Vivienne Westwood, a Designer de Moda Que Quer Continuar a Salvar o Planeta

Westwood é muito mais do que uma simples designer de moda. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Imaxtree e Gtresonline.

Quando abrimos o nosso navegador de internet, e colocamos na barra de pesquisa do Google a palavra «Glossop» (nome de uma pequena vila rural perto de Manchester), as imagens que nos surgem são muito semelhantes àquilo que, no nosso imaginário, se assemelharia a uma tradicional localidade britânica do interior: um amontoado de casas perdidas no meio de um vasto labirinto de árvores e colinas onde, aparentemente, reina aquela sensação de tranquilidade que tanto associamos a este tipo de paisagem. Mas, por muito relaxante que seja este ambiente, não poderia ser mais contrastante com o espírito de uma das suas filhas mais pródigas: Vivienne Isabel Swire, mais conhecida como Vivienne Westwood.

Nascida numa família humilde, a 8 de abril de 1941, teve o seu primeiro contacto com a Moda quando tinha apenas oito anos, na Escola Católica de Tintwistle, que frequentava juntamente com os seus irmãos (Olga e Gordon Junior). A aula de costura (que acontecia uma vez por semana) era uma das suas prediletas e por isso dedicava-se a ela intensamente, enquanto devorava livros sobre os mais variados temas (um hábito que cultiva até aos dias de hoje). Ainda que, naquela altura, a sua forma favorita de pôr em prática essa paixão fosse costurando pequenas bonecas de pano, quando tinha por volta de 11 ou 12 anos, numa mistura de necessidade e vaidade (uma condição que é inerente a praticamente todos os seres humanos) decidiu que estava na hora de dar o próximo passo, e por isso, começou a costurar as suas próprias roupas. Foi precisamente por volta desta altura que a sua vida começou a mudar. Não por causa da costura (até porque, na década de 50, por muito prazer que lhe desse, esse tipo de atividade era vista mais como um «plus» para uma jovem menina prendada), mas antes porque foi uma das selecionadas para entrar na Escola Secundária de Glossop, um espaço que lhe abriu portas para um novo mundo: o das artes.

Perdeu-se de amor por este novo universo e, quando tinha 17 anos (altura em que se mudou com a família para a cidade de Harrow, nos subúrbios de Londres), percebeu que, de alguma forma, a sua vida passaria a estar ligada a esse meio. Na mente da jovem designer, essa era uma ideia em parte encantadora em parte irrealista. O simples facto de ter vindo de uma família de classe média, de origens humildes, fazia com que não percebesse como é que poderia transformar a sua paixão num trabalho rentável. Por isso, depois de ter frequentado apenas um semestre do curso de Moda e joalharia, na Escola de Artes de Harrow, a convite do seu professor, o Sr. Bell, decidiu mudar de planos. Em vez de se especializar nessa área, optou por alterar a estratégia e estudar para se tornar professora de artes. Assim, se nada corresse bem enquanto artista, poderia sempre dar aulas.

What’s love got to do with it 

Após ter terminado o curso (que foi conciliando com o trabalho numa fábrica) começou a lecionar numa escola primária e vender joias feitas por si no mercado de Portobello Road aos fins de semana. Na altura (início dos anos 60) o Reino Unido começava a ganhar mais importância na indústria da Moda, e o Rock’n’Roll, popularizado pelos Beatles, começava a ser um estrondoso sucesso. No ar pairava uma vibração de liberdade à qual Westwood não era indiferente, especialmente porque os seus pés não resistiam a uma boa batida. E foi precisamente devido a isso que, numa pista de dança (assim como acontecera com os seus pais) , em 1961, conheceu o seu primeiro marido, Derek Westwood.

Casaram-se rapidamente. E com a mesma velocidade que se juntaram, separaram-se. Os dois tinham visões distintas da vida e Vivienne queria recuperar a sua liberdade para poder explorar melhor o mundo. O simples papel de mulher que fica em casa à espera do marido não lhe assentava. Assim, em 1963, acabou por se divorciar, pouco depois de ter tido o seu primeiro filho (Benjamin Westwood).

Depois de ter terminado o casamento, Vivienne continuou a dar aulas. No entanto, a sua carreira no ensino terminaria em breve, depois de ter conhecido um dos colegas de universidade do seu irmão: Malcolm McLaren. Os dois apaixonaram-se perdidamente e alguns anos mais tarde acabaram por se mudar, juntos, para um apartamento (juntamente com o filho de Vivienne, Benjamin, claro), para um apartamento em Clapham. Mas a relação era tudo menos fácil. Como a própria recordou no seu livro biográfico «Ele portava-se de uma forma tremendamente cruel. Profissionalmente, pessoalmente, de todas as formas (…) Eu costumava bater-lhe. Um dia ele bateu-me também… não conseguia sair de casa sem me pôr a chorar.» Mas a relação manteve-se e, em 1967, tiveram o seu primeiro filho juntos, Joseph Corré (co-fundador da marca Agent Provocateur).

