Anna-Karin Karlsson, A Designer Ousada a Quem Madonna e Rita Ora Se Renderam

A Olhar de Prata é a primeira ótica no mundo a receber os óculos de sol da sueca. E fica em Portugal. Por: Inês Aparício -- Imagens: © D. R.

Começou acidentalmente a desenhar óculos de sol, mas rapidamente adquiriu o título de rainha dos acessórios de alta costura. Anna-Karin Karlsson não passou despercebida com os seus modelos ousados e irreverentes, nos quais deixa sempre um pouco de si. Depois de celebridades como Rita Ora, Madonna e Nicky Minaj se renderam a eles, é Lisboa quem se prepara para se deixar arrebatar. A designer sueca chegou à cidade para apresentar, pela primeira vez, as suas coleções numa ótica, a Olhar de Prata, depois de ter conquistado o mundo. Com presença em 50 países, em lojas que vão da icónica Harrods até um pequeno espaço no Guadalupe, a criadora prepara-se agora para trazer ao tradicionalmente saudosista povo português a sua aura otimista e divertida.

Como chegou à indústria dos óculos de sol

Anna-Karin Karlsson sabia que tinha de fazer algo impactante na sua vida. Como se de Cinderella se tratasse, um passarinho pousava-lhe no ombro e encorajava-a a arregaçar as mangas. Por isso, um dia decidiu construir um plano para se tornar bem sucedida. «Fiz um calendário, atribuí 355 dias para o conseguir e decidi trabalhar 20 horas por dia para atingir o meu objetivo», revelou à ELLE.

Enquanto procurava uma ideia brilhante para deixar uma marca neste mundo, Anna-Karin Karlsson teve de arranjar um trabalho tão comum como o dos outros mortais. Uma vez que tinha trocado o seu país de origem, a Suécia, por Londres, e apenas poderia continuar no país se conseguisse arranjar trabalho, devido às normas da União Europeia, a criadora acabou a enviar candidaturas para todos os locais que encontrava. Foi assim que, num dos seus trabalhos enquanto empregada de mesa, a sua vida sofreu uma reviravolta.

«Num dos meus tempos como empregada de mesa, conheci um homem, cuja esposa era dona da Meyrowitz, a ótica mais antiga do mundo. Ele propôs-me trabalhar com a sua mulher e, uns dias depois, estava a caminho de um piquenique, com uma grande coroa de flores na cabeça, um vestido e uma cesta de frutas e vegetais e pensei ‘posso simplesmente ir bater à porta da loja e pedir trabalho? Pelo menos posso tentar’. Por isso fui tocar à campainha e uma senhora muito bonita abriu-me a porta. Ela perguntou-me ‘por onde tens andado? Tenho estado à tua espera há dias! Podes começar [a trabalhar] amanhã?’», contou Karlsson.

Tudo é pessoal

A vida e paixões de Anna-Karin Karlsson são transportadas para as peças que cria à mão. A mais recente coleção da designer sueca, No Monkey Business – It’a jungle out there, é uma das provas disso. Depois de ver cópias dos seus acessórios por toda a parte, esta quis emitir uma espécie de comunicado, mas através de óculos de sol. «Quis brincar com as palavras e desenhar uma peça que fosse divertida. Mas que, ao mesmo tempo, fosse a armação mais difícil de produzir de sempre, para que ninguém a conseguisse replicar. Tivemos os melhores artesãos japoneses a criar cada pequena peça para nós, que depois foi pintada individualmente», explicou. «E esta sou eu, porque estou relaxada [a ver os outros tentar copiar os óculos de sol], revelou, apontando para um dos macacos que surge, aparentemente recostado, na armação.

Anna-Karin Karlsson

Os primatas não são, contudo, os únicos seres vivos que aparecem nos modelos. Há borboletas, tigres e até gatos. Quanto a estes últimos, Anna-Karin Karlsson esclarece que, apesar de nunca ter tido gatos ou animais de estimação, gosta da forma como o formato das orelhas torna as pessoas mais felizes. «Adoro o look. Traz alguma alegria. E nestes queria fazer umas orelhas de gato, para que quando [os consumidores] colocassem os óculos de sol na cabeça parecesse que tivessem mesmo umas pequenas orelhas. É mais divertido e arrojado», nota. «E para mim, quando estou sozinha e vou sair, quando passo por um espelho, penso ‘oh, és uma pessoa divertida!’. O meu estado de espírito melhora instantaneamente», revela.

