A Dior Desfilou Num Palácio Que Marca a Derrota de Portugal em Alcácer-Quibir

Marrocos foi o palco do desfile Cruise 2020 da Dior, que prestou homenagem a Nelson Mandela. Por: Margarida Brito Paes -- Imagens: © D.R.

Para a coleção cruise 2020, a Dior trabalhou com vários artistas, entre eles estava o alfaiate de Nelson Mandela, e juntos prestaram homenagem ao Nobel da Paz. À primeira vista, seríamos levados a pensar que a coleção Cruise da Dior deveria ter sido apresentada na África do Sul, mas não foi isso que aconteceu. Maria Grazia Chiuri escolheu Marrocos como palco para a sua última coleção. A justificação é simples e tão bonita quanto a homenagem a Mandela: Marrocos une a Europa a África e ao mundo árabe.

Foi esta mistura cultural, e prova viva de que a coexistência de diferentes estilos de vida é possível, que apaixonou muitos artistas e filósofos. Um desses apaixonados foi Yves Saint Laurent, o primeiro sucessor de Christian Dior, a quem Chiuri também prestou homenagem com esta coleção. O evento, que levou centenas de convidados a Marraquexe, começou com uma recepção no Jardim Majorelle. Este espaço foi a casa de Yves Saint Laurent em Marrocos, tendo sido também cenário de diversos editoriais de moda. O jardim foi comprado pelo designer em 1980 para impedir que o estado de Marrocos construisse um hotel. E é um símbolo de diversidade cultural, isto porque as suas plantas foram trazidas de vários pontos do globo e ali plantadas.

Portugal também tem um dedo nesta história

No entanto, não foi nos jardins da casa azul cobalto que se realizou o desfile cruise 2020 da Dior. Esta segunda feira, 29 de abril, as modelos desfilaram no Palácio El Badi, em Marraquexe. Este palácio foi construído para celebrar a vitória do exército saadiano sobre o exército português na Batalha de Alcácer-Quibir. A ordem foi dada em 1578, o ano em que D. Sebastião desapareceu sem nunca ter regressado, por muitos dias de nevoeiro a que tenhamos assistido depois disso.

Hoje em dia, o que sobra do palácio tem pouco da construção original ordenada pelo Sultão Ahmed al-Mansur Dhahbi. Desta época restam apenas os terraços e laranjais rodeados de grandes muros. Foi precisamente este o cenário construído em honra da derrota portuguesa – que nos custou um Rei perdido na bruma para toda a eternidade – que a Dior escolheu como pano de fundo para celebrar a diversidade cultural do mundo.

 

 

Uma coleção feita a várias mãos

Momentos históricos à parte, vamos ao que interessa: falar de botões, costuras, estampados, silhuetas, e todo armamento necessário para vestir um exército de modelos. De todas as colaborações e técnicas artesanais a que Maria Grazia Chiuri recorreu, há duas que queremos destacar: a parceria com Pathé Ouédraogo (a.k.a Pathé’O) e com Mickalene Thomas.

O primeiro é o antigo alfaiate responsável pelas camisas africanas de Nelson Mandela, e que se tornaram na imagem de marca do ativista. Para esta coleção da Dior Pathé’O criou uma camisa com a imagem de Mandela nas costas.

 

 

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Remembering Nelson Mandela with Mr Pathe O for the Dior Cruise show in Marrakech

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Já Mickalene Thomas é uma artista afro-americana que cria diversas colagens que questionam os padrões femininos e as ideias preconcebidas de beleza ligadas ao universo feminino. Esta artista já tinha colaborado com a marca na edição Lady Dior Art de 2018.

É ainda de destacar o uso de capolanas desenhadas por Maria Grazia e que juntam vários elementos da flora, mas também do universo místico do tarot, que já são uma assinatura da Dior do últimos anos. Todos estes tecidos foram produzidos pela fábrica africana Uniwax, que continua a produzir as capelanias da forma tradicional. O processo de estampagem destes tecidos é bastante complexo, passando por diversas impressões sobrepostas.

O desfile contou ainda com cerâmicas e almofadas feitas por artesãs locais para a decoração. O toque cosmopolita e aula foram dados ao desfile pela atuação de Diana Ross. Um desfile único e cheio de referências culturais que se adaptaram às silhuetas tradicionais da Dior, com saias New Look, a desfilarem sucessivamente.