De Que Forma Está a Pandemia a Mudar a Indústria da Moda?

Falamos com cinco designers sobre como a covid-19 veio mudar a forma como consumimos Moda. Por: Vítor Rodrigues Machado, Federica Fiore e Laura Somoza -- Imagens: © Imaxtree, Oliver Mint, Etro e Diogo Miranda.

Gabriela Hearst

Com um sentido estético que se baseia pouco na ostentação e mais numa elegância que é, acima de tudo, pensada. Esse é o universo de Gabriela Hearst, onde menos é melhor e onde o que importa é consumir de forma consciente produtos de qualidade. Depois desta pandemia que afetou o mundo todo, a sua filosofia tornou-se no modelo a seguir por muitos.

Falar sobre moda sustentável, neste momento, faz mais sentido para todos?

Atualmente estamos a ser atacados por uma crise, mas nós já estávamos a ter que lidar com outra muito grande anteriormente: a do meio ambiente. As pessoas pensam que vivemos num mundo de recursos naturais ilimitados, só que o problema é que, na realidade, eles são limitados. Para mim, é mais do que claro que estamos a atravessar uma situação trágica e acredito que, para a ultrapassar, temos de adotar medidas sustentáveis. Tem de ser! Não há outra opção! E isso faz parte da nossa responsabilidade social. Temos que cooperar, trabalhar juntos. Não existe um líder, é necessário que todos sejamos responsáveis. Ninguém pode fazer uma revolução sozinho.

A forma como consumimos vai mudar?

Vivemos num ciclo de superprodução que leva ao consumo excessivo e, nessa equação, os designers têm a responsabilidade de não fabricar em excesso. Cerca de 80% dos resíduos são gerados por nós, porque criamos coisas a mais, que não são sequer necessárias. Temos que ser mais contidos. Não é preciso deixarmos de ser criativos, basta definirmos alguns limites e termos mais foco.

Acredita que a Moda tem a capacidade de elevar o nosso estado de espírito?

Durante a quarentena, em casa, vestia-me para me motivar. Sentia-me grata por estar viva num momento trágico. Estar feliz era um dever.

Tommy Hilfiger

«Agora chegou a hora de remodelar a indústria». Na Tommy Hilfiger, diversidade, inclusão e sustentabilidade estão ligadas ao desejo de mudança. É importante transmitir essa mensagem com força por todo o planeta.

De que forma é que a Moda mudou?

Este período difícil deu-nos uma rara oportunidade, tanto para quem lidera a indústria como para os consumidores, de parar e de olhar para dentro de nós próprios e perguntarmo-nos: «O que é mais importante? Que valores do passado devemos recuperar? O que temos que deixar para trás?» O panorama da moda vai mudar como nunca antes vimos e para melhor.

E teremos então um futuro «melhor»?

Absolutamente. Nada na história recente foi capaz de aproximar tanto as pessoas como isto. Todos percebemos que estamos conectados. Mais do que nunca, devemos ouvir as novas necessidades dos consumidores e desafiar o status quo.

Vão adotar novas formas de fazer as apresentações e desfiles?

A nossa tradição é baseada em abraçar a mudança. Sempre. E agora, mais do que nunca, estamos a reinventar o conceito do See Now, Buy Now.

Que mensagem gostaria de nos passar?

Sejam fiéis aos vossos sonhos e valores. Fiquem juntos e apoiem-se uns aos outros. Neste momento, isso é o mais importante. Até porque, certamente, o melhor ainda está por vir.

A Moda ainda nos pode fazer sonhar?

O meu objetivo sempre foi construir uma marca acessível a todos. A moda é a forma de celebrar e expressar a personalidade e individualidade de cada um. E isso deve estar à disposição de todos.

Veronica Etro

Cada coleção da Etro conta a história de uma viagem longínqua que nos leva a um destino repleto de novas experiências. Agora que a maioria de nós só se sente confortável a viajar dentro da nossa imaginação, Veronica Etro faz as malas, mas rumo a um futuro mais responsável.

A Etro sairá de tudo isto mais forte, agora que vimos as fragilidades do mundo?

Sempre fomos fiéis a nós mesmos. Apostámos na nossa paixão pelas cores, pelas viagens e pela cultura. Nunca deixaremos de nos expressar, através da moda e do estilo de vida Etro, que é fruto do amor que temos pelo nosso trabalho e das múltiplas influências globais. Se agora não podemos viajar fisicamente, podemos fazê-lo com a nossa mente ou através de um livro. Ser cidadão do mundo é, antes de mais, uma questão de espírito.

