O Crescimento do Número De Celebridades Que Têm a Sua Própria Marca

Pode o crescente número de celebridades que decide lançar a sua própria marca de roupa impactar a indústria? Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: D.R.

Não é preciso ser uma pessoa atenta a tudo o que se passa na indústria da moda para perceber que são cada vez mais as celebridades que decidem dar uso à sua visibilidade e ao seu poder de influência para “deitarem” as mãos – cuidadosamente tratadas por manicures num salão qualquer em Beverly Hills ou Nova Iorque – à indústria da moda. São vários os nomes que podemos encontrar nesta lista que todos os anos tem de ser atualizada, a qual, apenas para indicar alguns, conta com personalidades como: Rihanna, que se tornou a primeira mulher negra a criar e a liderar uma marca de roupa de luxo (graças a uma parceria feita com o grupo LVMH, que desde 1987 não criava uma nova marca); Beyoncé, que agora se uniu à Adidas para relançar a sua marca desportiva Ivy Park (que inicialmente nasceu de uma parceria feita com o grupo Arcadia, detentor da Topshop e da Topman); e até mesmo Khloé Kardashian, que lançou a sua marca de calças de ganga para todos os tipos de corpo (e que agora já se estende a outras peças de roupa).

O fator fama e os milhões de seguidores que têm nas suas redes sociais são dois dos principais denominadores comuns entre estes nomes, mas no que toca a moda existe um outro elemento que as une: nenhuma delas é formada em moda, e como tal, além do bom gosto, não têm as ferramentas necessárias para serem verdadeiras diretoras criativas. Este pequeno (bastante grande) “se” faz toda a diferença, mas poderá isto implicar algum tipo de mudança no atual funcionamento da indústria?

A estrutura que conhecemos atualmente foi criada há mais de um século e meio, com o aparecimento de nomes como o de Charles Frederick Worth (considerado por muitos como o pai da alta-costura), que se tornou o primeiro designer a aplicar em cada uma das suas peças uma etiqueta com o seu nome. Uma mudança que pode até parecer mínima, mas que veio mudar completamente a visão que as pessoas tinham da moda. Isto porque as peças deixavam de ser meros elementos de vestuário construídos por anónimos para passarem a estar associados a uma marca (que fazia com que se passassem a esquecer costureiros, produtores têxteis e até mesmo produtores de botões).

A associação das marcas a celebridades

Com o passar do tempo, as marcas começaram então a ganhar importância, com um ‘boom’ no mercado da moda, que aos poucos ficava cada vez mais concorrido. Claro que muitos designers eram considerados verdadeiras estrelas, mestres na sua arte, mas fazer-se notar num mar sobrelotado era cada vez mais complicado. Foi então que nesta equação se adicionou o fator celebridade. Afinal de contas, haverá lá melhor forma de promover as suas criações e de as tornar um objeto de desejo do que através de alguém que é idolatrado mundialmente?

Esta união foi-se consolidando – não é a toa que, por exemplo, ainda hoje associamos Audrey Hepburn à Givenchy – mas mudanças na indústria vieram reestruturar estas relações. Algumas marcas viram os seus números de vendas decrescerem – em parte, reflexo dos hábitos de compra dos Millennials, que estão cada vez menos abertos a gastar dinheiro em 300 peças de roupa – e, como tal, contar com as celebridades apenas para darem a cara por elas deixou de ser suficiente. Para responder a este problema surgiram então as linhas e as coleções-cápsula concebidas em parceria com nomes conhecidos. Claro que surtiu efeito, mas o principal ensinamento que se tirou daqui foi que algumas das estrelas a quem se uniam, com todos os seus seguidores, tinham incontestavelmente uma força gigante.

Abriu-se uma nova porta. Uma que não está aberta a todos, é certo, mas que pode mudar a forma como a indústria funciona (dificultando a vida não só às marcas existentes mas também às que acabam de se lançar). Isto porque o sucesso de marcas como a Fenty ou a Good American está apenas assente na quantidade de seguidores e de fãs dispostos a gastar dinheiro nas suas linhas, deixando-se um pouco de lado todos os fatores que eram necessários para uma nova marca nascer – como um produto de excelência, que fosse esteticamente marcante e diferente das demais, coisa que (por muito bonitas que sejam) não se pode dizer destes dois exemplos dados. Em parte, pode até entender-se que estas etiquetas são quase como merchandise de cada uma destas pessoas. Ainda assim, existe um elemento que pode prejudicá-las: por estarem tão intimamente ligadas a celebridades, estão mais suscetíveis a oscilações de vendas.

Depois de tudo isto, questionamos: pode entender-se este fenómeno como algo bom ou mau? A resposta é simples. Nem uma coisa nem outra, é apenas um novo rumo que a indústria está a levar. Provavelmente, o velho modelo nunca vai chegar ao fim, mas este novo vai definitivamente começar a entrar em vigor, cada vez com mais força.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de agosto de 2019.