As Supermodelos Que Lançaram as Suas Carreiras Na Capa da ELLE

Odile Sarron, ex-diretora de casting da ELLE, conta como ajudou a lançar modelos como Naomi e Claudia Schiffer Por: ELLE Portugal Imagens: © Alice Springs, Gilles Bensimon, Dominique Issermann, Emmanuelle Hauguel, Hans Feurer, Jean-Marie Perier, Marc Hispard, Olivero Tosacn.

Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Carla Bruni, Elle Macpherson ou até mesmo Monica Bellucci têm um denominador comum: todas elas foram “descobertas” por Odile Sarron, a mulher que foi diretora de casting da ELLE França ao longo de 40 anos. Agora “Odilon” revela tudo, sem filtros.

Pode contar-nos como é que a sua aventura na ELLE começou?

Comecei em 1966. Eu era tradutora de inglês e não tinha nenhum conhecimento de moda. Tive a sorte de fazer parte daquele momento da ELLE ao lado da Madame Lazareff. Acho que ela viu em mim algum potencial, porque me contratou para trabalhar com Claude Brouet, uma “grand dame” da moda na altura. Depois disto, continuei a trabalhar durante anos sob a direção de Anne-Marie Périer e depois de Valérie Torarian. Saí em 2004, depois de quase 40 anos a trabalhar em produções.

Fazer castings às modelos era algo que já existia em 1966?

De alguma forma, sim, pode dizer-se que eu estive na sua origem. Comecei com uma modelo, duas modelos e assim por diante. Havia muito poucas agências na altura para além da Elite. Na altura, alguns fotógrafos (já agora, não necessariamente os melhores, mas não vou citar nomes), queixavam-se e diziam: «Não temos as estrelas na ELLE, não conseguimos contratá-las». Então, naquele dia, eu disse a mim mesma: vamos fazer delas estrelas!

Também contribuiu para o casting das primeiras edições internacionais?

Sim, fui responsável pelas primeiras edições internacionais da ELLE. Fiz os castings para a ELLE USA a pedido de Regis Paginez. Contratei Claudia Schiffer para a ELLE Espanha, por exemplo, e fiz o casting para a ELLE Japão entre outros, a pedido da maravilhosa Anne Dussart, diretora adjunta da ELLE Internacional até 2000.

Quais eram os seus critérios do casting?

O que me interessava era ver o potencial de uma rapariga, a sua elegância, a sua simplicidade, a sua naturalidade. Queria que elas viessem até mim de saias para ver as suas pernas. E sem maquilhagem. A Kate Moss, por exemplo, se passassem por ela na rua sem maquilhagem, ninguém parava para olhar para ela. Com maquilhagem, ela torna-se mágica. Na verdade, não se trata de beleza. Gosto quando há aquela pequena falha. É o segredo de uma pessoa fotogénica. Era o que elas irradiavam que me inspirava. Tinha a capacidade de ver além do corpo, conseguia ver o que precisava de ver. Era como um feitiço, impossível de explicar. Só mesmo sentido.

Por que acha que elas se tornaram supermodelos?

Elas chamavam a atenção e é por isso que nos lembramos delas, são como actrizes de cinema.

Ainda hoje fala com elas?

Converso regularmente com Monica Bellucci. Também já encontrei a Naomi Campbell em St. Tropez, que me pede sempre mais uma capa. É um doce.

Há alguma modelo que lhe “escapou”?

Talvez um arrependimento: Jenny Howarth. Fotografámo-la, mas foi em vão. Até que ela cortou o cabelo e o pintou de loiro, mas não para a ELLE! A Kate Moss também. Mas as pessoas com quem eu trabalhava não queriam modelos que tinham problemas de anorexia na revista. Ela não era o tipo de rapariga que queríamos na ELLE na altura.

O que acha das modelos de hoje em dia?

Se anda pelas ruas e pergunta nomes de modelos às pessoas, todas elas conhecem a Elle MacPherson, a Monica ou a Laetitia que se tornaram atrizes, por sinal. Não tenho a certeza se daqui a uns anos as pessoas se vão lembrar das modelos de hoje. No entanto, as atrizes de hoje em dia já se vingaram das modelos. Recuperaram o poder! Vamos ver o que acontece no futuro…

Janice Dickinson

«A primeira rapariga com quem realmente comecei foi a famosa Janice Dickinson, que costumava colar a pastilha elástica debaixo do ouvido. Ela fez a sua primeira produção para a ELLE França em 1975. Um dia, apresentou-se a mim, com apenas duas fotografias de passaporte a preto e branco. Estávamos a fazer uma capa de YSL com Peter Knapp, o grande diretor de arte da ELLE. Fizemos as fotografias e fui chamada pela direção. A Janice era porto-riquenha, muito mais bronzeada do que uma nórdica, e por isso não se enquadrava bem nos critérios da época. As fotografias foram para o lixo. Quase me custaram o trabalho. Mas voltei a marcar com ela para fazer esta famosa capa do fotógrafo Sacha. Ela tinha uma pele divina, um corpo lindo».

Renée Simonsen

«Pedi-lhe que fizesse 16 páginas de rosto. E depois disso ela conseguiu fazer o anúncio da Ultra Brite. Isto foi uma mudança radical da era Twiggy, e dos anos 60 e 70. A Twiggy era um pequena tábua, sabe, toda lisa e sem formas. E eu queria mulheres com curvas. Mas os editores de moda às vezes hesitavam, porque era mais fácil vestir uma rapariga muito magra. Senti que para as leitoras, mesmo que elas não o verbalizassem, era essencial uma modelo fazê-las sonhar. Alguém como Renée!»