Haverá uma desaceleração geral?

A moda é ótima quando faz sonhar e tem um papel social. Ao longo dos anos, ela empoderou as mulheres, quebrou barreiras e tornou-se numa porta-voz da diversidade. Está na hora de redescobrir os seus valores mais autênticos. Haverá um renascimento que falará de qualidade e respeito. Há anos que só nos preocupamos com produtos e coleções, mas chegou a hora de mudar e estarmos mais atentos. Temos de começar de novo, mais conscientes, com bases mais sólidas. E este deve ser o ponto de partida para o mundo da moda que, acima de tudo, tem de ser responsável.

Donatella Versace

«Choque» é a palavra usada por Donatella Versace para descrever o momento atual. Perceber o mundo que encontraremos
depois desta situação de incerteza é o seu objetivo. Como nos vamos querer vestir? Essa é a pergunta para a qual mais deseja descobrir a resposta.

Como é que a perceção que temos de Moda mudará no final da pandemia?

Este momento tocou-nos profundamente a todos e cada um reagiu de forma diferente. É provável que o desejo de desfrutar de coisas bonitas, que nos fazem bem, se mantenha, mas não tenho uma resposta conclusiva. A moda é feita por pessoas e, se, como acredito, ela deve refletir os seus desejos e fazê-las sonhar, a questão então é: «Será que já nos apercebemos das mudanças que a pandemia causou em nós?». O ponto de partida, por enquanto, é só e apenas esta questão. Mas é a resposta a isso que nos fará perceber de que forma podemos ajudar as pessoas a voltar a sonhar.

A sustentabilidade vai ganhar mais peso?

Trabalhamos nesse sentido há muito tempo e, na moda, cada um arranjou o seu próprio modelo para atingir esse importante objetivo. Em pouco tempo, descobrimos que o mundo continua mesmo sem seres humanos: só em dois meses de paragem vimos esses benefícios para o planeta. Então sim, a sustentabilidade será cada vez mais estratégica.

O poder de comprar vai baixar. É possível regressarem as segundas linhas?

Sinceramente, não pensei sobre isso. Obviamente, todos seremos mais cautelosos. Mas a qualidade acaba por vencer. Quem souber fazer um produto de qualidade, com alma, que dure mais de uma temporada, vai ganhar. Criativamente, sou a mesma, mas terei que me reunir com a minha equipa, para procurar uma mensagem diferente daquela que tinha há alguns meses. Agora é preciso transmitir um conteúdo que vá direto ao coração. A moda sempre foi um sonho e um reflexo da cultura. E, mais do que nunca, tem de o voltar a ser.

Diogo Miranda

Reconhecer uma peça Diogo Miranda é tudo menos difícil. Com uma linguagem criativa muito própria, o designer de demi-couture usou este momento para reforçar ainda mais a estratégia que tem vindo a usar, comunicando mais diretamente para o seu público.

Qual é o lugar que a Moda ocupa agora nas nossas vidas?

Neste momento, a moda (por mais fútil que alguns a considerem) serve como um escape, transforma-se num sonho que nos permite descobrir novas formas de vestir. Não acho que as pessoas tenham que se desleixar, acho precisamente o contrário, principalmente porque saímos menos vezes de casa.

A pandemia veio obrigar as marcas a darem mais importância à sustentabilidade?

Acho que sim, especialmente as de mass market que produziam em excesso e a preços baixos sem dar valor ao que realmente importa. Essas agora são obrigadas a cumprir certas normas, porque a sustentabilidade é a pauta que neste momento está em cima da mesa. Penso que às pequenas marcas isso, de certa forma, acaba por não trazer grande mudança porque sempre trabalharam com poucos recursos.

De que forma está a tentar que a Diogo Miranda se adapte a esta nova realidade?

Esse é um trabalho que tenho vindo a fazer ao longo destas últimas coleções, direcionando-me mais ainda para o meu público com peças intemporais e especiais, com acabamentos feitos à mão em bons tecidos, dando valor ao que realmente importa no demi-couture. Até porque o comportamento do consumidor mudou e, neste momento, há muito mais probabilidades de vender peças com estas características do que algo de estação. Esta nova realidade só veio reforçar esta estratégia.

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de novembro.