Porque é Que Cada Vez Mais Pessoas Optam Por Não Ter Uma Relação Monogâmica?

Se este é uma fórmula de relacionamento tão perfeito, onde é que está a falhar? Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Bietti Maria Josefina

Desde o início das nossas vidas que a monogamia nos é apresentada, repetidamente, como a única e mais perfeita fórmula para manter uma relação amorosa viva e boa de saúde, por muito tempo. Esta ideia está presente um pouco por toda à parte e a conta para que tudo resulte é simples: soma-se uma pessoa apaixonada a outra com vontade de viver esta relação intensamente (e em exclusividade) para sempre, e pufff, faz-se a monogamia. O grande problema é que a forma simplicista como nos é explicada nada tem que ver com a realidade. De acordo com o INE, só em 2018, 20 354 mil casais deram início ao seu processo de divórcio. E se isto não bastasse para despedaçar a ideia de que monogamia é algo perfeito para todos, quando se acrescenta o facto de cada vez mais ouvirmos falar de pessoas que optam por experimentar novas formas de viver o amor (em que a exclusividade é posta de parte), a última martelada é dada. Mas quererá isto dizer que o derradeiro sacrifício em nome do amor está a desaparecer? Ou somos só nós que, nas nossas vidas stressantes, estamos cada vez menos dispostos a acrescentar «frustração sexual» à lista de coisa que nos deixam infelizes?

Maldito amor que me enlouquece

Antes de indagarmos por «mares nunca antes navegados», talvez seja melhor começarmos pelo princípio, e percebermos como é que esta fórmula mágica surge. E para o fazer, temos de voltar um pouco atrás no tempo, até ao momento em que o ser humano deixa de ser caçador/coletor, e começa a assentar, e a preocupar-se com bens materiais, e com os direitos de propriedade. «Sabe-se que com o surgimento da propriedade privada, o casamento passa a ser utilizado para manter esta mesma propriedade em família», explica-nos Rita Torres, psicóloga clínica e terapeuta sexual do gabinete Oficina de Psicologia. «Havia uma razão patrimonial para esta aliança. Desde então, tem sido um modelo social de relacionamento muito utilizado no ocidente (…) ele foi ainda mais fortalecido com a herança judaico-cristã, em que o relacionamento exclusivo entre o homem e a mulher através do casamento seria a
única opção para que tal acontecesse, sendo legitimado pela necessidade de procriar.»

As questões biológicas, evolutivas e de passagem de património enquanto razões para a monogamia ter surgido ficaram assentes no parágrafo anterior, mas o que é feito do «Amor» nesta equação? Bem, a verdade é que ele originalmente não entrava na conta, uma vez que só a partir do século XVIII acabou por se tornar uma variante desta soma.

Certamente que, neste momento, as pessoas mais românticas dirão que não incluir amor na fórmula tratava-se de um erro crasso que foi corrigido. Pois… Talvez… Mas como estamos a falar de algo que foi instaurado como um simples contrato de objetivo prático, ao envolvermos sentimentos no assunto tudo acaba por ficar um pouco mais complexo. Como explica o neurocientista Pedro Calabrez num dos seus vídeos publicados no YouTube, «Durante a paixão, observamos que o cérebro entra numa espécie de estado hipermotivacional de demência temporária com a
duração média de alguns meses (entre 12 e 18) e com grandes características de compulsão (…)», causada pelo aumento de produção de dopamina. Além desta, há uma queda na produção de serotonina que ajuda a trazer um estado de compulsão, onde a vontade de estar com a pessoa 24h por dia é contínua, e a estas duas soma-se ainda a «inibição das estruturas pré-frontais (…) que são responsáveis por travar os nossos impulsos e desejos, e antecipar o que vai acontecer». Ou seja, a frase «o amor é cego» (que se refere ao estado de paixão) tem de facto sentido, e até mesmo explicação científica. Portanto, o grande problema chega depois, quando todas estas hormonas voltam aos níveis normais e tudo deixa de ser tão automático.

 

«As pessoas abrem a relação porque têm confiança uma na outra e querem experimentar coisas novas, só isso.»

 

Monogamia? No, thank you

Façamos riscos na folha de cálculo: percebemos como a monogamia surgiu (check); entendemos a razão (científica) que ajuda a fazer com que no princípio mantê-la seja mais fácil (check); falta-nos então entender o que leva as pessoas a optarem por novas formas de se relacionar, e porque a monogamia não funciona para elas. E para nos ajudar a responder a essas questões ninguém melhor do que quem as vive. Beatriz, de 30 anos, está numa relação há cinco e, depois de um ano e meio a viver «monogamicamente», decidiu mudar: «Programamos uma semana de férias, todos os anos, em que podemos estar com quem quisermos durante aqueles dias. São semanas tiradas à parte, ele por exemplo, prefere tê-la quando vai de férias com os amigos (…) desde que começámos a namorar que eu lhe disse que não queria ter sexo só com ele para o resto da vida, e falei-lhe em swing. Ainda não experimentámos, mas até esse dia chegar vamos arranjando maneiras de fugir um bocado à regra do que é uma relação monogâmica. Portanto, ele foi informado desde o início que isso para mim não funcionava, e eu achei importante fazê-lo.» Mesmo que tenha havido esta abordagem entre Beatriz e o parceiro, noutros casos, abrir o relacionamento pode surgir naturalmente, como foi caso de Guilherme, de 32 anos, «Estou numa relação há nove anos, e decidimos abrir passados quatro. Nunca me tinha passado pela cabeça fazer tal coisa, e tudo começou um bocado na brincadeira quando decidimos começar a falar com pessoas apenas para flirtar. No entanto, e como fomos construindo uma relação de confiança mútua, forte, acabou por acontecer», tudo com o simples objetivo de «Experimentar coisas novas… E não tem a nada que ver com o facto de achar que estar com uma pessoa só não era suficiente. Aliás, essa é uma ideia que as pessoas têm, de que se abres a relação é porque algo não está bem, servindo como uma manobra de distração. Mas eu acho que as pessoas abrem a relação porque têm confiança uma na outra e querem experimentar coisas novas, só isso.»

