Como a ELLE e o Mundo Mudaram ao Longo Destes Últimos 75 Anos

No mês em que a ELLE celebra o seu 75° aniversário recordamos como o papel acompanhou as mudanças do mundo.

Revisitar todos estes anos da nossa revista é surpreendente. A ELLE é, antes de mais, uma estrutura feminina fabulosa, que abrange os direitos das mulheres e a evolução moral da sociedade. Há uma interligação histórica. Que teve o seu ritmo próprio. Foram necessárias muitas lutas para as mulheres ganharem independência através dos seus empregos e o controlo de seus próprios corpos. Foram travadas uma infinidade de batalhas na tentativa de alcançar a igualdade e a liberdade prometidas. Em cada etapa, a ELLE antecipou ou acompanhou a mudança, primeiro em França, depois um pouco por todo o mundo. As injustiças contra as mulheres foram denunciadas pelo poder da caneta. Os intelectos femininos expressaram os seus pensamentos sobre todos os assuntos na revista. Nenhum dos grandes debates (como o aborto) foi esquecido.

Uma mistura esquizofrénica entre páginas de moda, secções de beleza e debate social? Já foi dito de tudo. Em setenta e cinco anos, a ELLE terá tocado milhares de mulheres por todo o mundo, de todas as esferas sociais e de todas as gerações, felizes por descobrirem a cada semana, ou a cada mês, o que as indigna, o que as move. Essa emancipação foi uma viagem sinuosa. Depois dos avanços tímidos dos anos 40 aos 60, do frenesim da década de 70 e das supermulheres dos anos 80, parece ter havido um momento de resignação, seguido de revolta. Um passo para frente, dois passos para trás. Entretanto, os movimentos que surgiram são radicais, mas engraçados, também. Na internet, a mensagem perpetuada pelas jovens é de não quererem mais falsas promessas. Nunca as palavras “feminismo” ou “empoderamento feminino” foram tão usadas nas nossas 45 edições da ELLE como nos últimos dez anos. Apostamos que elas vão continuar a ser usadas por muito mais tempo.

Anos 1945-55: Desafio Lançado

1945. O ano da mudança. A mulher ainda é muito associada às tarefas domésticas e à vida de serventia da família, mas há sinais de mudança e o nascimento da ELLE (em frança) é um deles.

 

33% das mulheres francesas trabalhavam nesta época, assim como em quase toda a Europa. Em 2020 são  cerca de 75%. “Trabalhar não é apenas uma forma de ganhar a vida, é abrir uma porta para o mundo”, escreveu Françoise Giroud, editora-chefe da ELLE francesa, em 1946; o que se mais tarde foi confirmado: “Trabalhar é a única garantia real de independência das mulheres”. Mas em 1954, segundo uma pesquisa, o futuro das mulheres passaria sempre pela dedicação total ao casamento e à maternidade. Em 1945, as mulheres francesas compareceram às urnas eleitorais. Giroud exortou-as: «Senhoras, não fiquem em casa, votem!». As italianas também tiveram o direito a voto, seguidas das espanholas, mas apenas as casadas. As mulheres americanas e inglesas votavam desde a década de 1920. Mulheres finlandesas, norueguesas, dinamarquesas e búlgaras obtiveram o direito de votar ainda mais cedo, enquanto as mulheres da Nova Zelândia (1893) e australianas (1902) foram as pioneiras neste campo. “É a favor ou contra a educação sexual?”, pergunta a revista em 1949. 50% das mulheres são frígidas? O “médico da ELLE” é inflexível: “A emancipação económica e social das mulheres vai garantir-lhes equilíbrio sexual”. Como vivem as mulheres australianas, americanas, soviéticas ou portuguesas? Não muito melhor do que as mulheres francesas.

 

Anos 1956-67: Em Nome Próprio

1960. Brigitte Bardot foi o ícone da época incluindo para a ELLE. A revista era a personificação da atriz: divertida, com um sentido de estilo muito próprio e sem receio de marcar uma posição.

 

“Em 1956, a emancipação da mulher é a questão número um do nosso tempo”. Mas o caminho é longo! “Apenas um marido em cem está feliz pela sua mulher ter um emprego”. Paciência. Em 1965, a lei finalmente permitiu que as francesas trabalhassem sem autorização do marido e pudessem abrir uma conta bancária em nome próprio. Uma reportagem numa fábrica e outra num hospital (já) consagrava as “heroínas dos tempos modernos”: as operárias e as enfermeiras. «Tenho 32 anos de idade. Estou à espera do meu sexto bebé. Estou desesperada»: este é o desabafo de uma leitora em 1961, seis anos antes da lei Neuwirth, que legalizou a pílula em França, uma data que ficou muito aquém da legislação britânica e americana. Nesse mesmo ano, foi inaugurado o primeiro centro de planeamento familiar em França. Esta iniciativa é contra “a saúde pública, a moral,  a religião, a taxa de natalidade, sa ociedade?”.  Não e não, responde a ELLE. 

