#ELLEstaylocal: Auprès, a Marca de Sapatos Despreocupada Com o Tempo

Sem olhar a estações do ano e com a intemporalidade no core, a marca de Ângela tem já mais de dois anos. Por: ELLE Portugal Imagens: © Nia Delfau e Ana Roque.

No dicionário francês, a preposição auprès chega acompanhada por um significado que transmite proximidade. E, em tempos como os que vivemos, parece refletir exatamente o que precisamos: de estarmos juntos. Mas, para Ângela Almeida Monteiro, este conceito fazia já sentido em outubro de 2018, altura em que deu à luz a sua marca de sapatos. Com a intemporalidade como fio condutor, as peças vão sendo desenvolvidas sem obedecer a regras e, em especial, a estações, nascendo, assim, coleções que privilegiam a qualidade, em vez da quantidade. Mas não só. Desde o final de novembro do ano passado, a sustentabilidade tornou-se, mais do que nunca, numa prioridade para a insígnia, que lançou dois modelos em pele com certificação ecológica.

Ângela Almeida Monteiro, fundadora da auprès.

O que te levou a criar este projeto?

Foi a vontade de ter um espaço livre de criação e colaboração, combinada com a minha paixão por sapatos e uma admiração profunda pelo saber fazer manual que existe em Portugal. Na altura, estava a trabalhar como freelancer, em projectos de Design Gráfico (a minha formação base, depois de uma breve passagem por Arquitectura) e sentia-me um pouco frustrada criativamente. Nesse mesmo período, o meu pai faleceu e essa perda a longo prazo foi despoletando em mim a necessidade de criar uma nova motivação para seguir em frente. Com a tradição de calçado que temos no nosso país, a ideia foi surgindo e, depois de fazer a rota de turismo industrial em São João da Madeira, fiquei fascinada ao ver aquele trabalho, ainda tão artesanal e senti que era algo que gostaria de explorar.

Qual é a história por trás do nome?

Auprès é uma preposição francesa que designa proximidade e que pretende refletir o espírito da marca: próxima, direta, transparente.

A cultura francesa é uma grande referência para mim – do cinema à literatura, passando pelas artes plásticas. É uma fonte de inspiração muito presente. Então, pareceu-me fazer sentido a escolha, pois, além do significado e da sonoridade da palavra, que acho bonita, também está relacionado [o nome] com esse imaginário estético com o qual me identifico.

O que foi mais complicado no processo de criar uma marca?

Acho que as dificuldades vão variando consoante a fase em que se está. No início, foi complicado encontrar um parceiro de confiança que me permitisse fazer produções pequenas. Neste momento, o desafio tem sido fazer a marca chegar às pessoas. Não é fácil quando se tem uma estrutura pequena, e recursos tão limitados.

 

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Qual foi a razão para nunca desistires?

Penso que foi ter um foco, saber onde gostaria de chegar, e ser perseverante.

Qual foi o melhor momento ou história da marca até hoje?

Já houve alguns momentos emocionantes nestes dois anos de existência… como por exemplo quando me contactou a primeira loja que queria ter os nossos sapatos à venda, em Berlim. Mas o melhor momento é mesmo quando recebo mensagens de clientes felizes com a sua compra. Aí esqueço-me dos obstáculos do percurso, e sinto que todo o esforço vale a pena.

Como é que a tua marca faz a diferença?

Acho que a auprès, apesar de ser uma marca relativamente recente, já tem um caráter forte, uma imagem reconhecível, tanto pelo design dos sapatos como por todo o universo que os acompanha: o estilo das fotografias, a identidade visual, a forma de comunicação, o tipo de modelos com que trabalhamos…Penso que tem algo de autêntico e honesto que a distingue.
Mas acredito que o que a torna ainda mais especial são os valores que defende, ao propor uma visão mais lentificada e ética da moda, seguindo um conceito de coleções sem temporadas: coleções produzidas em quantidades reduzidas, privilegiando a produção local, o fabrico artesanal e um design intemporal focado em materiais de alta qualidade. A partir de agora, espero que também se diferencie pela sua consciência ambiental, pois acabámos de lançar dois modelos confeccionados em pele italiana com certificação ecológica e com forros isentos de crómio. Quero seguir por esse caminho e continuar a reforçar o nosso compromisso com a sustentabilidade.

 

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O que ainda falta conquistar?

Ainda tenho muitas ideias que gostaria de explorar, muitos objectivos que gostaria de alcançar. Um deles seria estar mais próxima das pessoas, no sentido físico. Isto é, conseguir dar o pulo do digital para “a vida real”, e ter os sapatos à venda em mais lojas pelo mundo. Acho importante as pessoas poderem tocar, experimentar, ver as peças de perto. Também gostaria de fortalecer o carácter colaborativo da marca, e poder trabalhar com outros criadores que admiro.

O que mais precisas neste momento para chegares onde queres?

Dar a conhecer o nosso trabalho a um público mais amplo; consolidar a marca e fazê-la crescer.

Quais os maiores motivos para comprar português?

Para além de ser uma forma de contribuirmos para a nossa economia, há o factor da qualidade, que penso que é dos mais valiosos. Também é uma forma de consumo mais sustentável, por ser algo produzido localmente. Ao comprarmos português estamos a apoiar o tecido industrial nacional, e a ajudar a conservar estes saberes e técnicas – pessoalmente é algo que me sensibiliza, e que valorizo muito.

Diz-me outra marca/espaço português que te inspire e porquê.

Tenho gostado muito de acompanhar o trabalho da Béhen porque propõe uma nova visão da moda, e reúne uma série de valores que me são queridos: a ligação com as raízes, com um modo de fazer artesanal, seguindo uma óptica sustentável, ao dar uma segunda vida a tecidos antigos. Também acho incrível o trabalho que desenvolve com outras comunidades de mulheres ao redor do mundo.

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#ELLEstaylocal

Apoiar e dar conhecer projetos portugueses é a missão da rubrica #ELLEstaylocal. Acreditamos que hoje é mais importante, que nunca, comprar português. É importante não deixar que marcas de qualidade se percam na espuma da pandemia.

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