A Sexualidade Feminina Está a Mudar e É Para Melhor

Surpreendente, cibersensual e mais prazerosa do que se poderia imaginar, a segunda revolução sexual está aí. Por: Stephanie Theobald -- Imagens: © D. R.

São sete horas da manhã e o seu despertador acorda-a num novo dia cinzento e chuvoso. A diferença reside no ano em que está, 2020, o que faz com que este despertar seja muito emocionante. Pense no seu corpo sendo gentilmente acordado por um brinquedo sexual que parece um mini polvo. Ou o seu edredon a ser atrevido, brincalhão, a vibrar e provocar ondas suaves, quase como se estivesse a ser acariciada com uma pena por todo o corpo até que você não consegue evitar voltar-se para a pessoa que está deitada ao seu lado, que, com muita sorte, tem três pénis.

Um futuro de erotismo feminino não é uma realidade assim tão distante, de acordo com Kate Devlin, especialista em robôs sexuais do Reino Unido (sim, é uma profissão) e cientista da computação. «Estou tão farta dos robôs que se parecem com bonecas sexuais femininas», afirma a professora de computação da Universidade Goldsmiths, em Londres. «Não quero um robô que se pareça com um humano. Por que não fazer um com três pénis, 20 braços e tentáculos como mãos?».

Este tipo de especulação sexual fantasiosa é a clássica conversa da segunda revolução sexual. Esta é uma frase que continuei a ouvir enquanto atravessava os Estados Unidos da América com o intuito de investigar e estudar o orgasmo feminino para o meu livro, Sex Drive. Aprendi que a muito proclamada revolução sexual dos anos 60 e 70 foi feita para os homens. Teoricamente, parecia progressiva: foi inventada a pílula anticoncecional, as minissaias e libertação gay chegaram, John e Yoko tiveram o seu momento deitados numa cama em 1969 e imensas pesquisas mostravam que o sexo antes do casamento estava em ascensão. No entanto, ninguém perguntava que tipo de orgasmo as mulheres estavam a ter. Ou, se elas efetivamente estavam a ter orgasmos.

A mudança de paradigma

Tudo isto está a mudar. Não temos apenas mulheres a exigir que a mentalidade do «feitos por homens, para os homens» no mercado de robôs sexuais masculinos seja abolida. Mulheres por todo o mundo estão a exigir o fim da vergonha, da ignorância e do silêncio ensurdecedor em torno da verdadeira sexualidade feminina. Considere as milhares de mulheres que usaram aqueles gorros com vulvas na Women’s Marches (marcha das mulheres em português), ou a artista nova-iorquina Sophia Wallace, cujo projeto multimédia 100 Natural Laws of Cliteracy (100 leis naturais de cliteracia, em português), promove a discussão em torno do órgão sexual feminino primário, o clítoris. Destaco que o clítoris tem aproximadamente 8000 terminações nervosas, comparado às 4000 de um pénis – o que faz que a vulva seja o Lamborghini para a bicicleta da genitália masculina.

Considere, também, o lançamento do site OMGYes no ano passado, uma plataforma digital onde as mulheres explicam e mostram de uma forma visual como têm orgasmos. Por incrível que possa parecer, esta é a primeira vez que foi realizada uma investigação em grande escala sobre as técnicas específicas que as mulheres usam para atingir o clímax. Emma Watson é fã, partilhando numa entrevista com Gloria Steinem: «Gostava mesmo que [o site] existisse há mais tempo!», conta.

Em São Francisco, perguntei a Rob Perkins, cofundador do OMGYes, se neste momento ele realmente é bom a fazer sexo com mulheres. Ele sorriu e admitiu: «O que as mulheres querem varia muito mais do que se pensa. Tudo se resume a ter feedback, iniciar as coisas de uma forma gentil e dialogar em todos os momentos. (Amo o facto de um dos cofundadores do OMGYes ser um homem heterossexual – a ele junta-se Lydia Daniller, lésbica – porque vamos precisar de alguns iluminados masculinos a bordo para a esta nova era exploratória na qual estamos felizmente a entrar).