 

Anos 1968-80 : As Ativistas

1970. As mulheres começaram a despir-se de preconceitos, literalmente. As roupas ficaram mais curtas e arrojadas e a pele mais à mostra (e não só nas capas das revista). O direito de votar foi concedido, tal como a possibilidade de abortar (em certos países).

 

Maio de 68 foi o grande choque. A revista, contestada pela própria redação, ficou dividida. As jovens na redação começaram a usar calças, para desagrado de Hélène Lazareff, a fundadora. A sociedade mudava a uma velocidade vertiginosa. Por todo o mundo, incluindo em Portugal: foi neste ano que foi atribuído o direito de voto a todas as mulheres, sem nenhuma condicionante (com exceção da idade). O tom dos artigos é mais duro e inquisidor, como se viu no acompanhamento do tema do aborto. A legalização tinha sido aprovada recentemente no Reino Unido e nos E.U.A. Já em França, quase um milhão de mulheres arriscavam as suas vidas, todos os anos, a fazer estes procedimentos de forma ilegal. Até a Lei do Véu ser aprovada em 1975, a ELLE não diminuiu a pressão. Em 1972, foi a votação o princípio da igualdade de remuneração. Para a sua implementação real, foi preciso esperar mais algumas décadas.

Lutámos contra as violações de direitos. “Casamento, para quê?”, perguntámos. Em 1970, as mulheres italianas finalmente têm o direito ao divórcio. As espanholas teriam que esperar até 1981. Muitos os artigos fazem uma avaliação amarga sobre a presença significativamente inferior das mulheres em cargos políticos. É difícil vingar num mundo machista.

Anos 1980-90 : Os Mesmos Direitos

1980. O iníco do sonho internacional. Esta foi a década que a família aumento e atravessou oceanos e mudou o paradigm das publicaçções de moda para sempre. A ELLE Portugal apareceu quase no fim dda década, em 1988.

É a era das lutadoras, “daquelas que têm sucesso”. Finalmente as mulheres estão por todo o lado, o número de empresárias aumenta a olhos vistos e a igualdade profissional é exigida. A estrutura familiar também sofre alterações. Em 75% dos casos, “são as mulheres que pedem o divórcio”. Fizemos as perguntas e demos as respostas sobre orgasmos, desejo e prazer. A RU 486, a pílula do futuro, é finalmente autorizada em França. A ELLE faz campanha para a sua distribuição a menores, mas a reação adversa acontece.

Um brinde à globalização! Gilles Bensimon reuniu todas as grandes topmodels da época, vestidas em Azzedine Alaïa, numa só fotografia.

 

Em 1990, um editorial dizia: “De volta ao início” e um artigo questionava: “Feminismo: devemos pegar nas nossas armas novamente?”. As mulheres americanas podem ingressar na Marinha e Benazir Bhutto assume o poder no Paquistão. Uma nova edição espanhola (1986) logo seguida por uma italiana (1987) e uma portuguesa (1988) perpetuam a missão de dar voz às mulheres, um país de cada vez.

 

Anos 1990-2000: Perto do Futuro

 

Os motivos para protestar são muitos, com a paridade no topo da lista. Em 1997, duas reportagens expuseram os prós e os contras. Há sempre quem goste de proclamar “Queremos paridade, não caridade”! Com os números do desemprego a aumentarem, mandar as mulheres de volta para casa não é a solução, de acordo com os títulos publicados. Mas trabalhar quando se tem filhos continua a ser um pesadelo. Uma investigação de 1999 mostra que apenas 17% das mulheres entrevistadas não têm dificuldade em conciliar as duas coisas. Aguarda-se ainda a divisão justa das tarefas domésticas. E o aborto ainda é uma luta. O assédio sexual é o tema de denúncia do momento. Há neomachismo no ar, anúncios sexistas, violência doméstica e abusos em geral. Ainda que as mentalidades estivessem de facto a mudar. Artigos sobre bissexualidade, vida de solteira, swing, ponto G, homossexualidade, pornografia e brinquedos sexuais confirmam uma liberdade que já era tida como certa. Nas capas da ELLE Itália e Espanha fala-se de uma nova mulher e da revolução feminina. Mas, infelizmente, esta mudança de mentalidades não se propaga a todo o mundo. Burcas em Cabul, casamentos forçados em África, proibição do aborto na Irlanda, mulheres abusadas em todos os lugares. 75% das vítimas de conflitos armados são mulheres, segundo o Conselho de Segurança da ONU. A ELLE Tailândia, lançada em 1994, mostra-se indignada com o turismo sexual, o flagelo do país. Na Índia, na sua nova ELLE (1996), as mulheres também lutam pelos seus direitos e autonomia. Será que vemos esperança ao fundo do túnel? Entrevistada na Casa Branca, em 1996, Hillary Clinton já sonha com uma mulher presidente dos Estados Unidos. Na Rússia, pela terceira vez, há uma astronauta feminina na estação de Mir, Elena Kondakova. O bloco comunista entra em colapso e a ELLE Rússia é lançada.