Carla Bruni

«Quando vi a Carla, meu deus, que elegância. Imediatamente pensei em Audrey Hepburn, em Breakfast at Tiffany’s. Ela era divina. Era incrível. Dava a sensação de que tudo aquilo não era natural, mas era. Era assim que ela era! É muito inteligente e meiga! Um dia, com o OK da revista, eu estava a fazer o casting para os desfiles do Angelo Tarlazzi. Apenas uma rapariga, entre as 35 que lá estavam, me ajudou a fazer as sandes, foi a Carla!»

Monica Belluci

«A Mónica só tinha quatro fotos no seu portfólio. Ela também era de uma agência muito pequena. Foi uma das poucas morenas que vendeu tanto como uma loira na capa! Aos 51 anos, ainda é incrível. Escolhi-a sem sequer a conhecer. Tinha visto as suas fotografias e tinha sentido algo… Era qualquer coisa no seu rosto. Chego ao set, olho para o peito dela, e digo a mim mesma: “Que catástrofe, ela nunca vai caber na roupa!”. Felizmente, o fotógrafo era Oliviero Toscani. Ele começou a provocá-la e, como ela é muito inteligente, respondeu-lhe com humor. Ele adorou-a. Perguntou-lhe se ela queria posar nua numa balança para o Lose Weight Special, e ela respondeu que sim!»

Laetitia Casta

«A Casta, a primeira vez que a vi, fez-me lembrar a Veronica Lake! Que também era uma excelente atriz. Apresentei-a ao Jean-Paul Gauthier e ela acabou por se tornar na sua musa. Foi ele o primeiro a mostrá-la ao mundo. Eu era um catalisador, uma caçadora de talentos em potência. Nem sempre foi fácil, tinha que me afirmar, de encontrar o meu lugar. Mas era um trabalho muito criativo. Tive a oportunidade de trabalhar com pessoas talentosas. O talento pode e deve ser partilhado!»

Claudia Schiffer

«Fazê-la trabalhar com o Walter Chin, não foi fácil. Na altura, ela não se parecia muito com a Bardot. Decidimos fotografar uma produção só com peças em padrão Vichy. A grande oportunidade que tive na ELLE foi poder revelar modelos como a Claudia, que eu achava
que tinham tudo a ver com a revista. E, por consequência, impô-las aos fotógrafos. Eles não gostavam de principiantes, tinham de lhes mostrar como se pousava, era um processo longo e difícil. Ninguém queria a Claudia, só eu! Foi fotografada só com um soutien. A capa foi um sucesso! Foi uma das poucas que me enviou uma mensagem no dia em que saí da ELLE».

Natalia Vodianova

«Vi a Natalia Vodianova a chegar uma manhã (quando começámos ela tinha 15 anos e meio) e, aí, senti- me emocionada com a beleza dela! Nunca vi olhos assim. Que estrela, era sublime! Hoje, ela ainda faz os anúncios publicitários de Guerlain. Tinha-me sido enviada por uma pequena agência. O que me agradou foi encontrar uma pérola rara numa agência tão pequena. As raparigas do Oriente eram muito profissionais. E aprendiam muito rápido! Às 9h eram principiantes, às 18h eram mulheres de negócios.»

Eva Herzigova

«Eu queria uma mulher com curvas, peito, boa aparência, como a Eva Herzigova. Ela também tinha um dom para a transformação. Fizemos uma produção maravilhosa em torno do tema “o rio sem retorno”. Na época, alguns dos editores viam as modelos como cabides. Eu não! Para mim, uma modelo dá vida a uma peça de roupa. Ela impõe-se com a sua personalidade. Eu sempre disse: não é a leitora que olha para a imagem, é o oposto! É a modelo que olha para si. Quem não se lembra do famoso anúncio da Wonderbra, com a Eva? Eu apostei forte em muitas mulheres lindas, como a Monica ou a Eva. Nunca quis meninas com muito estilo, o que me interessava era… a sua alegria, o seu sorriso e a sua energia para a vida. Em poucas palavras: ELLE girls».

Naomi Campbell

«Para mim, ela é a mulher negra mais linda do mundo. Basta ver que, ela ainda está no ativo. Talvez tenha uma personalidade semelhante ao de uma atriz, de uma diva. Mas convém não a aborrecer! A Naomi chegava ao estúdio com duas horas de atraso e dizia: “Desculpem, o meu agente deu-me a hora errada”. Um dia, decidi fazer uma produção de beleza com ela. Nessa altura, não havia muita maquilhagem para mulheres negras. As fotos estavam marcadas para as 9h da manhã, meio-dia e nada. A editora liga-me: “A Naomi está com dor de cabeça, quer um colar cervical! Vai comprar um para ela ok?”. Uma hora e meia depois, ela volta a ligar-me: “Estás sentada? A Naomi agora quer ser maquilhada no escuro”. Foi aí que eu disse “Basta!”».

Elle Macpherson

«Ah, “O” corpo! Quando conheci a Elle Macpherson, ela ainda não era ninguém. Mas, desculpem lá, não a podia deixar escapar. Fez as suas primeiras oito páginas com o Hans Feurer. Ela tinha um corpo perfeito, uma sensualidade, uma capacidade de transmitir emoção… Depois, mandei-a para uma sessão fotográfica no Taiti, em 1982, com Gilles Bensimon. A ELLE tinha 18 anos de idade. Mais tarde acabaram por casar».

 

 

O artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de outubro de 2020.