Também é importante não se preocupar se está sexy o suficiente para o seu parceiro. Krystyna Hutchinson, co-apresentadora do podcast Guys We F **** d, acha essencial que se passe esta mensagem entre as mulheres. Nos três anos em que ela e Corinne Fisher têm estado a gravar o seu programa que, segundo elas, tem 310 mil downloads por episódio, as mulheres «mudaram imenso», afirmou. «As mulheres que nos escrevem ou que falam connosco dizem que, finalmente, estão à vontade para pedir o que querem na cama». Esta dupla escreveu um livro: F*cked: Being Sexually Explorative and Self-Confident in a World That’s Screwed (disponível na Amazon). As autoras acreditam que este livro é necessário porque, na verdade, a segunda revolução sexual ainda não chegou. «Somos tão ignorantes agora quanto as mulheres que estavam em sintonia completa com as suas necessidades sexuais nos anos setenta eram», diz Fisher. «Só que agora estamos mais confortáveis em falar sobre como somos verdadeiramente ignorantes sobre este tema».

Um novo olhar sobre a pornografia

Enquanto que alguns podem ver o enorme sucesso do PornHub (11 anos em 2018, e 81 milhões de visitantes diários) como algo positivo para a expressão do prazer no feminino, cada vez mais mulheres que assumem posições de destaque no mercado pornográfico discordam e são muito vocais sobre este assunto. «As pessoas deviam ser mais críticas sobre a pornografia que consomem», afirma Erika Lust, produtora de fimes porno independentes para mulheres. Falámos no seu escritório em Barcelona, cidade para qual se mudou enquanto estudava – é natural da Suécia – e onde decidiu ficar. É reconfortante não ser necessário abordarmos o tema «A pornografia degrada a imagem da mulher?» que era tão popular nos anos 80. É um assunto polarizante, mas tenho algum interesse em viver num mundo onde as mulheres podem expressar a sua imaginação erótica até onde quiserem. Tal como os homens são capazes de fazer há décadas.

Lust diz que a pornografia deveria ser equivalente ao chocolate de Comércio Justo. «Precisamos de questionar quem está a fazer e a alimentar esse tipo de sites», diz Lust. «Quem são estas mulheres? Quais são as suas histórias? Quem está a ganhar o dinheiro? Não sou consumidora desse tipo de sites porque não me sinto segura lá». Felizmente, está a começar a aparecer um nicho na pornografia, quase como o da cerveja artesanal.

«Está a crescer um novo mundo de cinema adulto», explica Lust. «Mulheres como eu querem ver as pessoas a conectarem-se através do sexo. Não apenas com robôs». Ela afirma que os seus projetos são todos de financiamento coletivo, o que faz com que os membros impulsionadores (numa proporção de 60/40 de homens para mulheres) podem ver aquilo que quiserem. A empresária dirige também um programa de formação para realizadoras do sexo feminino, e a sua crush atual é a criadora da série da Amazon, Transparent, Jill Soloway. «Ainda estou obcecada com a série I Love Dick. Amo a forma como Soloway deixa as mulheres serem sexuais sem as objetificar».

Sexual e digital

Os filmes de Lust abraçam a diversidade em termos de género, sexualidade, raça e tipo de corpo. E se isto pode soar moderno, é porque não conhece Stephanie Alys, cuja empresa MysteryVibe fabrica um vibrador flexível chamado Crescendo. Ela não fala sobre mulheres e homens – utiliza sim expressões como «pessoas com vulvas» e «pessoas com pénis» para abranger pessoas que não são biologicamente mulheres ou homens. «Como a sociedade está a abrir-se para um espaço mais fluido, temos que ser inclusivos e diversificados», explica Alys. «Isto é sobre o prazer e o prazer não é uma questão de género».

Alys é também cofundadora da «irmandade do sexo» de Londres, o Sex Tech Collective. O mercado de brinquedos sexuais, avaliado em 30 mil milhões de dólares (mais de 26 mil milhões de euros), foi apelidado de «tecnologia sexual», já que muitos brinquedos agora funcionam através de computadores e telemóvel. Os membros desta irmandade incluem Dr Devlin, Kate Moyle, fundadora da aplicação Pillow Talk (que estimula uma conexão mais profunda para casais ocupados), e Wan Tseng, a fundadora de Wisp (marca de joias sensuais). Este é um grupo de mulheres altamente empreendedoras que socializam e se interajudam com a partilha de estratégias de marketing em fóruns abertos – muitos temas são iguais aos que discutimos nas redes sociais, mas falar a sério de sexo geralmente ainda é tabu, mesmo que seja o tipo de sexo que traz bem-estar para mulheres em todo o mundo.