A questão da transparência, da confiança, da flexibilidade, e da vontade de ambos os parceiros parece ter sido fulcral para que este passo pudesse ter sido dado, até porque, como nos explica a terapeuta sexual Rita Torres, «sendo a relação com outra pessoa, é importante encontrar um compromisso entre o que cada elemento do casal pretende nas várias esferas do relacionamento. As expectativas pouco realistas e baseadas apenas no que um dos membros do casal quer podem constituir um entrave à satisfação conjugal», até porque «um relacionamento monogâmico deixa de funcionar precisamente quando não está a ser possível uma conciliação entre os elementos do casal. Para alguns temas é possível encontrar uma solução de compromisso, muitas vezes com apoio profissional. Para outros não é possível, e isso pode levar à separação do casal», conclui.

Mas as relações abertas não são a única maneira de viver o amor de forma não monogâmica. Mariana Guerra, tem 27 anos, é poliamorosa e percebeu que a monogamia não era para ela quando andava na faculdade: «Comecei a explorar a teoria feminista e a teoria queer e, após terminar o curso (e terminar uma relação monogâmica de longa data), comecei a explorar formas diferentes de me relacionar com as pessoas. Conheci o meu primeiro parceiro não monogâmico e comecei, a partir daí, a explorar os tipos de relações que me interessavam naquele momento criar. (…) Não se trata de rejeitar na totalidade a monogamia mas sim de analisar o carácter normativo da monogamia nas nossas relações e percebermos se isso é o que faz sentido para nós fazer, ou não», até porque «se assumimos que o amor familiar se expande para incluir mais pessoas, porque é que não assumimos que o mesmo é possível no que toca a amantes?»

Doce ciúme 

Falar sobre novas formas de se relacionar sexual/amorosamente sem falar em ciúme seria praticamente impossível (ainda que quem o vive monogamicamente possa pensar que este sentimento é impraticável nas relações não monogâmicas), pois, como nos explica Torres, «o ciúme é uma emoção natural, que nos dá pistas de necessidades que não estão a ser satisfeitas». Beatriz confessa ser «uma pessoa ciumenta, o meu parceiro é menos do que eu, mas tenho de ser justa, e por isso, como sei que vou precisar [de estar com outras pessoas], sei que ele também tem de ter essa oportunidade». Mariana vai mais fundo na questão: «O ciúme, em todos os tipos de relação romântica ou sexual, seja ela monogâmica ou não monogâmica, é muitas vezes encarado como um bicho-papão (…) Acho que é necessário analisarmos e tomarmos responsabilidade pelos nossos sentimentos, sejam eles bons ou maus, e percebermos de onde vêm. O ciúme, por norma, nunca é só ciúme mas sim um sentimento composto por muitas outras coisas, (…) devendo, por isso, ser analisado com compaixão e paciência, qualquer que seja o tipo de relação em que estivermos.»

Desculpa, não está a dar

Como já pudemos confirmar, a monogamia não é de facto para todos, mas quais são os principais aspetos que fazem com que ela caia em pano furado nos dias de hoje? Para Beatriz, é claro: «90% das pessoas a quem eu conto que tenho este contrato não concordam com ele (…) Toda a gente me diz ‘ai eu gostava de fazer isso, mas o meu parceiro não ia deixar’ e então preferem trair-se a vida toda (…) é um bocado impossível não encontrares alguém, ao longo da tua vida, por quem não vais sentir atração sexual. E, às vezes, quando tens essa atração sexual e não podes torná-la real tudo piora porque começas a confundir sentimentos e a ficar frustrada, e podes mesmo chegar ao ponto de acabar uma relação que não tinhas de acabar só para estar com aquela pessoa.» Este testemunho acaba por ser reiterado por Rita Torres: «Há uma tentativa de cumprir os padrões de relacionamento inerentes à monogamia. Sabe-se a priori que a monogamia implica exclusividade. Quando não se cumprem estes padrões, as pessoas tendem a ver esse comportamento como uma transgressão, e que está, muitas vezes, associado a culpa ou vergonha. Portanto, a ideia de monogamia revela ter vários desafios na sua concretização, e a infidelidade é um dos temas mais comuns quando o casal procura terapia.»

Encontrar uma resposta final e perceber o porquê de cada vez mais pessoas optarem por novas formas de relacionar não é simples. Ainda que o aspeto sexual nos pareça ter um grande peso na questão, a verdade é que muitas outras razões poderiam ter sido apontadas (como a necessidade de se sentir constantemente embriagado pelo estado de paixão), no entanto, quer parecer-nos que a ideia principal a retirar é a de que a monogamia (como qualquer outro tipo de relação) só funciona se for uma escolha. Afinal de contas, se não deixamos ninguém escolher a roupa que vestimos por nós, ou a comida que comemos, porque motivo haveríamos de deixar a sociedade ditar como devemos relacionar-nos?

 

 

Nota: Os nomes Guilherme e Beatriz são fictícios e foram usados para protegera identidade dos entrevistados. Quem quiser saber maus sobre o poliamor pode dirigir-se à página de Facebook PolyPortugal, ou então ao blogue.