uma ética de trabalho para lá da sua idade.»

Essa ética de trabalho fez com que Dossena impulsionasse um crescimento monumental na Paco Rabanne, tornando menor a diferença da receita entre o negócio das fragrâncias e o da moda. As lojas duplicaram no ano passado; os lucros viram um crescimento de dois dígitos nos últimos três. E, por consequência, conquistou uma série de fãs de alto nível, como Kelela, Rihanna, Priyanka Chopra e Rosie Huntington-Whiteley, comprovando-se assim a versatilidade do trabalho de Dossena.

Ainda pode ser a marca de presentes mais acessíveis e fragrâncias para jovens adolescentes, mas agora é também uma opção para quem quer comprar saias plissadas, carteiras feitas em placas de metal instagramáveis e t-shirts com logótipos (como a roxa com o slogan Lose Yourself, que foi um dos sucessos do verão).

Compreender as primeiras aspirações de Dossena é perceber o que faz dele um sucesso agora. Cresceu em Le Pouldu, uma cidade-praia rochosa na Bretanha, e descobriu a arte antes de descobrir a moda. «Imaginei que poderia ser um curador de arte. Ficava entusiasmado com isso», lembra, explicando a sua decisão de estudar História da Arte na École Supérieure des Arts Appliqués Duperré, em Paris, antes de fazer um mestrado em Moda na La Cambre, em Bruxelas. De facto, sempre que falamos de arte, Dossena fica mais animado. Em segundos, acumula a energia de uma lata de refrigerante, pontuando a conversa com acenos de cabeça e exclamações de: “Sim!”

Embora Dossena tenha a sensibilidade de um artista, a pressão comercial começa agora a aumentar: a Puig estabeleceu a meta ambiciosa de a Paco Rabanne atingir €1 bilião em receita em 2020 (para conseguir pôr isto em perspetiva, a Balenciaga alcançou recentemente este valor, e a Saint Laurent vale €1,7 biliões). «Ele parece muito confiante, muito relaxado, muito na boa», conta a sua ex-colega e amiga Natacha Ramsay-Levi (ela própria cliente da Paco Rabanne). E, de facto, parece. Mas, dito isto, ninguém está imune à pressão: «Eu desenvolvi algo que preciso de compreender melhor: ansiedade. Já não consigo apanhar aviões», conta, antes de se animar e de ver o lado bom da coisa. «Fui para Nova Iorque de barco, o que foi muito bom.» E a prova disso está na inspiração que a viagem lhe deu para criar uma série de coleções, fazendo referência a Paris via Palm Springs, com toques de David Bowie e Roxy Music.

À medida que o nosso tempo se aproxima do fim, pergunto a Dossena se está feliz. E ele mostra aquele sorriso de ator de Hollywood e responde: «Ah, sim», enquanto balança a cabeça enfaticamente. «Sim. Tu vais ver, a próxima temporada vai ser mais alegre. Mais colorida e alegre.» E é mesmo. Tal como ele provou na passerelle, algumas semanas depois de nos conhecermos, tornando o desfile um dos mais aplaudidos da Semana da Moda de Paris.