Numa Era de Partilhas, Exploramos Qual é o Impacto de Partilhar Demais

Há ou não um limite para a partilha de informação? Por: Meg Mason Imagens: © Imaxtree.

Lena Dunham tem endometriose, uma vez sangrou durante quase um mês e recentemente optou por fazer uma histerectomia. Dunham também tem um distúrbio obsessivo-compulsivo e quando era criança não conseguia resistir a observar a vagina da irmã. Lady Gaga tem combatido anorexia e bulimia desde a adolescência. Shailene Woodley apanha sol na vagina regularmente. Mas tudo isto já era do conhecimento público. E não porque algum telemóvel foi hackeado, registos médicos roubados, ou ex-namorados subornados em troca da partilha de informações íntimas. Todas estas mulheres partilharam estes detalhes de forma voluntária, em revistas, no Instagram ou até em reality shows.

Vivemos numa cultura de confissão. A honestidade tornou-se na nossa maior virtude social e a autenticidade no nosso objetivo final. «O conceito de partilhar demais não existe,» afirma Caitlin Moran, uma colunista que já escreveu extensivamente acerca do seu aborto e sobre como descobriu a masturbação quando era muito nova. «Sempre que alguém me diz: “Okay, partilhaste e isso faz com que seja, para mim, mais fácil ser eu própria”, eu sinto que devo continuar a partilhar».

Este é o motivo que as celebridades usam quando o fazem – para ajudar outros e quebrar estigmas. No caso das celebridades, as redes sociais vieram facilitar a partilha de informação, tornando-as mais próximas do comum mortal. E nós não conseguimos deixar de segui-las e imitá-las.

Apesar de ser ambíguo transformar algo tão abstrato como as nossas percepções de privacidade em números, num estudo europeu, 51% dos indivíduos inquiridos concordaram que é mais aceitável falar explicitamente de sexo agora do que seria em gerações passadas. Pouco menos de um terço das pessoas afirmaram que falam abertamente sobre o seu salário e o estado das suas finanças, mas 40% das pessoas partilhariam as especificidades dos seus problemas de saúde. Mas quão entusiasmados estaríamos por ouvir esse tipo de informação pessoal sobre alguém que não tem o capital social de Lena Dunham ou de uma Kardashian? Algo entre o “não muito” e o “violentamente contra” talvez, porque o que resulta para uma celebridade raramente resulta da mesma forma para nós.

«Todas as partilhas têm um risco, apesar de poder ser positivo»

 

«As celebridades são recompensadas por divulgarem as suas vidas pessoais», diz Lilian Nejad, psicóloga clínica. «Podem também existir desvantagens, mas estas podem não ser visíveis». As desvantagens são muitas, mas se não tivermos passado por uma situação traumática recentemente, tomamos muito pouca atenção ao que partilhamos, quando e com quem. O facto de estarmos mais conscientes dos limites da partilha online faz com que ignoremos mais facilmente os riscos quando a partilha é na vida real e o impacto que tem nas nossas relações. «Apesar de, numa abordagem, mais superficial, darmos valor à abertura e autenticidade, também valorizamos a segurança, o bom julgamento, a confiança e a capacidade de autorregulação. Partilhar demais vai contra tudo isso e pode mesmo deixar uma pessoa extremamente vulnerável», declara Alex Kingsmill, life coach.

«Nunca conseguimos controlar o que as outras pessoas vão fazer ou dizer», diz Lucy Allen, coach. «Todas as partilhas têm um risco e apesar de poder ser positivo, tem que se considerar cada circunstância individual. Deve-se sempre assumir que o que se partilha vai ser falado e se se consegue lidar com o efeito de rede/cascata disso».

