Existe Uma Explicação Para Os Bolsos Das Suas Calças Serem Tão Pequenos

Garantimos-lhe que nunca imaginou que seria esta a razão. Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: D.R.

Lembra-se daquela cena do filme Mean Girls em que todas as raparigas – depois de Regina George ter espalhado pela escola inteira páginas do Burn Book – se reúnem no ginásio, onde Tina Fey lhes faz uma série de perguntas em grupo, como «Quem é que já se sentiu atacada pela Regina?», para que em conjunto tenham uma espécie de realização coletiva? Ótimo, até porque vamos começar este texto por fazer exatamente o mesmo exercício.

Então, que levante a mão (pelo menos, mentalmente) quem já tentou guardar o telemóvel, as chaves de casa ou o porta-moedas no bolso da frente das calças e se apercebeu de que o espaço nele disponível apenas permitia a entrada de duas moedas, ou de um batom, ou então de um isqueiro (sim, escolhas têm de ser feitas). Neste momento não conseguimos ver nem ouvir as vozes das pessoas que responderam «eu», mas temos quase a certeza de que grande parte das mulheres que está a ler este texto (se não mesmo todas) tem a mão no ar.

Agora, repita o exercício, mas desta vez coloque a questão a um homem ou dois, pergunte-lhes se alguma vez tiveram dificuldade em guardar o seu iPhone X ou a sua carteira no bolso da frente das calças. Já está? Se sim, então já notou que existe uma clara discrepância nas respostas. Mas alguma vez parou para se questionar sobre o motivo que leva a fazer com que esta diferença exista? E é claro que existe uma razão, não se trata de mera casualidade. Portanto, sente-se confortavelmente e prepare-se para embarcar connosco nesta viagem que vai ser tudo menos aborrecida. Aliás, se para alguma coisa vai servir será para mostrar como, por vezes, problemáticas maiores espalham os seus tentáculos, tocando em coisas mais pequenas (neste caso, bastante pequenas).

E Deus criou o bolso

Para que possa perceber como acabámos com este problema em mãos, ou melhor, com este problema onde mal conseguimos pôr as mãos, temos de regressar atrás no tempo, cerca de 400 anos, para aterrarmos no século XVII, altura em que os bolsos passaram a fazer parte do guarda-roupa feminino. Claro que na altura eram ligeiramente diferentes daqueles que conhecemos hoje. Para começar, o seu tamanho era idêntico ao de um saco do pão, e depois, em vez de estarem costurados à cintura, funcionavam quase como se fossem uma espécie de fanny pack feita de pano (por baixo da última saia). Esta espécie de bolso (melhor do que nada) ficava praticamente invisível sob as 300 saias que se usavam para exagerar a forma do corpo feminino e as suas curvas, mas à medida que o tempo foi passando, e a moda foi mudando, a sua existência acabou por se tornar um problema. E não, não era por ser desconfortável ter algo atado à cintura, nem porque o seu acesso não era fácil, mas, antes, porque no século XIX os padrões de beleza começaram a mudar, e começou a existir o culto de um corpo com uma silhueta mais fina e pequena.

Imagine, as senhoras da altura queriam parecer mais magras e, de repente, tinham um alto enorme na lateral do corpo, não podia ser. Por isso, disse-se adeus ao bolso, substituindo-o pelo tão amado acessório (sim, adivinhou), a carteira, mais concretamente, a retícula. Um modelo bastante adornado, mas muito pequeno, onde pouco mais cabia do que um lencinho e uma moeda, mas também, seguindo o pensamento da altura, uma senhora não precisava de nada mais do que isso, afinal o homem é que era o verdadeiro detentor de objetos valiosos (como o dinheiro).

Claro que esta mudança não veio agradar a todas as mulheres, e por isso, no final do século XIX, mais concretamente em 1881, foi formada a Society for Racional Dress (Sociedade para Roupa Racional) em Londres. Este grupo de mulheres procurava lutar pela reforma das normas do vestuário feminino, apelando a várias mudanças, entre elas, o regresso dos bolsos ao vestuário feminino, desta vez, costurados nas peças (para se tornarem mais funcionais) como já acontecia há séculos com o guarda-roupa masculino.

