Sabe o Que é Um Buyer de Moda? Tiffany Hsu Buying Director do Mytheresa Explica

Um profissão pouco conhecida mas que tem um enorme impacto na vida de quem vai comprar. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Imaxtree

Sabia que existe um emprego que se centra apenas em escolher tudo aquilo que está disponível para compra numa loja? Tiffany Hsu, do Mytheresa,  faz disso a sua profissão, e nós fomos perceber melhor o que é isto (aproveitando ainda para falar um pouco sobre os mais atuais temas da indústria).

ELLE: Quando é que a tua paixão por moda começou?

Tiffany Hsu: Desde sempre que quis ser designer. Mas o que realmente me fez apaixonar por moda foi uma foto da coleção de John Galliano que vi aos 16 anos. Depois de me apaixonar pela indústria, acabei por descobrir o que mais me agradava.

Podes contar-nos um pouco sobre o teu percurso até ao momento em que te tornaste Buying Director do Mytheresa?

Depois de terminar a escola, aos 17 anos, peguei no meu portefólio e fui para Londres tentar entrar na Central Saint Martins – só contei aos meus pais depois de ser aceite. Na altura comecei a trabalhar na loja Feathers enquanto estudava (primeiro como assistente de vendas e depois como gerente), e após terminar o curso, eles pediram-me para ficar e ajudar no departamento de Buying. De lá, mudei-me para Hong Kong, para trabalhar na Lane Crawford, na equipa de buyers, e depois voltei para Londres, para trabalhar com a Selfridges. Depois disso fui para a Mytheresa como Buying Director.

As pessoas fora da industria não sabem muito sobre o que é ser um buyer. Consegues explicar um pouco?

O nosso objetivo na Mytheresa é oferecer a melhor curadoria de moda de luxo para os nossos clientes e, com o meu papel de Buying Director, o que faço é precisamente garantir isso. Selecionar os melhores produtos e peças da moda parece divertido, mas é um trabalho duro, assente em muitas análises. Para além disso, posso ainda trabalhar com designers em coleções cápsula exclusivas, o que é algo que gosto muito.

E como é esse processo de escolha? Como tomas as decisões?

Adoro oferecer coisas exclusivas no site, porque isso é o que nos diferencia de nossos concorrentes, mas também criar um hype devido às disponibilidades limitadas. No entanto, sabemos que a mulher Mytheresa tem muitas facetas diferentes – ela adora luxo, novidade, estilos práticos e chiques e gosta de ter uma grande variedade de opções. Mas tudo se baseia em acompanhamento e análise, tanto dos gostos dos nossos clientes de sempre como dos mais novos.

Que marcas te estão a deixar mais entusiasmada agora?

Fico muito feliz por podermos incluir um nova onda de jovens designers para o outono-inverno de 2020/21. Damos as boas vindas à Frankie Shop, conhecido pelas suas peças com silhuetas únicas a um preço acessível, e a Wardrobe NYC, que se tornou bastante conceituada. Nesta nova estação incluímos ainda os talentosos Peter Do, a Coperni, e a Deveaux.

Como descreverias um dia normal na tua vida?

Na vida de uma buyer, a palavra “normal” não existe. Depende muito da nossa agenda. Durante as semanas de moda é um sem fim de marcações de compras, revisões de coleções e desfiles. Mas isto, claro, não se aplica a todos os dias. Estar focada nos números e avaliar os resultados das nossas vendas ocupa grande parte do meu tempo e do da minha equipa. Construir relações duradouras com marcas também é um elemento essencial para o sucesso da carreira de um buyer.

Qual é a diferença entre trabalhar em lojas físicas e online?

Numa loja física, estás mais limitada a volumes, portfólio de designers, e o grupo de clientes para o qual estás a comprar é mais definido. Numa loja online, uma das maiores armadilhas  é o espaço infinito. Não tens paredes físicas para te forçar a pensar muito sobre o que estás a comprar. Isto pode funcionar para outros sites, mas, no mercado da moda de luxo, a ideia de que mais produtos vão trazer mais receita é falso. É por isso que preferimos ter uma curadoria cuidadosa, adaptada ao cliente Mytheresa, que não tem muito tempo e faz questão de comprar de forma eficiente.

E que conselho darias a alguém que quer ser buyer?

Precisas de ser apaixonada por moda, estar disposta a dedicar uma grande parte do teu tempo a isso. No começo, aprende com as pessoas que estão ao teu lado e tenta ser positiva e otimista com qualquer tarefa que te for dada. O lado glamouroso do negócios não corresponde à realidade por completo – tens realmente de estar focada e ser capaz de tomar decisões rápidas. O mundo dos buyers muda rapidamente: analisar dados, relatórios, orçamentos exige muita responsabilidade. É preciso ter entusiasmo e intuição… e tudo isto com a noção de que o projeto tem que ser financeiramente viável.

Uma das maiores conversas é sobre como a pandemia vai mudar a indústria da moda. Qual é a tua opinião sobre o tema?

Neste momento continuamos a estar muito otimistas sobre o futuro. Obviamente que a pandemia gerou uma crise muito grave a nível social e económico. No entanto, já podemos ver um forte crescimento na Ásia, e melhorias significativas na Europa. A mudança para online, e a importância da visibilidade digital vai acelerar ainda mais nos próximos meses, e o nosso foco vai continuar a ser oferecer produtos de luxo únicos e exclusivos com elevados níveis de qualidade.

Também se fala muito sobre sustentabilidade. Achas  que as marcas estão prontas para seguir nessa direção?

Penso que, mais do que nunca, estamos preocupados com o nosso planeta. Os designers não são exceção e tentam aumentar a consciencialização sobre vários tópicos ecológicos. Além de que olham para a natureza como uma importante fonte de inspiração. Os compradores, por seu lado, estão mais interessados em marcas que oferecem produtos que valorizam um processo de fabricação transparente. Foi por isso que a Mytheresa se juntou ao Fashion Forum, para enfatizar a importância da sustentabilidade na indústria da moda.

Para terminar: que peças (capazes de resistir ao teste do tempo) recomendarias a alguém que quer investir em moda?

Eu sou mais do tipo que acredita na ideia de se ir construindo um guarda-roupa. O meu conselho é: não compres nada que, dentro de dois anos não possas vestir. As verdadeiras peças eternas são os blazers, o par perfeito de jeans, uma carteira de alta qualidade e um par de saltos elegantes e confortáveis.