Como a Pandemia Me Fez Comprar Um Fato de Treino Pela Primeira Vez na Vida

A quarentena está a mudar a forma como nos vestimos. Por: Margarida Brito Paes Imagens: © D. R.

Ao fim de três semanas fechada em casa tomei uma decisão drástica para o meu guarda-roupa: comprei o meu primeiro fato de treino. A última vez que tive algo do género no armário foi há uns 20 anos, era um fato de treino amarelo canário, que usava para as aulas de ginástica, no inverno. Eu já não era grande fã das aulas de ginástica, mas obrigarem-me a correr mascarada de pintainho traumatizou-me tanto que nunca mais na vida olhei para este tipo de roupa. Mesmo agora, que treino regularmente, a escolha são sempre leggings e tops. As sweatpants, pura e simplesmente, não existiam no meu dicionário até o coronavírus virar o mundo ao contrário.

Esta vontade estranha de vestir um fato de treino instalou-se depois de me aperceber que os jeans só são confortáveis para andar na rua – em casa são simplesmente impraticáveis -, e que as minhas três calças de malha já se tinham transformado num borboto gigante de tanto uso. Já as leggings, são uma opção demasiado justa para estar sentada 8h ao computador, num escritório improvisado. Então, começou a nascer dentro de mim um chamamento, até aqui desconhecido, pelo fato de treino. Claro que avalanche de fotografias no Instagram de pessoas com este tipo de roupa me pode ter sugestionado, a mim e à Anna Wintour, que claramente também vestiu umas sweatpants pela primeira vez, graças à covid-19 (o resultado foi a fotografia mais estranha que vi até hoje, juro que achei que era um meme).

Em busca do fato de treino certo

A ideia, como todas as ideias que nos parecem disparatadas, foi aparecendo e desaparecendo da minha cabeça, até que se tornou inevitável começar a procurar fatos de treino online. Quem me conhece, sabe que isto se assemelha a um cenário apocalítico para mim, no que ao estilo diz respeito. Mas agora já não havia nada a fazer, a promessa de conforto falou mais alto.

A busca foi vasta e pode ser vista, na galeria, em cima. Mas, a escolha acabou por recair num fato de treino preto da Bershka, com bolsos cargo, e um estilo muito Rosalía, cantora que amo de paixão, mas que tem um estilo que me dá alguns arrepios, no mau sentido. Mas se é para arriscar, vou com tudo. O modelo em causa tinha três hipóteses de cor, sendo um verde água aquele que me apetecia mais comprar, mas acabou por não acontecer. À última hora, decidi optar pelo preto, porque me pareceu mais seguro, dentro de toda a improbabilidade. Mas também porque assumi que posso usar as calças de fato de treino pretas mais facilmente noutras ocasiões. Não acredito que algum dia saia de casa de fato de treino completo, nem para ir ao supermercado, mas até me vejo a usar as sweatpants que comprei com um blazer e uns saltos altos – isso sim já faz o meu estilo.

24h de fato de treino

O primeiro dia da minha vida em fato de treino, de manhã à noite, correu bem. Não vou mentir… senti que estava mascarada, mas a restante experiência não foi má. O conforto é, de facto, inegável, e isso é tudo o que quero quando estou em casa. Outra surpresa agradável – e é mesmo coisa de principiante – foram o elásticos nos punho e bainhas, não há frio que entre. Só isso é suficiente para ganhar um lugar cativo no meu roupeiro, afinal sou uma friorenta incurável. Se vou usar mais vezes? Durante a quarentena com toda a certeza. Depois do isolamento social é possível que se torne um hábito de fim de semana, não mais que isso.

Será esta uma viagem sem regresso?

Esta é uma realidade que provavelmente não é só minha. Acredito que este tempo em casa alterou a forma como todos nos vestimos, mas também a nossa perceção de conforto. Uma mudança que terá um reflexo nas próximas coleções, porque a moda é sempre um reflexo da sociedade. Resta saber se a reação da Moda irá perpetuar a importância do conforto ou irá reagir de forma contraditória, como arma de compensação.

As opiniões dividem-se quando abordo o tema com designers portugueses nas entrevistas em direto no Instagram do Portugal Fashion. Alguns defendem que o momento que se segue irá refletir esta pausa nas nossas vidas, num consumo mais consciente, mais focado nos clássicos, mas também na roupa confortável, porque estar mais em casa é uma realidade que se instalou sem data para abalar. Mas, por outro lado, alguns designers acreditam que, tal como aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial, após um momento de crise chega um momento de exuberância e que isso se irá refletir em roupa mais festiva que nunca.

É possível que o que vem aí seja um cocktail das duas coisas, mas é inevitável o crescimento do homewear. Isto porque o teletrabalho será a realidade de muitos de nós pelo menos durante os próximos meses. E, depois de meses contínuos com hábitos de vestuário diferentes, é muito provável que este tipo de roupa comece a sair mais à rua. Não será estranho ver calças de fato de treino misturadas com outras mais formais, uma tendência que não é nova, mas que irá sair mais forte depois disto.