Katty Xiomara: «Temos de conseguir a igualdade através da nossa diferença»

'Uma mulher não precisa de ser modesta para ser respeitada', faça-se da palavra de Katty a nossa palavra. Por: Margaida Brito Paes -- Imagens: Portugal Fashion/ Ugo Camera

«Beleza sem inteligência é apenas decoração», «Ninguém é como tu e esse é o teu poder» ou «Uma mulher não precisa de ser modesta para ser respeitada», são algumas das frases que surgiram discretamente estampadas na coleção de Katty Xiomara. As propostas da designer para o próximo outono-inverno foram apresentadas dia 24 de fevereiro, em Milão no âmbito da semana de moda, com o apoio do Portugal Fashion.

Nos bastidores a roupa pendurada provocou uma explosão de cor feita de rosas, vermelhos, roxos e azuis. Escondida nas silhuetas ultra femininas de Katty estava a Kitty, a Hello Kitty. Esta personagem animada japonesa, que na realidade não é uma gata mas sim uma menina inglesa, como explicou à Elle a designer, foi o mote para uma coleção que grita feminismo do início ao fim. O que era para ser uma coleção cápsula para comemorar os 45 anos desta gata/menina sem boca, transformou-se numa coleção inteira.

Com Kitty, a Katty viajou até à infância, voltou à Venezuela livre, olhou para as mulheres no Portugal pré-revolução, analisou as lutas feministas dos anos 70 e homenageou as mulheres que lutaram pela igualdade. Mas para a designer,a igualdade de género deve ser conquistada pela diferença e pela liberdade de ser diferente. Com todas estas ideias na cabeça desenhou roupa com o seu ADN e muitas palavras de ordem. Uma coleção que a designer garante não ser política, mas que tem política em cada costura.

A mesma coleção será apresentada esta sexta-feira, 15 de março, pelas 18h na Alfândega do Porto.

entrevista katty xiomara

Como surgiu esta parceria com a Hello Kitty?

A Sanrio convidou-me para celebrar os 45 anos da Hello Kitty. Eu sou fã dela! Na altura a ideia era fazer uma coleção cápsula, que seria para apresentar separadamente. Mas depois achei que seria mais interessante integrá-la na coleção. De facto, a Hello Kitty acabou por dar o mote de inspiração à coleção. A Hello Kitty faz 45 anos este ano, e eu também, por isso acabei por juntar as coisas e fazer uma viagem à minha infância e adolescência. Eu nasci e cresci na Venezuela, e brincava muito na rua, por isso para mim tudo o que era verde, mesmo dentro das zonas urbanas, era-me muito familiar. Uma das coisas que mais me recordo é de uma planta em particular, agora sei que se chama mimosa pudica, é uma planta que quando é tocada se fecha, é uma planta viva e com movimento. E eu, em criança, adorava isso, é uma coisa muito presente na minha mente e acabei por criar os padrões inspirados nisso e noutras coisas que me dizem respeito como pessoa. Outra das coisas que mais me diz respeito é o facto de eu ser mulher. O conceito de mulher diz-me muito, porque eu só tenho irmãs e uma mãe com um caráter bastante forte.

Qual é o teu conceito de mulher?

O meu conceito de mulher é, na verdade, que possam existir vários conceitos de mulher. Eu acho absurdo ‘encaixotarmos’ a mulher. Temos de ter esta liberdade de sermos eclécticas e diferentes. Acho que, como mulheres, temos de conseguir a igualdade de direitos através da nossa diferença. A minha filosofia é muito essa, e dá para ver na minha coleção que nada é muito igual, existe uma grande diversidade de formas.

Mas são sempre formas muito femininas…

Sim, sobretudo nesta coleção, em que usamos a mulher como pano de fundo. A ideia não é fazer uma manifestação feminista, mas sim honrar e agradecer às mulheres que me permitiram ser o que eu sou hoje.

Então esta coleção não é só uma visita à infância, mas também às mulheres que te marcaram nesse período?

Acabei por fazer esta homenagem porque, a dada altura, me apercebi que há 45 anos em Portugal estava a acontecer o 25 de abril. Falei com muitas pessoas sobre essa altura e sobre as condições das mulheres em Portugal. Uma mulher não podia entrar sozinha num café, por exemplo. Na Venezuela, nessa altura, apesar de, se calhar, até termos um conceito social mais machista (o estereotipo do macho latino), essa realidade não existia. Por isso, para mim, é muito difícil compreender como apenas há 45 anos, que é pouco tempo, é recente, ainda podiam haver este tipo de condicionalismos e preconceitos. A minha ideia, com esta coleção, também é lembrar aquilo que foi feito para que nós, hoje em dia, possamos fazer muitas coisas que antes não podíamos. Mas mesmo assim ainda há muita coisa por fazer e, ainda assim, ainda existem muitas culturas onde as coisas são extremamente difíceis para as mulheres.

Nos estampados da coleção vemos também além da Kitty tradicional, uma Kitty com rosto de mulher. Porquê?

Quisemos criar uma versão humana da Kitty, uma mulher que refletisse o que esta personagem representa. A Hello Kitty não tem boca para que lhe possamos dar diferentes expressões, nós fomos mais longe e tirámos-lhe os olhos e nariz para lhe conseguirmos dar ainda mais expressões. Fizemos o mesmo com a mulher. Criámos uma rosto elegante, que talvez remeta um pouco para os anos 70, mas é um elegante reaccionário também.

Como foi revisitar a Venezuela de há 45 anos, tendo em conta a situação que o país enfrenta nos dias de hoje?

É duro, é difícil… É incrível perceber como um país que tem tanto – e não me refiro apenas ao petróleo – que é país fértil que não tem razão para deixar o povo passar fome, como o pode estar a fazer. Isto também tem a ver com a educação, o povo da Venezuela não aprendeu a defender-se sozinho. Não aprendeu coisas tão simples como cultivar, criar o seu eco-espaço, ou como proteger-se a ele mesmo.

Como venezuelana a viver fora há muito tempo, como vês esta situação?

É cómodo. E é duro por ser cómodo para mim. É muito fácil falar estando deste lado, é mesmo muito fácil. O difícil é criticar quando se está do lado de lá.

Achas que esta coleção, apesar de não ter um intuito político, pode lembrar as pessoas do que a Venezuela já foi?

A ideia é um pouco essa… é lembrar a liberdade.

E dar esperança?

Espero que sim. Não sei se o consegue fazer, porque na moda é tudo muito mais fútil, mas se a podermos usar como uma mensagem devemos fazê-lo.