Fendi Traduz Encanto Obscuro de Virginia Woolf em Pura Magia de Alta Costura

Uma apresentação de SS21 icónica que foi a primeira de Couture desenhada por Kim Jones para a marca. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Imaxtree e GTRESONLINE.

«Palavras, as palavras inglesas, estão tão cheias de ecos, de memórias, de associações – naturalmente. Elas passeiam-se pelas ruas, nos lábios das pessoas, nas ruas, nos campos, ao longo de tantos séculos. E essa torna-se numa das principais dificuldades em usa-las para escrever hoje em dia – eles estão repletas de outros significados, de outras memórias». Foram estas as palavras ditas pela boca de Virginia Wolf que se ouviram ecoar na sala de desfiles, escura, ainda antes de entrar o primeiro look. Elas ditavam o mote desta linha, uma linha de Couture para a SS21 construída durante um período conturbado da humanidade – provavelmente tão tumultuoso quanto a alma da autora – que, ao mesmo tempo que o reflete, nos mostra como o vestuário está (assim como as palavras) carregado de um enorme simbolismo que se cola à pessoa que o usa. Uma ideia que fica clara, inclusivamente, na própria publicação de Instagram onde, através da escrita de Wolf, no seu livro Orlando, Kim Jones diz: «As roupas têm, dizem eles, mais funções do que a de simplesmente nos manterem quentes. Eles mudam a nossa perspectiva do mundo, e a perspectiva que o mundo tem de nós».

Depois de nos embriagar na voz da escritora, e assim que o discurso termina, as luzes acendem-se, e começa a apresentação naquele que parece um labirinto de vidro criado pelas caixas em forma de “F’s”. Os looks, esses, construem-se na moldura das silhuetas da década de 20/30, um tempo ao qual o designer foi não só buscar os tons mais esbatidos (como o cinza, o rosa velho, ou o azul grisaceo) como também os acessórios (como as pérolas ou cristais) que adornam as peças e as fazem ganhar vida. Os têxteis (onde não se encontra sinal de pele ou pelo), esses são aplicados num jogo de contraste, onde se combina a leveza de uns com o contraste das formas, e noutros, onde as formas mais livres se fazem através de tecidos mais rígidos.

Look após look, Kim Jones que através desta coleção (onde nos apresenta um pouco da sua herança britânica), supreende mostrando como o simbolismo e o significado das peças pode permanecer intocável durante décadas ou, ao fundir-se com outra, consegue ganhar uma espécie de novo caracter. Esta demonstração, feita a um ritmo alucinante, tornou-se ainda mais memorável graças à escolha das modelos que vestiram as peças: Demi Moore, Cara Deleving, Christy Turlington, Naomi Campbell, Lila Grace, Kate Moss, as irmãs Adwoa e Kesewa Aboah e Delfina Delettrez, neta do fundador da Fendi.

O toque de mestre era dado no final: depois de cada uma percorrer a passerelle, cada uma deslocavam-se para dentro destas caixas de vidro na forma de F (como se fossem mostruários de uma loja) fazendo com que aquele espaço oco ganhasse uma nova energia graças ao look que vestiam, criando uma numa simbiose perfeita com os restantes adereços neles presentes.