O Que a Roupa Que Temos Vestida Diz Sobre Nós

A forma como nos vestimos pode criar um impacto logo à primeira vista. Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: D.R.

Somos rápidos a fazer julgamentos e a criar associações, olhando apenas para a forma como alguém se veste. Mas alguma vez parou para pensar acerca do que a sua roupa pode dizer sobre si, e de que forma pode impactar a perceção que as pessoas têm?

Todas as manhãs, o cenário repete-se: o despertador toca, carregamos no snooze para dormitar aqueles 10 minutos, e depois de ouvirmos o som do alarme tocar pela segunda vez, levantamo-nos, tomamos banho e abrimos o armário para decidirmos o que vamos vestir. Tudo isto é feito de uma forma quase mecânica e rápida, no entanto, quando chega a hora de escolher a roupa que vamos usar, somos capazes de passar tempos infinitos, que por vezes não temos, até encontrarmos o look perfeito – e que por norma acaba por ser apenas uma série de peças que ficam bem juntas e das quais gostamos, e que nos fazem sentir bem. Mas, nesta rotina, alguma vez parou um bocadinho para pensar sobre de que forma as coisas que veste vão impactar a visão que os outros têm de si?

A primeira impressão conta

Ao longo da vida, todos ouvimos a expressão «Não se deve julgar um livro pela capa», mas, quer queiramos quer não, acabamos por fazê-lo. Isto porque tudo aquilo que usamos, da roupa aos acessórios, consegue ser traduzido nalgum tipo de mensagem – nem que esta seja tão simples como uma associação ao poder icónico de cada um – afinal, e tal como explica o stylist português Pedro Crispim, dono do Atelier Styling Project: «A roupa comunica e acaba por ter um impacto em primeiro grau. É a primeira coisa que chega aos outros, é aquilo que fica, são aqueles segundos vitais que criam exatamente uma leitura sobre a nossa pessoa. Ela pode dizer quem somos, o que fazemos, aquilo que queremos ou até mesmo de onde vimos (…) Se eu for a um banco com uma t-shirt, calças de ganga e uns ténis, sou atendido de uma maneira. No dia seguinte, vou de fato e gravata e sou atendido de outra. Eu tenho exatamente o mesmo dinheiro na conta, mas a sociedade é assim, infelizmente.» E remata: «A imagem tem muito mais poder do que as pessoas imaginam.»

Este tipo de leitura é feito desde os primórdios da Humanidade, no entanto, só começou a tornar-se mais visível em torno do final da Idade Média – quando a nobreza começou a querer diferenciar-se dos demais – e desde então continuou até aos dias de hoje, e por pessoas de todas a idades. «Até há relativamente pouco tempo, tinha ideia de que era uma questão geracional, ou seja, de que havia mais preconceito nas pessoas mais velhas», começa por dizer-nos Emília Alves, business coach, que durante anos se dedicou à área do Marketing Pessoal. «Depois, quando estive a dar aulas no ensino superior, percebi que aquela faixa etária dos 20 anos tinha muitos preconceitos sobre a primeira impressão de como uma pessoa estava vestida (…) e a partir daí comecei a achar que não tinha muito a ver com uma faixa etária. As coisas eram mais transversais», diz.

De facto, todos nós estaríamos a mentir se disséssemos que nunca fizemos nenhum tipo de julgamento do género, e devemos admitir que, pelo menos, nos deixamos afetar por esse tipo de análise (mesmo que feita inconscientemente), sobretudo quando conhecemos alguém pela primeira vez, um momento verdadeiramente crucial. «A tendência é para que a primeira impressão se torne um carimbo que as pessoas põem no outro, consoante a forma como está vestido ou arranjado, as marcas que usa ou as joias e os bons relógios que tem. E, de facto, as pessoas conotam, e conotam de uma maneira que eu diria, por vezes, quase agressiva. A primeira impressão é muito importante porque a seguir é muito difícil que aquela primeira ideia da pessoa mude. E se esse impacto for mais visual, então será muito difícil para a pessoa alterá-la», explica-nos Emília Alves, esclarecendo que «só depois de uma convivência algo prolongada é que essa primeira impressão se vai burilando, e isso é muito injusto para quem é observado».

A importância das cores

Para quem está mais atento, ou pelo menos, quer estar mais atento ao tipo de roupa que veste e à mensagem que esta transmite, existem formas de o fazer, através de pequenos detalhes como, por exemplo, as cores. Como Pedro Crispim explica: «As cores dizem muita coisa, elas têm um significado. Há cores que transmitem uma mensagem mais recetiva, aberta, convidativa, porque isso tem a ver com a leitura que os nossos sentidos fazem. Depois existem outras cores que criam um certo mistério e formam, de algum modo, uma armadura, como os pretos e cinzentos. Se vês uma pessoa de preto total, ou de cinza, já interpretas como sendo alguém mais soturno e misterioso. E o contrário acontece com cores mais alegres, que puxam um bocadinho à comunicação (…) as cores mais luminosas, mais abertas, mais suaves, são sempre as melhores. A neutralidade e a luminosidade dos brancos, dos cinzas-claros, dos pérolas, dos tons pastel, são bons exemplos porque são tons luminosos que trazem uma certa calma, e que permitem mais facilmente que o nosso discurso seja ouvido e tenha impacto.» O mesmo acontece com os acessórios. «Naqueles dias em que pomos os óculos superescuros, já estamos a criar uma armadura», esclarece o stylist, rematando que «aquilo a que temos de tomar mais atenção, enquanto utilizadores de moda – que acabamos todos por sê-lo –, é ao facto de que ela é uma ferramenta social, de trabalho e pessoal, que pode funcionar a nosso favor

Conseguir chegar a um ponto em que se tem este tipo de sensibilidade, que nos ajuda a perceber melhor a mensagem que a nossa roupa está a transmitir, pode para algumas pessoas demorar algum tempo, mas é um exercício que devemos ir fazendo. E, claro, não estamos a dizer que deve mudar o seu guarda-roupa inteiro de fio a pavio. Cada um tem o direito de ter o seu estilo próprio, algo que é realmente nosso, que devemos usar independentemente do que os outros pensem, e de procurar acabar com estes juízos de valor. No entanto, na área profissional (onde este tipo de ideias está por vezes mais enraizado), podemos sempre fazer pequenas adaptações.

Respeitar o dress code sem perder a personalidade

Neste campo, Emília Alves aconselha-nos: «Se há dress code dentro das organizações, é para o adaptar ao seu estilo. Não use aquilo como uma farda – porque dá para perceber perfeitamente. Sim, é fato e gravata mas pode adaptar ao seu estilo, pondo um adereço mais alternativo, uma gravata mais provocante, uns sapatos diferentes, ou uma conjugação que lhe seja agradável. Para as mulheres, então, é mais fácil, porque podem usar uma écharpe, mudar o estilo de cabelo, usar uns acessórios que tenham mais a ver consigo… Tem sempre de haver uma adaptação para que a pessoa possa sentir-se minimamente confortável e bem.»

#DicaELLE: Para que possa ter uma melhor perceção do que a roupa diz, faça o seguinte exercício: quando estiver num transporte público, ou num café, observe as pessoas à sua volta e tente construir uma história olhando apenas para a roupa que estão a usar. O objetivo não é fazer juízos de valor, mas começar a ter mais noção das mensagens que o vestuário transmite.

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de setembro de 2019.