The Vampire’s Wife e Como a Moda Salvou a Vida de Susie Cave

Susie Cave fala sobre como a Vampire’s Wife a ajudou a ultrapassar um dos momentos mais negros da sua vida. Por: Kenya Hunt -- Imagens: Casper Sejersen.

A meio de uma conversa matinal, sentadas no centro de uma sala de estar luxuosa no Hotel Claridge’s, Susie e eu começámos a travar uma luta contra as lágrimas. Estamos rodeadas por mesas cheias de homens vestidos de fato que parecem estar a ter reuniões muito sérias. Temos estado a falar sobre moda – vestidos, mais especificamente – mas também sobre memórias, infância, crianças e todas as emoções que estão relacionadas com essas coisas.

O vestido de Cinderela

Antes de se tornar famosa por fazer vestidos, Susie já só tinha olhos para um particular tipo, com uma particular forma. «Quando eu era pequena, a minha mãe comprou-me um vestido com várias camadas – muito parecido com o da Cinderela, num cor de laranja brilhante, com este tipo de…», ela gesticula mostrando os braços do seu próprio vestido de seda, com ombros volumosos e mangas com folhos, para me mostrar o que quer dizer. Quando o experimentou pela primeira vez, era ainda uma criança e ele arrastava no chão. «E usei esse vestido até ele, literalmente, me dar pelos joelhos. Usei-o em todas as festas durante cerca de seis anos, até por volta dos meus 14 anos ou algo assim. Era só um vestidinho de uma loja de peças doadas em Cheshire, onde cresci», explica. «E eu acho que realmente queria ter muitos vestidos daquele tipo. Mas como só tinha um, talvez quando fiquei mais velha pensei: ‘Vou fazer o máximo de vestidos iguais a este mal possa’. Provavelmente, um psiquiatra diria que algo se passa com a minha cabeça.»

Muitos designers falam sobre o seu trabalho como se fossem reinterpretações de estados de espírito, momentos e musas fictícias. Mas Susie – que ficou conhecida pela primeira vez nos anos 1980 como modelo e It-girl Susie Bick, antes de se casar com o músico pós-punk Nick Cave e mais tarde abrir a sua própria marca, The Vampire’s Wife, em 2014 – descreve tanto o seu trabalho como o seu guarda-roupa de uma maneira muito mais emotiva e pessoal. Para ela, cada peça de roupa está ligada a um sentimento e a uma memória. «Eu cresci em África, no Malawi e na Nigéria», começa por explicar. «A minha avó morou connosco durante uns tempos enquanto lá vivíamos, e ela costumava fazer-nos coisas incríveis, como, por exemplo, vestidos de papel que usávamos nas peças de teatro que fazíamos no jardim. A minha avó e o meu avô vieram morar connosco porque estavam a passar por um momento complicado – tinham perdido o filho. Então eles ficaram connosco durante alguns anos. E era isso que queria dizer com tudo isto [o mundo da moda], o ter começado de forma estranha para mim, porque acho que foi nessa altura que a roupa passou a fazer sentido.»

Desde o início, Susie compreendeu o lado emocional do vestuário e como a moda pode moldar a maneira de nos sentirmos. É um sexto sentido que ela aguçou durante os anos em que foi modelo e musa de fotógrafos de renome, como Helmut Newton e Guy Bourdin. «É algo que nos muda. Quer dizer, eu sei isso. Quando era modelo e vestia aquelas peças de roupa incríveis, eu ficava literalmente tipo ‘Uau!’. Percebes? Acho que isto tem muito poder.» Enquanto muitos designers manipulam o poder da moda para adotarem novas personas, Susie parece estar perfeitamente ciente da capacidade que ela tem de nos ajudar a cultivar uma compreensão mais profunda sobre quem realmente somos. E isto pode explicar o porquê de jornalistas de moda, compradores e fãs tenderem a atribuir uma certa profundidade de significado (uma agência noticiosa descreveu o trabalho de Susie como ‘vestir-se para a era do Time’s Up’) a algo que, para outra pessoa, poderia apenas ser considerado uma linha muito agradável de vestidos bonitos.

O seu trabalho tem todas as características da feminilidade que podemos ser tentados a considerar frívolas: um ar vintage que dá uma ligeira sensação de Casa na Pradaria, recatado no comprimento e, muitas vezes, adornado por laços e folhos. No entanto, a sua base de compradoras de alto perfil inclui nomes de mulheres poderosas que têm uma forte noção de quem são e de qual é o seu propósito: Cate Blanchett, Stevie Nicks, Florence Welch, Thandie Newton, Ruth Negga, e muito mais. No fundo, mulheres como Susie, que com a sua imagem de marca, de cabelo preto com risco ao meio, pele de porcelana e uma postura elegante, são vistas como figuras imponentes. E ainda que as suas coleções incluam uma vasta gama de peças – casacos, saias e carteiras –, foi aquele vestido, que inspirou inúmeras imitações, que fez com que se tornasse tão conhecida.