At 430, King’s road 

É em 1971 que a grande entrada da designer para o mundo da Moda se dá. Depois de ter deixado o ensino, Malcolm (que tal como ela era um apaixonado por música) acreditou que seria uma boa ideia revender discos de Rock’n’Roll da década de 50 e, assim, os dois abriram um espaço na parte de trás de uma loja chamada Mr. Freedom, no n.º430 de Kings Road, em Londres. Mas Vivienne queria também ajudar neste espaço, e foi então que decidiu começar a vender as suas roupas sob o nome de Let It Rock (não porque tivesse grande vontade de o fazer, mas porque queria apoiar o namorado).

Com o frenesim da época, a loja mudava de nome várias vezes, como se fosse sempre um espaço novo. E, de facto,
era. Sempre que o nome era alterado, todo o seu interior era transformado também, incluindo as peças de Westwood. Era como se desenhasse novas coleções. Ali, ela explorou e experimentou um pouco de tudo com a roupa, desde reinterpretar o look Teddy da década de 50 ou construir peças em cabedal e borracha repletas de fechos (inspirada um pouco pela corrente fetichista que começava a surgir).

O grande Boom da marca dá-se em 1976, quando McLaren cria os Sex Pistols (que se tornou num mega sucesso),
e a banda começa a usar roupas desenhadas pela designer, repletas de simbolismos provocadores como suásticas ou
frases como God Save The Queen (título de um dos seus maiores êxitos). Foram anos verdadeiramente loucos para a
designer. Mas tudo o que é bom acaba rápido e, no início da década de 80, Westwood estava desencantada com a forma como a cultura punk se tinha tornado tão mainstream e, por isso, decide mudar o nome da loja para World’s End (e que mantém até aos dias de hoje), e investir a sério na sua carreira como designer de Moda, com a sua primeira grande coleção a ser apresentada no ano de 1981.

Desde então, a designer britânica conseguiu tornar-se num dos nomes mais respeitados da indústria da Moda. A
forma como combina o punk, a alfaiataria inglesa, o romantismo francês e a sexualidade, procurando ter sempre uma voz politizada, garantiram-lhe sucesso após sucesso. Tanto na sua linha principal como na secundária, Anglomania. E tudo isto valeu-lhe ainda que, em 2006, fosse condecorada com o título de Dama pela Rainha Isabel II.

Mundo sustentável 

Existem três coisas que sempre caracterizaram Vivienne Westwood: as suas sobrancelhas e cabelo pintados num
tom de ruivo intenso, as suas peças de roupa indiscutivelmente distintas e a sua voz ativa e contestatária, dentro e
fora das passerelles, sobre temas relacionados com política e sustentabilidade. E claro que, neste momento, em relação à última, podíamos apontar inúmeras situações, como uma recente entrevista para o canal do YouTube da Vogue UK na qual começou automaticamente a falar sobre a importância da ecologia e como os manifestos anticapitalismo acabam sempre por conduzir a um impacto no aquecimento global. Mas quando o tema é sustentabilidade, mais importante do que falar é pôr em prática. E nesse campo, não podemos dizer que a designer, através das suas marcas, não o fez.

Atualmente, as etiquetas da designer britânica procuram continuar a tentar tornar-se o mais sustentáveis possíveis:
procuram que os tecidos sejam de origem orgânica ou reciclada, que os processos de tingimento envolvam o menor
número de químicos e, na produção, unem-se sempre a pequenos fabricantes locais ou a grandes instituições que
recorram apenas a energias renováveis.

Como Westwood dá importância à qualidade e não à quantidade, aos aspetos técnicos referidos em cima juntam-se ainda a sua vontade de parar de expandir a marca e os contínuos apelos às pessoas para comprarem o menor
número de peças de roupa possível (para que estas tenham um tempo de vida mais longo do que o que seria espectável).

Entre alguns dos seus feitos relacionados com a sustentabilidade, temos o lançamento da sua campanha Save The Arctic, em 2013, a sua união à GreenPeace em 2018 – num programa que ajuda empresas a desintoxicarem-se de processos de produção prejudiciais para o ambiente – e ainda a sua ligação à CANOPY (ONG ambiental), em abril de 2020, para que até ao próximo ano consiga garantir que todos os seus tecidos feitos à base de madeira (como o modal) sejam garantidamente provenientes de polpa de madeira de plantações de árvores amigas do ambiente, e não de antigas florestas ou reservas naturais.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho/julho 2020.