Para Se Ser Influencer Já Não É Preciso Existir, Basta Só Parecer

Quando os limites da realidade se esbatem, Miquela e Shudu acontecem. Debatemos essa fragilidade. Por: Elisabeth Holmes -- Imagens: © D.R

Com 19 anos, umas baby bangs e sardas, Miquela tem todas as características de uma influencer. Tem o fator cool (é brasileira-americana e faz skate em Los Angeles, Califórnia), canta (o seu single de lançamento, Not Mine, tornou-se viral no Spotify), é ativista (apoia o movimento BlackLives Matter) e tem um gosto irrepreensível no que toca a moda (o seu guarda-roupa inclui peças de marcas como Proenza Schouler, Balmain ou Alexander Wang). Já foi fotografada para a V Magazine e Highsnobiety, e a Prada contratou-a para ajudar a promover o desfile para este outono-inverno, onde vestiu o mesmo casaco laranja que Gigi Hadid.

Graças a esta soma de partes, tão infalível, já conta com mais de um milhão de seguidores no Instagram, prova máxima que já faz parte do meio. Numa fotografia, por exemplo, está num restaurante italiano com a influencer australiana Margaret Zhang, e noutra está a descansar a cabeça no ombro de Giovanna Battaglia, diretora de moda da Vogue Japão.

 

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Outra celebridade do Instagram a seguir é Shudu. Ainda que tenha aderido recentemente à plataforma, a modelo chamou a atenção com a sua primeira publicação, no ano passado, na qual posava nua com um conjunto de gargantilhas douradas à volta do pescoço. Já em fevereiro deste ano, Shudu destacou-se no mundo da beleza quando a Fenty Beauty, a marca de maquilhagem de Rihanna, republicou uma fotografia sua com uns impressionantes lábios cor de tangerina, pintados precisamente com um batom da coleção da cantora.

Há, no entanto, um volte-face: Shudu não é real. Nem Miquela. Ambas são avatares criados em computadores. Ambas têm alterado o, até aqui, habitual paradigma do Instagram. Inevitavelmente, as marcas adoram-nas.

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Polémicas artificiais e rivalidades entre influencers

Miquela e Shudu partilham o mesmo ADN, mas as semelhanças terminam aí. Como qualquer celebridade em ascensão, Miquela tem toda uma máquina de relações públicas a apoiá-la e a gerir a sua carreira. Entrevistei-a via Google Hangouts, em março, antes de ter admitido oficialmente que não era real. «Estou a tentar acabar duas músicas hoje. E estou a esconder-me no canto do estúdio», contou-me. Quando lhe perguntei, diretamente, se era real, respondeu-me: «Estamos a conversar agora, não estamos?!»

O primeiro grande momento de Miquela aconteceu em abril e antecedeu precisamente essa admissão. A sua conta de Instagram foi alvo de um ataque cibernético por outro avatar, que se intitulava Bermuda, apoiava Trump e exigia que Miquela confessasse se era ou não real. No processo ameaçou expô-la e apagou-lhe as fotografias. No final do ataque as publicações foram todas restauradas, com os gostos e descrições originais, e pouco tempo depois Miquela confessou:«Sou um robot. Isto não soa bem. Sinto-me tão humana», escreveu numa longa publicação.

Foi também essa sequência de acontecimentos que revelou que Miquela tinha sido criada pela Brud, uma start-up de inteligência artificial, com sede em Los Angeles, fundada por Trevor McFedries. A Brud era também a empresa responsável por Bermuda e tinha orquestrado todo o episódio de forma a atrair mediatismo. Resultou: Miquela aumentou exponencialmente o número de seguidores, e a start-up foi notícia na semana seguinte por ter arrecadado seis milhões de dólares (cerca de cinco milhões de euros) de investidores de Silicon Valley.

 

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Projeto de arte acidental

O caso de Shudu é diferente. Descrevendo-se na biografia do Instagram como a «primeira supermodelo digital do mundo», Shudu é, na verdade um projeto de arte e o resultado do trabalho de Cameron-James Wilson, um fotógrafo britânico. Wilson imaginou-a no ano passado, quase por acidente, sem nenhum objetivo em particular, quando estava à procura de um novo hobby.

Um autoproclamado nerd, que adora filmes e jogos de ficção científica, decidiu experimentar alguns programas 3-D para desenhar roupa e uma musa. Inspirado por uma Barbie específica, a Princesa África do Sul, criou Shudu. E a supermodelo digital é efetivamente realista, um resultado da década que Wilson passou a retocar profissionalmente fotografias.

Como recorda, o realismo levou a perguntas: «Todos perguntavam “Quem é esta rapariga?”» A intensidade apanhou-o desprevenido, especialmente quando o entusiasmo se transformou em raiva. As acusações tornaram-se hostis, sugerindo que Wilson estava a esconder ou a recusar da crédito a uma modelo real. E, mesmo assim, as perguntas sobre Shudu aumentaram a sua popularidade. Procurando compreender qual seria o limite do interesse, Wilson, durante um longo período de tempo, não confirmou nem negou quem, ou o que, Shudu era.

Depois da situação Fenty Beauty, que aconteceu quando a irmã adolescente de Wilson sugeriu que aplicasse ao avatar produtos da linha de maquilhagem de Rihanna, as pessoas começaram a acreditar que Shudu era real. Foi quando Wilson decidiu dizer a verdade. As reações a um homem branco criar uma mulher negra fizeram-se sentir com acusações de exploração a sucederem-se no Twitter. Wilson, por seu turno, alega que Shudu é uma celebridade da diversidade, numa indústria que desesperadamente precisa.

 

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A procura pela perfeita imperfeição

Sobre o processo em si, para criar uma imagem de Shudu, o fotógrafo precisa de três dias de trabalho e duas semanas de brainstorming. Não é assim tão diferente de criar uma campanha de moda ou um editorial. O grande contraste reside precisamente nos detalhes: se quando retocava imagens, Wilson tinha de remover digitalmente certas características naturais, como a penugem facial, agora tem que as acrescentar.«A Shudu ensinou-me a respeitar muito mais as nossas imperfeições naturais», diz.

Estas criações totalmente digitais, com «falhas» propositadas – desde uma suposta discussão a penugem – evidenciam, ironicamente, o nosso desejo de autenticidade. Enquanto os influencers de carne e osso «são pessoas reais a tentar perpetuar algum tipo de fantasia, Shudu é uma imagem de fantasia a tentar chegar à realidade», diz Wilson.

Mas talvez o futuro das redes sociais não seja sobre o que é falso ou real. Afinal numa época em que exigimos menos Photoshop, mas continuamos a adorar os filtros do Snapchat, os influencers mais bem-sucedidos parecem existir entre os factos e a fantasia.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de setembro de 2018