Gonçalo Peixoto: «Uma marca não é só desenhar roupa»

O l'Enfant Terrible é um dos nomes mais promissores da moda portuguesa. Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: D.R.; © Ugo Camera; © Frederico Martins

Tem apenas 22 anos e quatro coleções apresentadas na ModaLisboa. Dois factos mais que suficientes para considerar que Gonçalo Peixoto é um dos nomes mais promissores da moda portuguesa. Mas como é que tudo aconteceu na vida deste jovem designer para conseguir chegar a este ponto? A resposta está aqui.

Apesar de não ligar a televisão há mais de três meses (reflexos da evolução dos tempos, que é como quem diz, do aparecimento da Netflix, claro), não perde episódios de séries como Game of Thrones, How To Get Away With Murder, Sense8 ou Black Mirror. Gosta de ouvir Carolina Deslandes, Best Youth, Ariana Grande, Rihanna, Adele e Céline Dion (especialmente durante as horas em que está a trabalhar, sendo os temas To Love Me More, Alone, I’m Alive e Pour que Tu M’Aimes Encore os seus favoritos). Apesar de não ter nenhum filme em particular que consiga identificar como sendo o seu predileto, não consegue dizer que não a uma peça de teatro da Broadway. Nos tempos livres, gosta de estar com os amigos (aliás, basta segui-lo nas redes sociais e ver as suas stories para rapidamente se perceber isso) e com a família.

E se depois de tudo isto olhássemos apenas para estas características indicadas, partiríamos do pressuposto de que Gonçalo Peixoto leva uma vida semelhante à de tantos outros jovens da sua idade. Mas a realidade não é bem assim. Afinal, quantas são as pessoas que podem dizer que aos 22 anos de idade (feitos no passado dia 4 de março) já têm uma marca própria e que já apresentaram a sua coleção por diversas vezes na ModaLisboa?

O início de tudo

O amor que Gonçalo tem pela moda começou quando era ainda muito pequeno. E apesar de não conseguir dizer com precisão que idade tinha quando foi visitado pela «mensagem divina» desta indústria trazida pelo arcanjo Marc Jacobs (ou outro qualquer designer), recorda-se de que deveria ter cerca de 10 anos de idade no momento em que o encanto surgiu: «Não me lembro muito bem de quando tudo começou, mas sei que sempre adorei aquela coisa típica de ir às compras com a minha mãe, porque na verdade era aquilo que eu mais tarde viria a querer fazer [desenhar roupa de mulher].»

Claro que, na altura, o jovem designer de Vila Nova de Famalicão já percebia que tinha um particular gosto pelo vestuário feminino, mas não tinha noção de que um dia aquele mundo de vestidos, camisas, blusas, camisolas e t-shirts viria a fazer parte da sua vida profissional. No entanto, com o chegar do final do 9º ano essa ideia acabou por se tornar clara e, como resultado disso, Gonçalo Peixoto decidiu deixar o ensino regular e dar seguimento à sua vida académica através de um curso profissional de Design de Moda, no CENATEX, na cidade de Guimarães, para «tirar todas as teimas» e garantir que esse era mesmo o caminho a seguir. Esses três anos foram fundamentais no percurso do designer: «Era um aluno exemplar, e foi aí que trouxe as bases para hoje. Porque um curso profissional é mais prático».

Após ter terminado esta formação, e apesar de ter adquirido uma série de conhecimentos sobre moda, o jovem decidiu que o passo certo a dar era continuar na vida académica. Uma decisão que na altura para ele fez todo o sentido, mas que acabou por vir a ser uma das mais difíceis da sua vida. Não porque implicaria mudar-se para o Porto, ou alugar um apartamento que teria de dividir com mais dois ou três colegas (e quem já passou por isto sabe perfeitamente o quão difícil é ter de coabitar com tantas personalidades diferentes no mesmo espaço), mas porque precisamente no mesmo ano em que começava esta nova fase da sua vida na ESAD (Escola Superior de Arte e Design), decidiu lançar a sua marca.

O lançamento da marca

A primeira coleção completa de Gonçalo Peixoto foi criada em 2015, quando o criador tinha apenas 18 anos. «Era uma coisa que eu realmente queria fazer [lançar a marca]. Queria perceber se era algo que funcionava», afirmou.

Para este lançamento, Gonçalo contou com a ajuda dos pais: «Ajudaram-me muito no início, julgo que as minhas primeiras duas ou três coleções foram construídas com a ajuda dos meus pais, porque o que aconteceu foi que eu, aos 18 anos, tinha de cuidar de uma marca porque me atirei para o mercado de trabalho. Felizmente as coisas correram bem, e comecei a tornar-me mais independente. Até porque se queria seguir em frente com isto, tinha de o fazer com o meu próprio dinheiro. A marca tinha de ser sustentável, estruturada, para que fosse viável (…), algo que aprendi com os meus pais.»

