#TOP2019: Alexandra Moura Encerrou a Semana de Moda de Milão ao Som do Minho

«De bestial a besta» ou «de besta a bestial»? Pouco importa porque nesta coleção todas as bestas são bestiais. Por: Margarida Brito Paes Imagens: © Imaxtree

Artigo original 26 de fevereiro de 2019

«Não é sonho nenhum», é mesmo real que Alexandra Moura encerrou o calendário oficial da Semana de Moda de Milão. O contexto original da frase não era este, mas também se aplica aqui, e veste este momento de orgulho nacional na perfeição. A designer portuguesa já tinha tudo pronto para a sua habitual apresentação em Londres, quando apenas há algumas semanas soube que o destino da sua coleção de outono-inverno 2019/20 seria outro.

«As notícias sairam antes em Itália, ainda andámos uns dias a tentar perceber se era mesmo verdade» conta nos bastidores. E não é que era mesmo verdade! E se dúvidas lhe restarem – mesmo depois do desfile, no coração de Milão, já ter acontecido – Carlos Capasa, Diretor da Camera da Moda Italiana, fez questão de as tirar, ao descer até aos bastidores para felicitar e conhecer Alexandra. Mas esta colecção começou muito antes deste aperto de mão, que certamente a designer nunca vai esquecer. A roupa já estava pronta quando mudou de destino, Alexandra não lhe acrescentou mais nenhuma linha, nem alterou nenhuma peça para a tornar mais italiana. Até porque, as coleções de Alexandra não são de lado nenhum, nem pertencem a lado nenhum, apesar de terem Portugal espalhado em todo o conceito, a marca Alexandra Moura tem um ADN muito marcado, intimamente ligado à estética e ao olhar da estilista portuguesa.

 

 

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ALEXANDRA MOURA AW19 👹👺🖤 BESTIÁRIO #alexandramoura #AW19 Artwork: @melsmary

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O bestiário de Rosa Ramalho

Desta vez a cabeça de Alexandra Moura foi até ao Minho e de lá trouxe as vozes minhotas, que se ouviram no desfile e foram brilhantemente misturadas por Miguel Cardona, com quem trabalha há 15 anos, mas também os lenços, os detalhes de ruralidade que se vêm nas peças e o trabalho de Rosa Ramalho, ceramista portuguesa que morreu em 1977. «A minha vida, quando não estou a trabalhar, é feita de pesquisa e sou uma apaixonada por tudo o que é o lado cultural do nosso país. Quis encontrar algo muito nosso e um bocadinho ancestral. A Rosa Ramalho apesar de ter tido o seu auge nos anos 50, morreu nos anos 70. Foi nas minhas pesquisas que a descobri. Era uma senhora com uma capacidade incrível de visualização, era completamente à frente no seu tempo. Tinha um sentido estético incrível. », contou a designer.

As obras de Rosa fazem lembrar criaturas demoníacas, vindas de outro mundo bem diferente do nossos, ou talvez tão igual ao nosso que se torna difícil de reconhecer. O ‘bestiário’ de Rosa Ramalho foi estudado ao detalhe por Alexandra e carregado para esta coleção. Surge plasmado nas malhas de forma clara e evidente, e de forma diluída nas misturas de materiais e cores. É caso para dizer que as ‘bestas’ passaram a ‘bestiais’, mas isso seria injusto porque as ‘bestas’ de Rosa Ramalho já eram maravilhosas, ainda antes desta coleção, o que não invalida que classifiquemos as criações de Alexandra Moura como bestiais.

«Não é sonho nenhum», foi a resposta que Rosa deu, nos anos 70, quando lhe perguntaram se via as criaturas que representava nos seus sonhos. A frase estampa-se em algumas peças da coleção, fazendo, novamente, da palavra escrita um elemento importante nas criações de Alexandra Moura. E uma característica que encantou os clientes do mercado japonês, que depositaram nestas peças um grande número de encomendas nos showrooms de janeiro.

A coleção

Quanto às silhuetas mantêm-se os folhos largos, as sobreposições, as misturas de materiais e texturas, os puffer jackets com fecho nas mangas, os volumes, as costas diagonais e a bainha desfiadas que fazem parte do ADN da designer. Esta coleção de estreia num calendário oficial, volta a ser apresentada no Porto durante o Portugal Fashion, que decorre de 14 a 17 de março.