O Rosa Nem Sempre Foi Feminino: A Evolução da Cor Associada Ao Género

O azul não é tão masculino quanto pensa, e o rosa não é tão feminino como imagina. Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: © Imaxtree.

No passado dia 3 de janeiro, o mundo inteiro – mas o Brasil em especial – ficou chocado quando um vídeo de Damares Alves, a atual Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, começou a circular na internet. O motivo desta reação? A frase que proferiu perante um grupo de apoiantes: «Atenção, atenção. É uma nova Era no Brasil: menino veste azul, e menina veste rosa».

Claro que não era a primeira vez que ouvíamos alguém dizer isto tanto por estas como por outras palavras – até porque, aliás, crescemos com esta ditadura da cor que, ficou bastante clara logo aos 4 anos de idade com as batas que usávamos no infantário – mas porquê dizê-lo? Especialmente tendo em conta que estamos em pleno século XXI, e atravessamos uma Era em que cada vez mais se tenta acabar com este tipo de estereótipos associados ao género. Portanto dizer isto, fê-la parecer… Bem… Como se tivesse acabado de sair de uma máquina do tempo, chegada diretamente do século XVIII. Ou deveremos antes dizer XIX? Ou é melhor século XX? Pois, esta é a grande questão. Acostumamo-nos a olhar para esta regra como um dado adquirido, mas em que momento da história da moda é que ela surgiu e se tornou socialmente “mandatório”?

Para esclarecermos o assunto, o melhor é fazer uma pequena viagem no tempo até, por exemplo, ao século XVIII – altura em que para as mulheres desmaiar era mais comum do que hoje em dia encomendar uma pizza – e olhar para o que os pequenos rebentos da época usavam.

Neutros e tons claros para ambos os géneros

Como já todos sabemos, e por motivos óbvios, nesta época a taxa de mortalidade infantil era bastante elevada, e portanto, o investimento feito no vestuário das crianças era reduzido. Isto fazia com que as peças adquiridas fossem o mais neutras possíveis, pois como esclarece Maria João Pereira Neto, professora de História da Arte e da Moda na Faculdade de Arquitetura, independentemente do género, «os bebés usavam vestidos, e as cores usadas eram muito clarinhas, como os brancos ou os beges. Assim tudo era mais facilmente lavado». (Nota: as fraldas descartáveis só surgiram no século XXI).

Para além disto, é preciso ainda reparar que, devido às leis sumptuárias – que eram uma espécie de lei aplicada pela «polícia da moda», que ditava quem podia vestir o quê, e que cores eram aceitáveis – os tecidos coloridos não eram nada acessíveis, especialmente devido ao preço do pigmento usado para os tingir. Portanto, as peças com cores mais vibrantes ficavam guardados para aqueles que, de facto, as podiam usar.

Este princípio manteve-se até ao século XX. Neste momento podemos esquecer os quadros a óleo e simplificar a coisa olhando para fotografias. Isto porque se tiver fotos dos seus pais, avós, ou até dos seus bisavós em criança ou em bebés, vai rapidamente notar (mesmo que seja uma foto a preto e branco) que todos eles usavam vestidos e peças de roupa de tons claros, independentemente do género. Isto porque, até então, a moda infantil era algo inexistente – e aqui, entenda-se moda enquanto o fenómeno sociológico que é (e sempre foi), e não como tendência.

A atribuição de cores aos sexos feminino e masculino

Mesmo tendo observado isto (relativamente ao início do século XX), é precisamente nesta época que começam as surgir as primeiras tentativas de se associarem cores a um género. E prepare-se para ser surpreendida, porque nada tem a ver com o que nos habituámos. Num texto publicado na Infant’s and Children Wear Review, em 1916, pode ler-se: «O que de uma forma generalizada é aceitável é o rosa para os rapazes e o azul para as raparigas». Chocada? Então as raparigas usavam azul e os rapazes rosa? Sim. É precisamente isso.

Aliás, como confirma a historiadora de moda Valerie Steele, na sua Encyclopedia of Clothing and Fashion (disponível na Amazon), em 1939, este princípio ainda se mantinha «porque o rosa era um tom claro, variante do vermelho, a cor do deus da guerra, Marte, e por isso apropriada para os rapazes, enquanto que o facto do azul ser associado a Vénus e a Madonna faziam com que fosse uma cor para meninas».

A mesma informação sobre estes significados atribuídos às cores é ainda validada por Maria João Pereira Neto que diz: «o vermelho foi sempre um cor muito associada ao poder. E o rosa é uma derivação do vermelho. E as cores do poder sempre estiveram mais ligadas aos homens», por outro lado o azul é associada «às cores sagradas» e como tal, era muito usada nas roupas das «imagens da Virgem Maria» fazendo com que se tornasse «numa cor mais feminina, mais suave».