Também as lentes não são exceção no que à transposição da individualidade da criadora para as peças diz respeito. Para um modelo em específico, a sueca quis que os clientes pudessem ver o mundo como se estivessem à janela da sua casa em Estocolmo, à beira mar. Para isso, fotografou o céu e desenvolveu uma lente em tons de azul, tão clara que parece que estamos simplesmente a olhar para a água. «Queria que os meus clientes vissem o mundo através dos meus olhos. Porque tudo o que faço é muito pessoal. Tento colocar sempre um pouco de mim em tudo», sublinha.

Todos os detalhes são incluídos na equação

Se somarmos as lentes e as armações, depois do sinal de igual ainda não vão aparecer uns óculos de sol porque faltam alguns elementos. E Anna-Karin Karlsson sabe disso melhor que ninguém. Por isso é que, na equação, tem também em atenção, por exemplo, as almofadas de nariz. «Normalmente as almofadas de nariz são em plástico, mas nós desenvolvemo-las em metal. Entretanto, este ano, passamos a fazê-las em metal, cobertas por silicone», afirmou a designer, que explicou que a escolha deste material se deveu a um pedido de um cliente. «Eram para ser apenas em ouro, mas o meu maior cliente russo perguntou-me se as poderia fazer em silicone. A minha resposta instantânea foi ‘Nop. Gosto de ouro. Gosto de metal’, à qual ele me confrontou: ‘Ok, mas a Rússia é muito fria. Vai ficar um gelo!’. Depois disso, ele falou com a mãe, que lhe disse que as mulheres tinham uma solução: utilizar os meus óculos quando viajassem de carro. Mas eu queria que as pessoas pudessem usa-los sempre que quisessem, mesmo a caminhar na rua, por isso acabei a fazer as almofadas de nariz em silicone», revelou.

Anna-Karin Karlsson

Mas a criadora não se fica por aí. As próprias bolsas para guardar os óculos de sol foram tidas em conta. «Queria que se parecessem com pequenas clutchs», explicou Karlsson. «Viajo bastante e nunca levo outra clutch. Por isso decidi fazer uma bolsa para os óculos que pudesse adaptar para uma saída à noite. Tiro apenas os óculos de lá e vou. Até acrescentei um pequeno compartimento para o cartão de crédito», adicionou.

O dinheiro não paga a liberdade

A ousadia não é democrática, principalmente num país tradicionalista como Portugal. Assim, a questão «porquê expandir-se para este país» parece pertinente. «Penso que se vendesse Ray-ban teria mais sucesso. Quer dizer, o McDonald’s é mais bem sucedido que um restaurante bonito. Mas nunca estive propriamente interessada apenas em fazer vendas. Isso nunca foi o primeiro objetivo. Quero embelezar o mundo, que é mais importante para mim do que vender. Nunca faria coisas comuns apenas para vender. Não faz sentido. Desse modo o mundo ficaria exatamente igual», notou.

Dos óculos de sol à joalharia

Anna-Karin Karlsson fundou a marca há sete anos e este ano decidiu expandir a insígnia homónima. Além de óculos de sol, esta passou a desenvolver também joalharia, tendo lançado a primeira coleção no início deste ano. «Não encontrava joalharia que gostasse de utilizar. Gosto de acessórios vistosos. Grandes e ousados», avança a criadora. «Além disso, queria ter peças que fossem coesas com o meu trabalho, porque, normalmente, as outras marcas têm uma lincensa em ótica e, por isso, a joalharia é muito diferente dos óculos de sol. Não queria que a minha combinasse, mas queria que tivesse o mesmo ADN», afirma. Assim, surgiu uma coleção arrojada, na qual a natureza continua presente, através de flores, insetos e aves.

Anna-Karin Karlsson

No entanto, a joalharia não é a única novidade deste ano. Até ao final de 2019, esta planeia abrir o primeiro showroom em Estocolmo, assim como mostrar, no outono, a sua coleção em Las Vegas, na Rússia e em Paris. Mas o seu maior objetivo é «continuar a tornar o mundo mais bonito e a fazer peças bonitas».

Veja na galeria, em cima, as imagens de campanha dos óculos de sol e joalharia da criadora, cujos preços rondam os €1000.