A moda como terapia

Talvez tenha que ver com o papel que o vestido desempenhou na sua vida. Caso seja uma daquelas pessoas que seguiram a história da família de Susie, que conquistou a curiosidade do mundo inteiro nos últimos anos, sabe que ela passou por uma fase extremamente dura quando o seu filho de 15 anos, Arthur, morreu tragicamente ao cair de um penhasco em Brighton. Mais tarde, o relatório médico veio a revelar que a razão havia sido o facto de ter experimentado LSD pela primeira vez. «Mudámo-nos [para Brighton] porque eu queria que os meus filhos tivessem uma vida mais calma e normal», explica ela. Durante os meses seguintes, Susie afastou-se dos olhares públicos (enquanto isso o marido, Nick, processava a sua dor com uma sinceridade devastadora através das filmagens do seu documentário One More Time With Feeling) e, para ela, a moda tornou-se algo muito parecido a um barco salva-vidas. “O Vestido” transformou-se num remédio, numa terapia, num bálsamo para a dor.

«O meu filho sofreu um acidente terrível e então… desculpa.» Ela para, com a voz tensa enquanto tenta respirar. «Estou a ficar um pouco emocionada. Mas não vou chorar», acrescenta, enxugando as lágrimas, algo que eu também faço por compaixão enquanto mãe de dois, com as hormonas do pós-parto ainda a mexerem comigo. «Desculpa. É tão difícil não falar sobre isto, é que sinto que é realmente estranho se não o mencionar. Faz parte da história, porque para sobreviver a isto, tive de trabalhar. Estou bem. É uma camada muito fina… Mas foi isso que o design me deu. Deu-me algo que posso fazer, e que me afasta da dor que senti e sinto. É uma coisa incrível que está a crescer em mim, através do luto. E sem isso, não faço ideia do que teria acontecido comigo», conta.

E é aqui que o vestido adquire aquelas qualidades que vão além da alfaiataria, enquanto Susie descreve como o trabalho teve um papel tão importante ao tirá-la desse momento de desespero quanto a sua pequena rede familiar, que inclui o marido, Nick, o filho, Earl, e a sua melhor amiga, Bella Freud. «Obviamente, tive de sobreviver pelo meu filho Earl. Eu não queria desmoronar-me. Sabia que tinha de me manter firme perto dele. Foi isso. Ele realmente fez com que me mantivesse sã, e o Nick também. Tê-los na minha vida… Eles são os meus curadores… Os responsáveis por eu me ter curado.»

The Vampire’s Wife

Dito desta forma, parece bastante poético que Susie planeie aumentar a sua marca, transformando a The Vampire’s Wife (que ganhou este nome graças a um romance não lançado de Nick) num mundo imersivo. «Foi assim que a vi quando comecei. Quando comecei a The Vampire’s Wife, eu tinha uma lista inteira de categorias nas quais queria entrar: a The Vampire’s Dog, a The Vampire’s House (para interiores), a The Vampire’s Bride. Algumas delas estão em desenvolvimento, mas é preciso dedicar-lhes algum tempo para que possam crescer bem. O pressuposto não era de que se tornasse apenas uma marca de roupa», diz ela, antes de acrescentar que o lado comercial da The Vampire’s Wife assume «99% do meu tempo, enquanto antes era 60% para criar e 40% para a parte dos negócios». Susie lançou uma coleção de joalharia, e apresentará uma linha de noivas no próximo ano. «E adoraria fazer também uma coleção de maquilhagem e perfumes», acrescenta. «Então eu diria que é provavelmente isso e, tu sabes, luto e arte, e terapia, e arte-terapia. Abrirmo-nos a este lado mais criativo quando estamos a passar por uma fase de sofrimento é algo incrivelmente poderoso.»

Com a sua cofundadora e parceira de negócios, Alex Adamson, Susie lidera uma equipa formada principalmente por costureiras em Brighton. «Trabalho com um criador de padrões incrível, que é figurinista de teatro. Eu gosto de trabalhar com pessoas ligadas a este universo porque elas têm referências históricas. Conhecem, por exemplo, as mangas vitorianas.» Além disso, abrirá uma nova sede no final do ano. A sua empresa está a crescer conjuntamente com a sua sensação de paz. «Se estou mais feliz agora? Sim. [A moda] traz-me alegria. Realmente traz. É algo que eu nunca imaginei que fosse possível.»

E com esta conversa, o nosso tempo juntas acabou. Ela vai sair da cidade para se juntar a Nick em digressão. «Basta-me olhar para eles, o Nick e o meu filho, para ficar feliz e empolgada com o futuro.» Os nossos olhos agora estão secos, abraçamo-nos, separamo-nos e seguimos em frente, cada uma para seu lado.

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de fevereiro de 2020.