Olá, século XX

Os primeiros resultados dos esforços feitos por estas mulheres começaram a tornar-se notórios no início do século XX, e um perfeito exemplo disso é o caso da roupa usada pelas sufragistas, em que os bolsos já integravam as peças. Apesar de tudo, só no início dos anos 20 é que se deu a verdadeira revolução na indústria da moda relacionada com este item, tudo graças a uma senhora que tinha o hábito de dizer (e fazer) que a roupa feminina precisava de ser prática e funcional. Provavelmente já ouviu falar dela, chamava-se Coco Chanel. Sim, foi a couturier e fundadora de uma das maisons mais icónicas de sempre que (muito inteligentemente, diga-se de passagem) ajudou a popularizar estas pequenas estruturas que tanto jeito dão a tornarem-se vitais. Claro que esta mudança foi muito bem recebida, especialmente tendo em conta o contexto político-social: o mundo em guerra (durante muitos anos) e as mulheres a ocuparem posições que até então estavam destinadas apenas aos homens.

Depois de estes conflitos terem chegado ao fim, a situação voltou a mudar de figura, afinal, as mulheres precisavam de ajuda para perder os maneirismos «masculinos» que tinham ganhado durante esta fase. E não, não vamos dizer que os homens e o patriarcado tentaram abolir os bolsos, mas certamente ajudaram. Como? Dizendo que o essencial era elas manterem uma figura desejável. Afinal de contas, para quê fazer da roupa algo funcional? Isso era necessário quando estavam a trabalhar, agora que regressavam às suas casas, já não era preciso, e para guardar as chaves de casa ou o porta-moedas tinham sempre as suas carteiras. Este foi o pensamento que reinou a partir da década de 50, e que, consequentemente, acabou por se repercutir nas seguintes, em que magro continuava a ser sinónimo de belo, portanto, não se podia arriscar a arruinar a silhueta colocando bolsos nas calças.

Tecnicamente, o trabalho de um designer de moda é conseguir criar peças de roupa que sejam esteticamente apelativas, embora sem sacrificar a sua funcionalidade, mas parece que poucos – apesar de a roupa militar e o utilitarismo das peças serem uma enorme tendência – receberam este memorando. Ao longo de mais de 60 anos, as mulheres continuaram a ser vítimas de «descriminação de bolso». Pode até parecer algo pequeno, mas não deixa de ser caricato (ou não) que hoje, em que ser feminista está na ordem do dia, estes sintomas de uma sociedade patriarcal tão intensa como era a de há 60 anos continuem a estar tão enraizados, e sem que sequer os questionemos.

Contra Factos…

Recentemente, um estudo realizado e publicado por duas mulheres (Jan Diehm e Amber Thomas), em 2018, no blog The Pudding, chegou à conclusão daquilo que já todos sabíamos, só não tínhamos dados estatísticos para o comprovar. Depois de terem sido analisados 80 pares de bolsos de calças de homem e de mulher, as duas chegaram à surpreendente conclusão (só que não) de que a diferença de tamanho entre o bolso masculino e o feminino ronda os 48%. Ou seja, o bolso das calças desenhadas para o sexo feminino tem, em média, quase metade do tamanho do bolso das calças usadas pelo sexo masculino. Para sermos mais concretos, em média, o bolso feminino tem 14 cm de profundidade por 15 cm de largura, enquanto o bolso masculino tem 23 cm de profundidade por 16 cm de largura. Apesar de tudo, é preciso ainda salvaguardar que estas diferenças não se verificam de forma tão acentuada nos bolsos de trás das calças, isto porque eles simplesmente acabam por não ser tão visíveis quanto os outros.

A questão da carteira

Não poderíamos deixar esta parte em aberto. Muito provavelmente, quando estiver no café com os seus amigos, ou em casa com a sua família, e lhes contar sobre um artigo (interessantíssimo) que leu na ELLE sobre bolsos, e sobre como de facto sempre os achou perfeitamente inúteis por serem mínimos, alguém vai jogar a cartada da carteira: «Mas as mulheres têm carteiras, podem guardar as coisas lá». Pois, a questão é mesmo essa, a necessidade de usar uma carteira diariamente só existe porque as calças não têm tamanho que chegue para guardar um pacote de pastilhas elásticas e um cartão multibanco. No fundo, ela funciona quase como uma taxa cor-de-rosa que é imposta à mulher, e que dita que se quiser transportar algo mais do que um tampão no bolso, vai ter de comprar uma carteira. Depois disto, pode sempre acrescentar que: a) não são tão práticas; e b) são facilmente alvo de roubo ou perda (quem nunca?!).

Teoria da conspiração

Voltando um pouco atrás no tempo, ou se preferir, no texto, vai reparar que mencionámos que a ausência de bolsos nas peças de roupa veio fazer com que as carteiras se tornassem populares, certo? Pois bem, existe uma enorme fação de pessoas que acredita que a razão pela qual o problema ainda não foi solucionado está diretamente relacionada com este acessório. E porquê? Porque, só neste segmento, a indústria da moda gera cerca de oito biliões de dólares por ano.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de julho de 2019.