A equivalente deste grupo em Nova York é o Women of Sex Tech, liderado por Polly Rodriguez, CEO da Unbound Box, uma empresa de brinquedos sexuais (loja virtual para mulheres «rebeldes») que envia produtos aos seus assinantes a cada trimestre. Pense na Birchbox ou na Beauty Box do site LookFantastic, mas com BDSM. Rodriguez acredita que esta nova geração de vibradores vai ajudar a «Desmistificar o orgasmo feminino para as mulheres que podem ter dificuldade em atingir o clímax».

No entanto, a autora de um dos melhores livros sobre sexo dos últimos tempos sugere que o orgasmo é tão surpreendente que nunca poderá ser desmistificado. The Explorer’s Guide to Planet Orgasm de Annie Sprinkle (disponível na Amazon), vai muito além de robôs sexuais. Os leitores são referenciados como «orgasmonautas» porque, quando se fica muito bom em orgasmos, explica Sprinkle, eles podem elevar a pessoa «a um estado de consciência alterada».

O futuro dos brinquedos sexuais

Há muito pelo qual as mulheres podem estar ansiosas, no que toca ao universo sexual. O polvo que mencionei no início deste texto existe mesmo. Chama-se Love Pad e venceu a Sex Tech Hackathon organizada em 2016. A professora admite que, atualmente, a maioria dos robôs sexuais são pouco mais do que «bonecos sexuais mecanizados devido à dificuldade em copiar o movimento humano». E agora, com um smartphone e uma peça de hardware, existem invenções de tecnologia sexual que podem agradar ao seu amante, mesmo estando ele no outro lado do oceano. «É ótimo para as nossas agendas pesadas com viagens e relacionamentos fragmentados», afirma.

Os brinquedos sexuais tornar-se-ão mais desejáveis, segundo previsão de Devlin, à medida que as mulheres entrarem cada vez mais no campo da tecnologia sexual; tecnologia essa que será apenas um pequeno componente da segunda revolução sexual. Em Buzz, um livro sobre a história dos brinquedos sexuais e disponível na Amazon, Hallie Lieberman avisa: «A tecnologia sexual pode fazer parte de uma vida sexual saudável, mas nem todas as interações sexuais devem ser mediadas pelos meios tecnológicos». Este é um ponto super válido, porque uma vez que até já sabemos o que são orgasmonautas, podemos também descobrir que o conceito de relacionamento mudou radicalmente. A maioria de nós já ouviu falar de poliamor, basicamente uma relação aberta. Mas no Festival Queer Spirit, em Wiltshire, no último verão, houve um workshop fascinante chamado Loving Many da autoria da auto proclamada «ativista do prazer», Calu Lema. A ativista falou sobre o conceito de «anarquia de relacionamento», onde não há hierarquia sentimental com nenhum dos seus vários amantes. Se alguém conseguir ir mais longe e souber como abolir o ciúme do léxico sentimental humano, esta poderá ser uma filosofia interessante.

O futuro vai ser uma explosão. O dia começará com um orgasmo, não com cafeína, e as mulheres dirão a palavra orgasmo da mesma forma como agora dizem ioga. Também falaremos sobre a nossa vulva em vez da nossa vagina, que é apenas parte da nossa poderosa genitália. O sexo será melhor para homens e mulheres (embora a definição de género tenha mudado), porque os homens inteligentes aprenderão que o sexo é mais gratificante se entendermos o que o nosso parceiro realmente gosta. Algumas pessoas podem estar um pouco reticentes sobre os tentáculos do polvo, mas todas as mulheres com quem conversei concordam que o sexo de malabarismo e surreal será em breve substituído pelo objetivo mais honesto que reside no antiquado mas muito satisfatório prazer.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de fevereiro de 2019