Mulheres Incríveis Que Alcançaram o Sucesso Depois Dos 40 Anos

Nunca é tarde demais para ser incrível. Por: Meg Manson -- Imagens: GTRESONLINE

Existe um novo grupo de mulheres que alcançam o seu auge na meia-idade, provando que nunca é tarde demais para ser incrível!

Para ser sincera, não estava a ser totalmente verdadeira quando disse a uma amiga minha, pouco antes de eu própria completar 40 anos, que ia fazer um moodboard exclusivamente com imagens de Sharon Horgan. Por mais engraçada e inteligente que a atriz e criadora da série de televisão Catastrophe (da BBC) seja e por mais que tenha um sentido de estilo apurado, dedicar tanto tempo a recolher informação sobre uma pessoa pode, ou não, ser um alerta em relação ao meu estado mental agora que entrei na meia‐idade.

O sucesso na meia idade

Mas sempre que vejo Horgan no Instagram, na capa de uma das revistas que leio ao fim de semana ou a usar um conjunto verde‐limão com meias de tule e sapatos de salto alto na passadeira vermelha, lembro‐me disto: embora ela tenha passado os seus 20 e 30 anos a tentar estabelecer‐se como atriz, só alcançou o sucesso aos 45 anos. Agora, aos 48, é considerada uma das mulheres mais poderosas da televisão.

Horgan não é o único nome a disputar o lugar de destaque no nosso moodboard coletivo de mulheres inspiradoras que vingaram nas suas profissões já depois de atingirem a dita meia‐idade. Na moda, na literatura, nas artes, nos negócios e na política, mulheres com mais de 40 anos – às vezes, bem mais – estão a provar que não há limite de idade para o sucesso. Que – após uma primeira ou uma segunda carreira, de serem mães ou passarem por um divórcio, ou por um luto, ou prestarem cuidados a terceiros, relegando‐se para segundo plano, independentemente daquilo que definiu as primeiras décadas da nossa vida adulta – pode haver com certeza um terceiro ato.

Vejamos o caso de Nancy Pelosi, que é a presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos da América, uma adversária determinada de Donald Trump, com 79 anos de idade. Ou Daphne Selfe, uma modelo mais reconhecida aos 91 do que quando tinha 20 anos, ou Alessandra Ferri, que voltou a dançar na abertura de um bailado na Royal Opera House, em Covent Garden, Londres, em 2018, aos 55 anos, um bom quarto de século após a idade normal de reforma de uma bailarina clássica.

A moda e as mulheres com mais de 30 

Dominada, em certa medida, pelas mulheres, a indústria da moda está à frente no que diz respeito a este tema, com designers como Vera Wang, que começou a sua marca homónima aos 40 anos, Natalie Massenet (agora Dame), que lançou o site de roupa de luxo Net‐a‐Porter aos 35 anos, ou Sara Blakely, que revolucionou as nossas gavetas, tornando‐se bilionária depois de ter inventado a marca Spanx, aos 41 anos.

Até Hollywood, apesar da sua preferência pelo fator juventude, é cada vez mais povoado por mulheres que começaram tarde e estão a viver neste preciso momento (e preveem continuar) o seu auge. Kristen Wiig, Amy Poehler, Connie Britton, Jessica Chastain, Kerry Washington – e a incomparável Olivia Colman, que conquistou o seu primeiro Oscar em 2019, aos 45 anos, o que pode obviamente ser interpretado como uma vitória para todas as mulheres de meia‐idade no mundo inteiro.

Será a idade um segredo para o sucesso

A questão é: o sucesso na meia‐idade ocorre apesar dela ou por causa dela? «Não poderia ter escrito este livro quando era jovem», afirma Louise Doughty, autora britânica que publicou o seu primeiro romance aos 32 anos e escreveu mais cinco antes do livro Apple Tree Yard lhe dar um best‐seller pela primeira vez, aos 50 anos. A adaptação desta história complicada para série de televisão não tardou e a atriz escolhida para viver a protagonista foi Emily Watson. «Neste momento, há um certo nível de compreensão sobre quão complexa a vida pode ser aos 50 e poucos anos que eu não conseguiria expressar se não tivesse passado por eles.»

«Não há dúvida de que a minha carreira mudou de rumo», diz Doughty, agora com 55 anos. «Tinha‐me resignado mais ou menos a um certo nível de sucesso contido. As vendas de Apple Tree Yard mudaram tudo e agora sou escritora a tempo inteiro pela primeira vez. Não vou estar com rodeios: é uma bênção.»

Na condição de coletivo, estas mulheres são inspiradoras. Aquelas de nós que olham apreensivamente para a meia‐idade deviam sentir‐se encorajadas por tantas décadas de lutas estarem finalmente a dar frutos.

Qual a razão para temer a meia idade

Então, porque é que estas mulheres às vezes sentem o contrário? Como em qualquer fase da vida, nem tudo são rosas. É muito fácil sentirmo‐nos inferiores e como se estivéssemos atrás nesta corrida que é a vida, e não apenas pelas celebridades mas pelas mulheres no nosso dia a dia, mulheres com quem trabalhamos, que seguimos nas redes sociais, as nossas próprias amigas, com as suas conquistas tão visíveis e constantes.

