Pode Agora a Indústria da Moda se Tornar Mais Amiga do Ambiente?

O momento, mais do que nunca, é de reflexão e de ação. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © D. R.

Esta pode ser uma maneira estranha de começar este texto, mas está a ver o filme Um Elétrico Chamado Desejo? Pois bem, na película, Marlon Brandon interpreta o papel de um homem que mantém uma relação bastante abusiva com a sua esposa Kim Hunter, e que se desenrola da mesma infeliz forma como tantos outros do género: ele trata-a mal, ele pede desculpa, ela desculpa, fica tudo bem. Pois bem, este tipo de relacionamento é bastante semelhante ao que o ser humano tem com a Terra: tratamo-la mal e tiramos-lhe tudo que podemos, depois lá numa descarga de consciência, reciclamos umas garrafas de vidro, e pronto, dívida saldada.

O grande problema desta linha de raciocínio é que, na verdade, as coisas não funcionam assim, e tal como no final da película em cima mencionada (SPOILER ALERT) também a nossa relação com o planeta pode estar em risco.

Essa confirmação – ou se preferir, essa reconfirmação – chegou no final de 2019, mais concretamente em dezembro, quando o relatório anual da Agência Europeia do Ambiente foi publicado. No estudo, estava presente que das 30 metas que a UE desejava alcançar até 2030, apenas duas estavam perspetivadas que seriam alcançadas. O cenário foi tudo menos bonito, e por isso, Hans Bruyninckx, diretor executivo da AEA, reagiu lançando o alerta: «O ambiente da Europa está num ponto de viragem. Nos próximos dez anos, temos uma estreita janela de oportunidade para ampliar as medidas destinadas a proteger a natureza, reduzir o impacto das alterações climáticas e diminuir radicalmente o consumo de recursos naturais». Esta realidade a que Bruynickx se referiu, já todos nos cansámos de ouvir (mesmo que entre por um ouvido e saia por outro), dita por diversos especialistas que já nem nos lembramos o nome, e que afirmam repetidamente que fugir ao aquecimento global é impossível, mas que, no entanto, reduzir os seus impactos é ainda exequível. Claro que a gratificação por uma mudança de comportamento nunca vai ser imediata, no entanto, recentemente, aconteceu algo que nos conseguiu mostrar (infelizmente pelos piores motivos) que a natureza ainda se consegue regenerar: a chegada e a propagação da Covid-19 pelo mundo inteiro.

Com a paragem mundial das sociedades, que se viram (em grande parte dos casos) “presas” em casa numa quarentena imensa, o planeta teve (pela primeira vez em décadas) espaço para respirar fundo. Os níveis de CO2 existentes na atmosfera reduziram de uma forma drástica (com uma estimativa que ronda os 9,6 milhões de toneladas). A diminuição do ruído sísmico (causado pela ausência de vibração dos automóveis e fábricas) decresceu. E até os animais selvagens, que até então viviam em áreas de floresta, começaram a sentir-se à vontade para regressarem a zonas que, antes de terem prédios, estavam pavimentados de terra e plantas silvestres. Claro que esta paragem temporária não é suficiente para abrandar o aquecimento global, mas neste terreno sombrio e pantanoso, acaba por ter a nobre função de mostrar à humanidade de que ainda é possível equilibrar a balança ecológica.

Ponto de viragem

Como já é sabido, a indústria da moda tem um papel fundamental na manutenção deste equilíbrio ambiental. De acordo com um estudo feito pela WWF, em 2017, ela emite 1,7 biliões de toneladas de CO2 anuais, produz 2,1 biliões de toneladas de desperdício – sendo que, de acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, os portugueses contribuem com cerca de 200 mil toneladas de roupa para este número – e ainda é responsável pela poluição de cerca de 20% da água mundial durante os processos de produção, e pela libertação de 35% dos microplásticos presentes nos oceanos.

Olhando para estes dados, a mensagem parece ser clara: tanto a indústria da moda como nós (através da forma desenfreada como consumimos), precisamos mudar. Mas será que esta altura (em que ganhámos mais consciência do impacto que a poluição tem na nossa saúde, nomeadamente com vários estudos a apontarem para a mesma como uma possível responsável pela a degradação do estado clínico dos doentes com Covid-19) pode ser aproveitada pela indústria para finalmente perceber que alcançar a sustentabilidade é algo absolutamente necessário?

«Esta situação sem precedentes veio-nos mostrar que quando a humanidade se junta por uma causa comum, uma mudança rápida pode acontecer.»

