Os Benefícios do Mindfulness e as Vantagens da Prática Constante

Um exercício intelectual que se foca na ginástica mental. Livre de aditivos e pleno de vantagens. Imagem: © Gtresonline.

«Gostaria de aproveitar este momento para falar sobre os benefícios da meditação transcendental.» Foi assim que há pouco mais de dois meses Yoko Ono se dirigiu aos presentes no Museu Guggenheim de Bilbao, para a inauguração da sua exposição antológica. E não é a única. Utilizar qualquer pretexto para divulgar as vantagens desta prática milenar está a converter-se numa moda entre as celebridades.

Será que a multifacetada artista japonesa conseguiu convencer alguns dos presentes? Não sabemos. Sabemos, sim, que nós estamos agora a lembrar esse episódio e que, com este gesto e as suas palavras, com certeza atraiu novos adeptos para a causa, que não é nova, apesar de o parecer.

A meditação para além da religião

Desde há uns meses que assistimos a um boom da meditação do século XXI e do Mindfulness. A primeira diz adeus à espiritualidade e foca-se, exclusivamente, no treino do cérebro. Pode meditar em qualquer lugar e à hora que quiser e aproveitar os seus benefícios desde o primeiro minuto. E o Mindfulness (atenção plena) trata de dirigir o foco para o momento presente, sentir o que estamos a viver. A lista de celebridades que o praticam – qualquer uma das variantes – é interminável, pelo menos do outro lado do Atlântico, onde esta prática começa a estar tão enraizada quanto o exercício físico. Basta passar os olhos por todos os healthies que invadiram as redes sociais ultimamente.

Gisele Bündchen, Jessica Alba ou Alessandra Ambrosio são algumas das caras conhecidas que enchem as contas de Instagram, Tumblr e Pinterest com selfies que gritam wellness, super concentradas ou em plena sessão de yoga. Meditar agora tornou-se cool.

«A meditação está a desligar-se da religião. Até há pouco tempo, a única maneira de obter formação de qualidade nesta disciplina era passar vários meses ou anos num mosteiro budista. Mas agora pode-se aprender em hospitais, escolas e prisões, e também com muito poucas – ou nenhumas – referências religiosas. Inclusive, é possível receber aulas particulares pela internet», diz Kenneth Folk, um dos professores e coaches de meditação mais influentes e inovadores da Califórnia, onde esta ginástica para a mente domina. Precisamente ali, em Silicon Valley – o maior centro de inovação e desenvolvimento da tecnologia no mundo –, iniciou-se um movimento que está a revolucionar a maneira de entender a empresa e a sua relação com os seus empregados.

A inserção no universo empresarial

O Google, o gigante das pesquisas online, no seu empenho em contribuir para a felicidade dos seus funcionários, pôs em marcha, há algum tempo, o Procura Dentro de Ti, um curioso programa que ensina a meditar em horário laboral. O objetivo? Fomentar a inteligência emocional dos seus trabalhadores e, incidentalmente, aumentar a sua rentabilidade. Este programa dura sete semanas e o seu êxito têm sido total nas pessoas que o experimentaram e a sua lista de espera continua a crescer. De facto, o método acabou por converter-se num livro (em Portugal editado pela Lua de Papel), o que contribui ainda mais para a sua popularização.

Visto os benefícios infinitos, muitas empresas decidiram juntar-se a esta moda zen e incorporá-la como incentivo. É o caso do periódico Huffington Post. A presidente, Arianna Huffington, que está em plena campanha de promoção do seu livro Thrive, não para de repetir que «meditar cinco minutos por dia pode transformar a sua vida». E a toda-poderosa Oprah Winfrey também sabe muito sobre isto. Fã fervorosa da meditação transcendental, a apresentadora americana incentiva os seus empregados a meditar 15 a 20 minutos duas vezes por dia. O resultado conseguido? Menos stress, menos dores de cabeça, mais energia e um sono mais descansado.

Também nesta linha está a comunidade Wisdom 2.0, fundada por Soren Gordhamer, outro exemplo do interesse que desperta o Mindfulness no mundo executivo. A proliferação de iniciativas e livros sobre o assunto dão conta disso. Entre os manuais mais procurados está Focus (Ed. Temas e Debates), a última obra do guru da inteligência emocional Daniel Goleman, que convida a desenvolver a atenção plena para alcançar a excelência.

«Trata-se de um fenómeno global e não apenas de uma técnica a que se recorre para resolver determinados problemas. Já podemos ver como o Mindfulness está a introduzir-se em campos aparentemente tão distantes do seu contexto original, como o exercício da política. De facto, acho que nenhuma atividade humana vai ser excluída da sua área de influência», afirma o médico Vicente Simón, catedrático de Psicobiologia na Universidade de Valência e especialista na área.

A imperatividade do treino

Se analisarmos os factores que estão a contribuir para o seu êxito, só há uma conclusão: os resultados dos estudos científicos centrados no cérebro. «A meditação é uma ginástica mental num ambiente cultural no qual as pessoas querem cuidar-se cada vez mais. Por isso não surpreende que, mais do que o corpo, também se preocupem com o cérebro», continua Simón.

A chave de tudo é entender a meditação como uma ginástica, para aprender a reduzir o stress, melhorar a capacidade de concentração ou entrar em diferentes estados de consciência, e… para ser mais feliz. Mas nem tudo é para todos: cada uma destas realizações exige a sua própria técnica. «Não têm de acreditar em qualquer doutrina ou converter-se ao budismo. Aquilo que devemos fazer é treinar e, assim, os resultados acabam por chegar sozinhos. Nem acredito que os gurus foram essenciais para generalizar a prática da meditação. Esse modelo teve o seu tempo, mas já passou há anos», conclui Kenneth Folk, grande defensor do fitness contemplativo e cujos cursos online acumularam milhares de seguidores.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de setembro de 2014.