As coisas correram-lhe a favor, e dois anos após ter lançado a marca não poderia estar melhor. «Quando investi na campanha de Marrocos [a de primavera-verão 2017], decidi que aquilo era o ‘ou vai ou racha’ e correu super bem. E foi aí que a marca ganhou uma estrutura de verdade (…) e tudo começou à séria. Comecei a ter contacto com a imprensa, comecei a estar presente em showrooms e, por isso, o público começou a perceber melhor o que é a marca.»

Tudo corria de feição na Gonçalo Peixoto, mas, na universidade, ir às aulas e cumprir com as datas de entregas de trabalhos acabou por se tornar um verdadeiro desafio. O que fez com que estes fossem «os três piores anos da minha vida. Porque tive de conseguir conciliar as duas coisas. Por um lado, tinha aulas e trabalhos para fazer, e, por outro, tinha a marca que não parava de crescer. O que era ótimo, claro, mas muito difícil.»

Como resultado, acabou por se tornar «aquele aluno que entregava tudo à última (por falta de tempo) e que só fazia o mínimo necessário para poder terminar o curso. Porque era uma faculdade a full-time. Estava lá todos os dias, das 8h da manhã às 17h. E depois só tinha três ou quatro horas por dia para me dedicar à marca. (…) Foram três anos nisto. Foi muito cansativo. Porque preços és tu que fazes, estratégias és tu que fazes, comunicação és tu que fazes. Uma marca não é só desenhar roupa. É muito mais do que isso. Eu passo a maior parte do meu tempo com o Excel aberto», ainda assim, «acabei a licenciatura nos três anos. Não sei como, mas consegui».

Depois da tempestade

Hoje em dia, e apesar de ter poucos anos de vida, podemos dizer que a marca Gonçalo Peixoto está bem estabelecida no mercado. Mas tudo só aconteceu graças ao trabalho e à dedicação do jovem designer. Com uma clientela já fixa, ele caracteriza a identidade da sua etiqueta como sendo uma junção entre a desconstrução dos moldes clássicos do vestuário feminino e o streetwear.

Os preços, esses, não podiam ser mais democráticos, considerando-se de médio e alto custo, algo que o Gonçalo Peixoto decidiu quando lançou a marca no mercado: «Foi uma decisão e uma preocupação minha que a marca também tivesse peças acessíveis», algo que «faz parte de uma ginástica e de um trabalho de reajustar tudo o que tu tens ao preço que pretendes», afirma.

Atualmente o designer encontra-se no processo de internacionalização da marca. Além de vender em Portugal, em lojas como a Feeting Room e a Scar-Id, o designer tem algumas das suas peças à venda noutros países: «Faço a White em Milão, que me corre bem e, graças a isso, os buyers compram as peças lá. Capri, Veneza e outras cidades da costa italiana compram muitas coisas Gonçalo Peixoto. O que eu faço lá é internacionalizar a marca. Por isso, tenho já muitos clientes em Itália, Nova Iorque, Espanha e França, e também na Rússia.»

Para facilitar todo este processo, em maio o designer vai relançar o seu website. «Vai ser uma cena à séria. Vou pôr todas as coleções online (as atuais), ter mais conteúdo. A estratégia para este ano é apostar 90% no online e o resto em buyers.»

O processo criativo

Não podíamos encerrar este artigo sem falar sobre o processo criativo de Gonçalo Peixoto. Até porque, por muito que nos encantemos pelas peças que o designer apresenta na passerelle, temos sempre curiosidade em saber como é que tudo ganha vida…

Bem, cada designer certamente terá uma resposta diferente, no caso de Gonçalo Peixoto tudo começa «assim que acho que tenho uma ideia para a coleção escolho os tecidos, porque depois isso influencia o processo criativo, e parto então para o desenho quando tenho tudo mais ou menos alinhado. Nessa parte fico durante umas semanas a marrar, a tentar criar. No entanto, é um processo contínuo, porque fico do tipo ‘OK, comecei por aqui’, mas depois vai evoluindo e vou mudando as coisas».

Assim que o processo de criação termina, passa então para a parte de desenvolver os moldes e as peças, para que possa perceber se tudo resulta bem, num todo. A inspiração, essa, pode vir de qualquer lado. «As primeiras coleções partiram de inspirações de viagens que fiz e as últimas foram já algo mais concetual (…), por exemplo, a coleção das hit girls começou através de desabafos feitos pelas minhas amigas. Às vezes, uma frase pode inspirar-me para 50 coordenados. (…) Mas é tudo um jogo».

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho de 2019.