Quando se fala de amor, dizem-nos que a honestidade é a base de tudo para que haja intimidade. Mas no início de uma relação, contar todas as histórias passadas pode aumentar as probabilidades de sabotar a confiança em vez de fazer alguém parecer um livro aberto para o parceiro. E como Esther Perel, especialista em relações, explica, a honestidade não é a mesma coisa que transparência. Uma intimidade saudável permite um grau de privacidade individual e «o desejo é alimentado pelo desconhecido».

Com amizades, não ter filtro também é complicado. O excesso de partilha de informação pessoal pode ser avassalador. «Se for uma forma de criar uma ligação social, é provável não correr bem,» diz Kejad. Embora a honestidade extrema possa reforçar amizades existentes, não as consegue criar. Marca a pessoa como carente, intensa, fora de tom.

Então, porque é que o fazemos? E porque é que, quando estamos a sobrecarregar uma pessoa que mal conhecemos com os nossos pensamentos mais íntimos e não totalmente apropriados, é tão difícil parar? Além das redes sociais e das influências culturais, há tantos outros fatores, internos e externos, que nos levam a partilhar de mais que, considerando tudo, é surpreendente que consigamos reter um único facto que seja.

Fisicamente, foi provado que falar sobre nós próprios desencadeia um certo tipo de reação bioquímica tão prazerosa como o sexo e a comida. Acredita-se que o contacto físico também consegue estimular um sentimento de intimidade emocional. É mais provável partilharmos demasiado quando precisamos de validação, quando nos sentimos sozinhos e quando queremos sentir uma ligação com alguém. No entanto, a principal culpada pelo nosso excesso de partilha é a ansiedade.

«Os seres humanos estão naturalmente à procura de estabelecer uma ligação uns com os outros», diz Natajsa Wagner, psicoterapeuta. «Quando não nos sentimos ligados, experienciamos uma dor social que o nosso cérebro regista da mesma forma que dor física. Pessoas que partilham demasiado são geralmente mais ansiosas, emocionalmente stressadas ou altamente sensíveis à rejeição». Esse tipo de nervosismo no trabalho, num evento ou num momento intenso de uma relação cria um círculo vicioso de dizer-demasiado-sentir-se-horrível-pedir-desculpa-falar-ainda-mais. «Muitas vezes partilhar demasiado serve para aumentar a ansiedade e não para aliviá-la», acrescenta Wagner.

«Muitas vezes partilhar demasiado

serve para aumentar a ansiedade e não para aliviá-la»

 

Então, qual é a solução? Na verdade, existem muitas coisas que podemos fazer para treinar o travão na partilha. Primeiro, identificar quando estamos mais propensos a fazê-lo, de forma a percebermos porque é que certas situações nos fazem divulgar informação. Nesses momentos, «pergunte a si próprio qual é o propósito que está a tentar cumprir. Está à procura de aprovação? Conselhos? Aceitação?» questiona Allen. Ao passo que a idade e a experiência geralmente melhoram o nosso julgamento sobre o que partilhar, «temos que compreender as coisas para fazer disso uma realidade», diz. «É um músculo, e partir do momento em que começamos a usá-lo, fica mais treinado». Entretanto, pode tentar acalmar-se, respirar fundo antes de falar, responder às suas próprias perguntas quando sente que está a chegar a um monólogo.

Também pode falar com um terapeuta, tentar sentir-se bem no silêncio, escrever e pensar durante um pouco para perceber se a pessoa a quem está prestes a abrir a sua alma está interessada, investida e emocionalmente disponível para si – ou se simplesmente está ali por acaso.

Decidir, algumas vezes, guardar algo para nós próprios não é o mesmo que ser desonesto. Uma pessoa pode ser autêntica sem se expôr demasiado. «As coisas que revelamos nos momentos em que partilhamos demasiado não se refletem no que realmente somos, simplesmente é o que está na nossa mente naquele momento», afirma Kingsmill. «O engraçado é que, quanto mais seletivas forem em relação ao que partilham, mais capazes serão as pessoas de criar uma imagem sua verdadeira».

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de Novembro de 2018.