Médico e Ativista Que Lutam Contra a Violência Sexual Venceram o Nobel da Paz

O ginecologista Denis Mukwege e a ativista Nadia Murad partilham o galardão do Comité. Por: Cátia Pereira Matos -- Imagem: © GTRESONLINE.

Este ano, o prémio Nobel da Paz foi entregue ao médico ginecologista congolês Denis Mukwege e à ativista iraquiana Nadia Murad. Na origem da decisão do Comité Nobel norueguês estiveram os esforços de ambos «no combate à violência sexual como arma de guerra e em conflitos armados», lê-se no anúncio oficial do galardão.

Tanto Mukwege como Murad estão bastante familiarizados com os crimes sexuais em contextos bélicos. Ele, de 63 anos, dedicou boa parte da sua vida a prestar cuidados às vítimas de violação na República Democrática do Congo, um dos dez países mais perigosos para se ser mulher. Pediatra tornado obstetra, decidiu abrir o seu próprio hospital em 1999, o Hospital Panzi, com o objetivo de conceder apoio clinico, psicológico e social às mulheres congolesas que haviam sido abusadas sexualmente, sobretudo por milícias armadas durante segunda guerra do Congo (1998-2003). Este seu esforço, aliás, já lhe valeu diversos prémios internacionais, entre os quais o prémio Sakharov, em 2014, e o prémio Calouste Gulbenkian, em 2015.

Nadia Murad, de escrava sexual a Nobel da Paz

Já Nadia Murad é uma vítima direta dos violentos crimes de guerra. Aos 21 anos foi afastada da família e sequestrada por um grupo terrorista do Estado Islâmico que a manteve como escrava sexual, juntamente com outras centenas de mulheres da minoria religiosa yazidi, como ela. Ao fim de três meses, conseguiu escapar do terror e tornar-se numa das vozes mais audíveis na denúncia dos crimes sexuais, tendo em 2016 sido nomeada embaixadora da Boa Vontade da ONU para a Dignidade dos Sobrevivente do Tráfico Humano.

«Não devemos apenas imaginar um futuro melhor para as mulheres, para as crianças e para as minorias perseguidas, devemos trabalhar consistentemente para que isso aconteça — dando prioridade à humanidade, não à guerra», afirmou Murad em comunicado na passada sexta-feira, depois de receber a notícia de que havia sido distinguida com o Nobel da Paz.

«Como sobrevivente, estou grata por ter a oportunidade de chamar a atenção internacional para a situação do povo yazidi, um povo que sofre crimes inimagináveis desde o genocídio do Daesh, que começou em 2014. Muitos yazidis vão olhar para este prémio e pensar nos familiares que perderam, naqueles que ainda estão desaparecidos, e nas 3000 mulheres e crianças que permanecem em cativeiro».