Javier Goyeneche
Fundador da ECOALF

Não somos donos de uma bola de cristal – e fazer futurismos não é solução – por isso, uma das possíveis formas de tentar perceber de que maneira se podem as coisas desenrolar, é olhando para o passado. «É seguro dizer que, historicamente, existem exemplos de uma relação entre grandes convulsões sociais e o consumo produtos de segunda necessidade como a moda», começa por nos esclarecer a historiadora Magda Pinheiro, «depois da Revolução Francesa emergiu uma moda corporizada numa nova liberdade de vestir, fazendo desaparecer as formas de usar roupa identificadas com a sociedade de ordens, nomeadamente com a nobreza. As ideias dominantes eram a da liberdade do corpo, e da simplicidade (…) A primeira Guerra Mundial, as mortes da pandemia e finalmente os triunfos das sufragistas vão trazer uma nova necessidade de libertação. A cintura desce nos vestidos das mulheres, e as saias sobem, apenas cobrindo o joelho. Esta nova moda conhece alguma democratização, pois estende-se até à pequena burguesia urbana numa altura  em que a expansão urbana se afirmara. (…) A crise de 1929 trás um retorno do moralismo. Uma nova descida das saias, o carrapito no cabelo e a roupa escura voltam a afirmar-se, por exemplo, no Portugal de Salazar (…) Após a segunda Guerra Mundial, durante a qual houve falta de comida e de tecidos em quase toda a Europa, e as mulheres se vestiam com o que podiam, houve um novo florescimento da moda. A moda logo no pós-guerra traz as calças com elemento fundamental do guarda-roupa feminino. As camisolas coladas ao corpo, e os fatos de banho em latéx.»

Industria da Moda Ambiente

Necessidade de mudar

Se existe algo que a história tornou evidente, é que, depois de um período mais conturbado, a moda passa por mudanças inevitáveis – quer seja porque estava presa a uma sociedade mais empobrecida, porque esta procurava mais liberdade ou porque mudou por completo o seu sistema de valores. Identificar onde está exatamente essa mudança é que nunca é fácil. No entanto, parece que no caso da moda o caminho que se está a traçar é rumo a uma indústria mais «green». Algo que se tornou evidente quando em abril deste mesmo ano novos nomes se associaram ao Fashion Pact (uma coligação criada durante a reunião dos G7, em França, em 2019, onde conglomerados, industria têxtil e produtores de matérias-primas se comprometeram a combater o aquecimento global), que começou com 32 assinantes e que, à data atual, conta com 67 (onde estão nomes que vão desde o Grupo Calzedonia ao El Corte Inglés).

Este tipo de atitudes são, neste momento, para o fundador da marca Ecoalf, Javier Goyeneche (que desde o lançamento da marca produz toda a sua roupa de forma sustentável, através do uso de materiais orgânicos ou do recurso a plásticos recolhidos dos oceanos), algo fundamental: «Estamos a destruir o planeta e precisamos que uma nova geração de marcas surja para reduzir o impacto ambiental criando, ao mesmo tempo, bons produtos e serviços. O que fazemos já não é importante, o que importa é como o fazemos» começa por dizer. «Chegou a hora de nos responsabilizarmos. Temos uma missão que vai para além dos negócios. A indústria da moda é uma das mais consumidas, e a segunda mais poluente. Acredito que o tempo em que o que importava era simplesmente ter bom aspeto acabou. Temos a oportunidade e a responsabilidade de repensar nos modelos de negócios que queremos construir no futuro (…) que pode, inclusivamente, inspirar outros. Esta situação sem precedentes, veio mostrar-nos que quando a humanidade se junta por uma causa comum, uma mudança rápida pode acontecer», remata.

Neste momento, um voltar à velha «normalidade» (quando a necessidade de mudança já se tornou tão evidente) é pouco desejável… Será que as pessoas estão mesmo dispostas a mudar os seus hábitos? E será que estão prontas para exigir às marcas mais transparência? «Não há dúvida que a consciência ecológica dos jovens está a aumentar. Mas as mesmas pessoas que reivindicam mudanças profundas na sociedade, são também as que são mais sensíveis à moda» afirma Magda Pinheiro «Então é difícil saber se a reutilização de tecido e as peças de roupa ou malas vintage se vão impor. Esperemos que haja uma forte consciência de que a opção por produtos sintéticos e plásticos é muito nociva para o ambiente e que, pelo menos, se consiga evoluir para a produção de roupa mais durável».

Não sabemos qual o desfecho desta história, até porque se existe algo que aprendemos nos últimos tempos é que apenas conhecemos o dia de hoje (o amanhã é uma incógnita), no entanto, é garantido que todos nós temos um papel preponderante nesse caminho, e que no final, a fatura das nossas escolhas será sempre emitida.

Sobre o Fashion Pact

Todos os que o subscreverem, comprometeram-se a: tornar as suas cadeias de produção mais transparentes e responsáveis, promoverem uma economia circular, procurarem meios de produção de matérias-primas mais sustentáveis, implementar medidas que eduquem os consumidores, e ainda garantirem que tudo isto está assente numa política que garanta o pagamento de salários justos e um local de trabalho seguro.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho/julho de 2020.