Longe de termos esta nova confiança de que tanto ouvimos falar, uma crença de que todos em nosso redor estão a conseguir alcançar o sucesso pode deixar‐nos ansiosas, deprimidas e perturbadas, com uma dose extra de culpa, porque, empiricamente falando, as nossas vidas não são assim tão más. A sensação natural de otimismo que nos estimula aos 20 e aos 30 anos começa a diminuir, o nosso foco muda para todas as coisas que ainda não fizemos, e desenvolvemos a sensação de que tudo o que a sociedade nos prometeu e que nós nos esforçámos para alcançar pode não chegar.

«Pode demorar um pouco a reconhecê‐la pelo que é», diz Birgit Patenall, coach e conselheira, sobre a crise de meia‐idade na sua versão exclusivamente feminina. Embora não seja uma experiência universal, para muitas mulheres uma quebra entre dois a cinco anos, que pode começar por volta dos 38 anos, antecede um salto de evolução que acontece uns anos mais tarde. «Pode até ser bastante ténue», diz Patenall, «a sensação de que, se está tudo bem, porque nos sentimos tão infelizes e insatisfeitas? Muitas vezes é apenas um momento de viragem para depois termos uma visão mais profunda do que está a acontecer.»

Se espera abandonar o hábito de se comparar com os outros quando atingir os 40 anos, más notícias: ele pode tornar‐se ainda mais enraizado. «A comparação é uma grande parte disso», concorda Jonathan Rauch, professor universitário e autor de The Happiness Curve: Why Life Gets Better After Midlife. «Toda a felicidade é relativa. Todos nós temos esses pequenos medidores de prestígio social e andamos todos os dias a tentar medir se o nosso status está a subir ou a descer. Porque a nossa tendência é para comparar para cima – apenas contando as mulheres mais bem‐sucedidas do que nós –, e sentimos que não estamos a acompanhar o ritmo e isso torna‐nos infelizes.»

O sucesso dos outros e a pressão

Agradeça ao boom da tecnologia pelo conceito obsceno de que se não tivermos fundado uma empresa unicórnio até aos 22 anos, mais vale desistirmos (Melanie Perkins, nascida em Perth, na Austrália, foi uma das fundadoras da Canva, uma startup de design gráfico, com apenas 19 anos – no ano passado esta empresa ganhou a designação de unicórnio depois de ser avaliada em mil milhões de dólares). Mas, na verdade, isto não é nada mais do que idadismo interiorizado, o «último preconceito aceitável» na nossa cultura e, sem dúvida, afirma Rauch, «uma questão ligada ao género; má para os homens, mas pior para as mulheres».

Quando Christina Patterson, colunista britânica do jornal Independent, foi demitida pelo seu editor (um homem) numa tentativa de “refrescar” o jornal, referiu: «Nunca tinha visto o mundo através de uma lente particularmente sexista nem me tinha sentido discriminada.» Devido aos seus colegas do sexo masculino terem mantido os empregos e ela não, «essa palavra “fresca” dá a sensação de que, repentinamente, passaste a tua data de validade. Pela primeira vez na minha vida, senti que era uma mulher de meia‐idade, como costumam dizer, e», lembra, « fiquei consumida pela dor».

O terceiro ato

Mas, com essa experiência, Patterson escreveu o seu primeiro livro, The Art of Not Falling Apart. E agora concorda: «Estou a viver o meu terceiro ato. Penso que nenhum de nós é totalmente feliz em todos os aspetos da sua vida, mas estou mais feliz do que nunca.»

«Adoro estar na casa dos 50. Se tivesse de destacar apenas um grande benefício de envelhecer, seria o autoconhecimento», a afirma Doughty. «Existe mesmo uma vida incrível do lado de lá da preocupação permanente acerca do que as outras pessoas pensam sobre ti.»

Sair da fase menos boa e partir em direção a um novo nível de realização profissional ou pessoal deve ser um processo consciente, diz Patenall. «Conseguimos colocar muita pressão em nós próprios quando nos sentamos com um caderno e tentamos pensar sobre quais os temas que nos apaixonam, e a página fica em branco. Mas eles virão à tona», afirma. Em parte, isso ocorre porque após os 40 anos, conhecemo‐nos melhor, explica Patenall. «Conseguir compreender quais são os teus pontos fortes e os fracos é o que dá origem à confiança. A inquietação desaparece e é substituída por uma calma interior e um sentimento de pertença ao mundo e a si mesmo. Percebes que não és assim tão fácil de deitar abaixo.»

E, neste intermédio, as mulheres estão mais à frente no processo – famosas ou não – e continuam a puxar o limite de idade para cima, recusando tornarem‐se invisíveis, irrelevantes, e redefinindo o significado de meia‐idade e o que cada um de nós pode escolher fazer com ele. Temos muito por que esperar. «Temos de encontrar satisfação pessoal», a afirmou a atriz Glenn Close no seu discurso de agradecimento nos Globo de Ouro. «Temos de seguir os nossos sonhos. Temos de dizer: “Eu posso fazer isto e não preciso de validação de ninguém”»

 

 

Artigo originalmente publicado na ELLE de março de 2020