Certamente que a Ministra Damares Alves, assumidamente católica, ficaria espantada com tudo isto. Afinal, aquilo em que acredita não está assim tão correto. O azul não é tão masculino quanto pensa, e o rosa não é tão feminino como imagina.

Mudança de paradigma

Ok, então se o rosa não era uma cor que devesse ser usada por meninas, e o azul por meninos, em que momento da história existe esta inversão? A resposta é: há bem pouco tempo. Foi logo após a Segunda Guerra Mundial que o paradigma se começou a inverter. Nos Estados Unidos da América grande parte das mulheres que se haviam visto obrigadas a arranjar trabalho para sustentarem as suas famílias – em trabalhos onde muitas das vezes o uniforme era azul – regressavam ao lar, e portanto, era necessário operar uma rutura. Fazer algo que as deixasse ficar novamente entusiasmadas por regressarem ao seu velho papel no seio da família. E que melhor forma de o fazer se não através da moda? Foi então que surgiu o rosa como ‘A Cor’ – uma escolha que nada teve a ver com simbologias, foi mera casualidade.

Claro que esta mudança levou o seu tempo. Mas foi-se fazendo, numa espécie de tempestade perfeita. Mamie Eisenhower, a esposa de Dwight D. Eisenhower (presidente dos EUA), que era vista como um exemplo a seguir por todo o género feminino enquanto uma devota (e submissa) dona de casa, esposa de um militar – uma atitude que agradava bastante à sociedade machista – surgiu na tomada de posse do seu marido, em 1953, com um vestido rosa adornado por cristais. No mesmo ano, Marylin Monroe, que era um símbolo de sensualidade, aparece com o seu icónico vestido rosa em Os Homens Preferem as Loiras.

Já em 1957, no filme Cinderela em Paris, protagonizado por Audrey Hepburn e Fred Astaire, Kay Thompson surge no início do filme, no papel de Maggie Prescott, a diretora da revista de moda Quality, afirmando que o rosa é a nova grande cor da moda, cantando o tema Think Pink. Em 1959 é lançada a primeira Barbie, com a sua caixa rosa. Em 1960, Jayne Mansfield, que a indústria do cinema tentou rivalizar com Monroe, abriu as portas da sua casa – e sim adivinhou – era completamente rosa, tanto por dentro como por fora. E em 1963, Jacqueline Kennedy vestia um fato rosa no dia em que o seu marido foi assassinado.

O panorama nacional

E agora diz: pois está tudo muito certo, mas só falaram no caso norte-americano, e estão a esquecer-se de falar em Portugal. Pois bem, é verdade, mas não se preocupe que não nos esquecemos do nosso país. Como é mais do que sabido, durante grande parte do século XX vivemos sob o controlo de um regime ditatorial, que (como em todos do mesmo género) olhou para questões relacionadas com a moda como algo secundário, supérfluo – o que em parte estava certo, uma vez que a maior preocupação para as famílias na altura era, em primeiro lugar, ter dinheiro para pôr comida na mesa. Portanto este tipo de mudanças não chegaram até nós, ou eram sequer importantes.

No entanto, no pós 25 de abril, mas mais concretamente com o aparecimento das ecografias que permitiam saber o género do bebé, as coisas mudaram de figura – tanto cá como além Atlântico. E esta «moda» ganhou uma nova força. Finalmente, mães e pais podiam preparar-se com antecedência para a chegada dos seus rebentos. Sendo menina, o quarto pinta-se de rosa, as roupinhas são rosa, até a colcha da cama, o berço e a alcofa são rosa. Por outro lado, sendo menino, dá-se preferência ao azul. Tudo é azul. As camisolinhas são azuis, os lençóis são azuis, até as fraldas descartáveis que são compradas podem trazer uma tirinha azul.

O papel da sociedade na decisão de atribuir cores

Para os pais, esta decisão de usar as cores para identificar o género está, muitas das vezes, relacionada com a forma como a sociedade vai olhar e interagir com os seu filho. Especialmente se tivermos em conta que a maioria das pessoas ajusta o seu comportamento de acordo com o género da criança. Um bom exemplo disso são os brinquedos que usamos para nos relacionar com os mais pequenos: no caso de ser menina, em que convém que seja algo mais delicado, as escolhas recaem nas bonecas ou nos fogões de brincar, enquanto que se for menino, que se quer mais forte e robusto, optamos por jogar à bola ou à apanhada.

Nos dias de hoje, se por um lado continuam a existir pessoas – mais velhas mas não só – que perpetuam esta forma de identificar o género através da cor, por outro, existe também já um série de pais que cada vez mais procuram erradicar este estereótipo. Até porque se considerarmos que na vida real nada é simplesmente preto e branco, no que ao género diz respeito, também nunca nada pode ser simplesmente rosa ou azul.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de março de 2019.