De Que Forma Pode Estar a Pandemia a Afetar a Nossa Saúde Mental?

Falamos com uma Psicóloga Clínica para nos esclarecer sobre o assunto. Por: ELLE Portugal Imagens: Unsplash /Vanessa Santos @unitednations

A palavra Pânico será, sem sombra de dúvida, a melhor para definir e caracterizar o mês de março de 2020, a altura em que a Covid-19 se começou a disseminar com mais intensidade não só por Portugal como também pelo mundo. A tensão que pairava pelo ar era quase palpável, e o reflexo desse medo estava não só na necessidade frenética de passar mensagens, áudios e vídeos de alerta enviadas por um alegado médico, ou de um alegado amigo de um médico através do Whatsapp, mas ficou sim visível nas dezenas de imagens que começaram a ser partilhadas nas redes sociais, com as prateleiras de supermercados completamente vazias. E como se não bastasse, para alimentar este estado de espírito ansioso, todos os telejornais existentes passavam praticamente a sua emissão inteira a falar sobre os impactos “devastadores” da Covid-19 na economia e na saúde publica.

Ainda que o tempo tenha passado, e nos estejamos a adaptar à nova realidade do planeta com um pouco mais de liberdade, estes fantasmas (se é que assim se podem chamar) continuam a assombrar-nos e os seus efeitos na nossa saúde mental fazem (e vão continuar a) sentir-se.

«Muitos de nós talvez nunca tivessem sido confrontados com mudanças tão abruptas e não-intencionais. Vivemos tempos de constante adaptação e readaptação, que requerem repensar a forma como interpretamos o mundo em que vivemos, as pessoas que nos rodeiam e as regras que nos vêm sendo impostas.» começa por nos dizer a Psicóloga Clínica, Sofia Alegria, «Não somos ilhas. No entanto, e nos últimos tempos, a mensagem que enviamos para o nosso cérebro diariamente é de que o Outro é um potencial perigo. Vivemos o medo de contrair o vírus e a potencial culpa de o propagar. Apesar do momento atual, ainda olhamos por cima do ombro na fila do supermercado, (…) as nossas noções, outrora seguras e confiáveis, de tempo e espaço, mudaram. E isso traz desafios que precisam de ser olhados e cuidados, como se de uma cicatriz se tratassem. Vemos um acréscimo de ansiedade, naturalmente proveniente da tremenda retirada de uma zona de conforto conhecida e segura. O espaço pessoal, esse, ganhou contornos rígidos levados a limites de solidão atroz pela falta de contacto humano – fonte retilínea de amor e cuidado.

Também trabalhar à distância tem trazido os seus desafios, na medida em que readaptar o contexto e as medidas de trabalho trouxeram, em muitos casos, o aumento de horas de trabalho, não necessariamente equivalente a um tempo dito produtivo. Aliás, a mesmidade de espaços por, em muitos casos, o tele-trabalho ou a própria tele-escola serem feitos de casa, causam níveis de saturação ou burnout exponenciais em que se confundem tempo e espaços de trabalho e lazer. E, de repente, o lugar seguro que é casa é invadido por deveres e imposições.»

 

Contornar a Situação

Não queremos branquear o momento. Este é mesmo uma altura extremamente difícil que na sua lista de impactos, atirou já centenas de pessoas para o desemprego e tirou a vida a outras tantas. No entanto, para não entrarmos numa depressão profundo coletiva, podemos sempre procurar por algo positivo no meio desta enorme tempestado que atravessamos, e tentar aprender algo, como nos explica a psicóloga: «Esta pode ser uma altura de re-aprendizagem. Por não termos passado por  algo semelhante, podemos educar as nossas sinapses cognitivas saturadas a encontrar novos caminhos. Assim, aquela resposta comportamental habitual a uma situação dita comum pode ser repensada e dotada de novos recursos – internos e externos. Como se falássemos com a nossa criança interna e a enchêssemos de uma renovada coragem para trilhar caminhos novos. E das infinitas possibilidades que isso permite…

Em bom rigor, a forma como interpretamos o que nos está a acontecer vai mediar as respostas cognitivas, comportamentais e relacionais e, por fim, a capacidade de reatribuir significado a esta fase. E são tantas as formas criativas que temos visto surgir: descoberta e reinvestimento em hobbies; tempo de qualidade dedicado ao auto-cuidado, à leitura, à escrita e às artes plásticas; cuidado redobrado com a alimentação e a saúde física no geral; investimento na resolução de conflitos com base numa comunicação mais transparente; maior intimidade relacional connosco próprios e com os outros. Podemos escolher dar uma nova roupagem à resposta de ansiedade face ao que não controlamos, ou à intenção do tempo que passamos a sós, ou repensar a qualidade das relações sociais que queremos ter (o quê, como, com quem) e o alinhamento de prioridades em oposição a um dia-a-dia mais mecânico e desprovido de autenticidade. Pois, ainda assim, há o que nos é imposto por este tempo de pandemia mundial e continua a haver escolhas individuais importantes.

Assim como as tais cicatrizes que magoam e foram indesejadas, há uma história de resiliência que elas contam. O que quer levar connosco desta experiência? Que estratégias colocomos em prática durante esta fase e que podem vir a ser mais-valias na sua vida mesmo em momentos ditos comuns?»