 

Anos 2000-10: No Caminho Certo

2008. Esta década foi importante para a ELLE Portugal. Para além dos motivós óbvios, entrámos na maioridade a celebrar a moda nacional com os modelos portugueses mais carismáticos, na capa do 20° aniversário.

 

Estaremos a retroceder? Como podemos quebrar o teto de vidro? Igualdade a que preço? Salário: a injustiça infligida às mulheres. Porque é que as meninas não escolhem ciências na escola? Devemos feminizar os títulos profissionais? Porque é que o direito ao aborto é contestado e os homens abusivos estão na berlinda? A ELLE denuncia a violência contra as mulheres, apoia causas, inclusive contra a burca, e lança uma petição para ser entregue ao Presidente da República. Mas na política, é sempre um aborrecimento. «Onde estão as mulheres ministras ou presidentes?». Além de Theresa May, chefe do Partido Conservador britânico em 2002, Angela Merkel, chanceler da Alemanha em 2005, Cristina Fernandez de Kirchner, presidente da Argentina em 2007 e Dilma Rousseff, presidente do Brasil em 2010, há poucas mulheres ministras ou presidentes. O feminismo tornou-se um assunto do passado em 2009? Nem por isso. De Cabul a Riade, do Irão à Indonésia, o mundo muçulmano reflete imagens de mulheres oprimidas. Em 2001, numa capa agora icónica, uma mulher em Chade com a sua filha retrataram o martírio das mulheres afegãs às mãos dos Talibãs. A ELLE acolheu uma delegação de mulheres afegãs no Parlamento Europeu. Em 2003, a advogada iraniana Shirin Ebadi é a primeira mulher muçulmana a receber o Prémio Nobel da Paz. E em 2007, nume referendo histórico, Portugal despenaliza o aborto.

Anos 2010-20: Presente

De França à Ucrânia, as iniciativas para promover tanto as oportunidades de emprego como a criação de espaços de trabalho seguros para as mulheres multiplicam-se. Em termos da utilização de anticoncecionais em todo o mundo, 63% das mulheres entre os 15 e 49 anos usam-nos: 4% no Sudão e 88% na Noruega. O acesso ao aborto, está a propagar-se, com 50 países a alterar as suas legislações, embora 40% das mulheres estejam sujeitas a leis restritivas, como na Polónia. Ser feminista não é uma luta do passado. Os jovens estão fazem campanha pelos direitos LGBTQI+ e contra a cultura da violação. Em 2016, Hillary Clinton não foi eleita para a presidência dos E.U.A.; no ano seguinte, Angela Merkel foi reeleita por uma margem mínima. Apenas 21 mulheres chefes de estado ou de governo lideram um dos 200 países do mundo (Bélgica e Grécia são exemplos). Em 2017, as mulheres indianas muçulmanas não são mais vítimas do divórcio instantâneo de três palavras, “o triplo talaq“, pronunciado pelo marido que as repudia. Uma vitória memorável. Em novembro de 2019, mulheres vítimas de abuso são capa de uma edição da ELLE França sobre violência doméstica. E, como um raio inesperado, chega a hashtag #metoo após o caso Weinstein que, mais uma vez, mudou o mundo. As denúncias sobre violência sexual, feminicídios, pedofilia, a zona cinzenta do consentimento e do cyberstalking foram (d)escritas em diferentes idiomas. “A hashtag colocou em palavras o que as mulheres não ousavam dizer”. A ELLE está por dentro do tema e envolve-se no assunto, como não podia deixar de ser. As mentalidades mudaram um ano depois de #metoo? 61% das meninas de 15 a 20 anos dizem que são feministas. Mas há espaço para crescer.

Em abril de 2020, a epidemia do covid-19 à escala global revelou, mais uma vez, as desigualdades gritantes e a prevalência da violência doméstica. Várias edições internacionais dão destaque a negócios locais, gravemente afetados pela pandemia e homenageiam enfermeiras mal remuneradas – como em quase todas as profissões femininas, de acordo com um estudo realizado em 75 países. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, que também indica que a maioria dos empregos em regime de part-time são de mulheres, seriam necessários mais 75 anos para alcançar a igualdade de remuneração. Nessa altura, a ELLE estará a celebrar o seu 150º aniversário.