Como Conviver Com Alguém Que Jure Que Kombucha É Vida

Com o passar do tempo, não há um dia em que não apareça uma forma estranha de comer. Por: Laura Craik -- Imagens: © D. R.

Consegue distinguir Paleo de Keto? Metade das pessoas do seu escritório estão a meio do desafio Whole30 ou a experimentar a dieta DASH? Conhece alguém que estava a ter uma alimentação rica em proteína mas devido a problema com gases, teve que mudar para uma dieta sem glúten? Não está sozinha. Pode chamar-lhe medo do açúcar/medo dos pneus/medo do aparecimento precoce de diabetes/medo do seu almoço parecer básico no Instagram. Seja qual for a razão, a maioria das pessoas neste momento tem uma abordagem mais, digamos, criteriosa em relação à alimentação. Se este não é o seu caso, arriscamo-nos a adivinhar que a probabilidade de conhecer alguém que tenha esta visão dos alimentos é elevada.

Claro que é bom ter uma preocupação real com a saúde e o bem-estar. Afinal, nós somos o que comemos; e quando o ritmo de vida é rápido e o poder de escolha é infinito, é bom adaptar a dieta às suas necessidades e preferências. E se o aumento dos seus níveis de energia e bem-estar forem uma consequência? Melhor! Mas neste intervalo entre o natal e o verão, não vai passar uma semana sem que outra dieta super restritiva apareça nos media.

Parece que o mundo inteiro e a sua tia avó juraram lealdade aos hambúrgueres de beterraba sangrentos sem glúten disponíveis nos supermercados bio ou lojas orgânicas e logo a seguir vem outro grupo com outras tantas regras estranhas. Haverá sempre pelo menos uma pessoa num grupo que não consegue evitar levar as coisas a extremos. E essa pessoa pode ser difícil de conviver com – independentemente de ser para um jantar ou outra situação. A única forma de ultrapassar? Divirta-se a observar as novas espécies de foodies à medida que elas aparecem ao seu redor. Dos vagos vegans (olá, vagons), aos fanáticos sexy-flexis e aos que fazem jejum, aqui ficam alguns a que deve estar atenta.

Os Vagons

Ou vagos vegan, como preferir. Estas pessoas já estavam a considerar tornar-se vegans desde que viram o documentário Cowspiracy e perceberam que a Beyoncé tem uma alimentação à base de plantas. Completamente vegetarianas, com exceção daquela tosta mista com fiambre quando a vontade fala mais alto, elas estão prontas para abandonar os laticínios e derivados. Vai ser difícil esquecer o queijo da serra, mas as pesquisas foram feitas e já estão super a bordo com os conceitos de Sheese, Teese, Cheezly e Vegarella. Okay, há também aquela pequena questão de odiar grão, mas nem tudo o que é vegan é feito à base de grão… Ou é? Além disso, se elas mergulharem falafel em maionese quase que nem dá para sentir o sabor da falafel. Espere. A maionese é vegan? Os vegans podem comer ovos? E quanto aos ovos caseiros? E – ai meu Deus – o café? Quem já experimentou um latte com leite de côco e quase vomitou? Segundo um estudo de 2017, estima-se que existam 60 mil vegans em Portugal. Será que há milhares de portugueses a tomar meias de leite más? Talvez haja outra solução… Se o exitarianismo é uma coisa (mais à frente), porque é que uma abordagem similarmente flexível não pode ser aplicada ao veganismo? Eles até trocariam Cheetos por uma versão bio e sacrificariam uma embalagem de gelado por uma banheira de chia e goji. Mas é mesmo preciso deixar o requeijão?

O Clube dos FF

Desde que receberam o livro de Giulia Enders, A Vida Secreta dos Intestinos, pelo natal, os Fundamentalistas da Fermentação estão obcecados com o delicado equilíbrio macrobiótico do seu trato gastrointestinal. No brunch com os amigos (panquecas? Nem Pensar!) falam de pouco mais do que a sua própria escatologia, a melhor posição para ir à casa de banho e quão melhor se sentem depois de trocar o pão de forma normal por pão de chia e teff. Defendem
o ato de polvilhar sementes de teff (um cereal de origem etíope, caso não saiba) sobre cada refeição. Mas as coisas realmente escalaram – ou melhor, começaram a cheirar mal – quando compraram o livro Fermentar para Totós e começaram a produzir os seus próprios kimchi. Não importa que cheirem a gatos mortos e ovos em conserva: se os seus flatmates não gostam que vão viver com freaks não iluminados que consideram chocolate «uma delícia» quando é uma substância maligna que está lentamente a matá-los. Para os FF, o intestino é Deus! Fermentariam batatas fritas se pudessem… mas terão de se contentar com repolho, tempeh e kombucha.

Velocidade Furiosa

«You and I are gonna live forever!», já dizia Liam Gallagher em 1994, enquanto subsistia com uma dieta baseada em álcool, mulheres e cigarros. Liam, se queres alcançar a imortalidade, só há uma forma de o conseguires: jejum intermitente. Teriam que passar 18 anos até que o revolucionário 5/2 aparecesse. Falamos sobre a dieta dos dois dias (super restrita a nível calórico) de Michael Mosley, que defende que, durante dois dias por semana, as pessoas consumam apenas 500 calorias. Milhões de pessoas dizem que funciona e é ótimo. A não ser que tenham uma personalidade tipo A. Nesse caso, o jejum intermitente pode ser tipo uma bandeira vermelha para um touro: 500 calorias? Elas conseguem 250. Na verdade, 100. Na verdade, elas conseguem consumir zero calorias num dia inteiro!

Não é surpreendente o facto do jejum intermitente ser muito popular em Silicon Valley, o local habitado por developers com egos sensíveis que vagueiam pelas ruas com um baixo teor de açúcar no sangue. Qualquer pessoa que tenha vivido com alguém que seja adepto desta dieta tem que adotar técnicas de sobrevivência específicas: nunca lhes diga que tem um ar cansado. E esconda sempre, mas sempre, as bolachas – se não, seria o culpado de elas comerem uma bolacha de chocolate no dia de jejum. Correção: a maioria das coisas seriam sua culpa; o cansaço, a perda de memória a curto prazo, os altos e baixos no humor. O facto de elas comerem uma cenoura por dia não tem influência alguma. De todo.

Flexi Super Sexy

Pelo menos, eles acham que são sexy. Mas poderia haver outra hipótese, por acaso? Os seus corpos são templos nos quais apenas os melhores produtos, livres de transgénicos e 100% orgânicos, devem entrar. E como eles conseguem ser mais cuidadosos sobre o que acontece nesses templos do que a mentora deste movimento do exitarianismo, a atriz Gwyneth Paltrow, é lógico que devem, portanto, brilhar com saúde, vitalidade, vigor e sex appeal. Embora seja aceite difamar carne se se for vegan ou vegetariano, uma abordagem ao exitarianismo algo inconstante pode, por vezes, deixar os amigos, parceiros e familiares desconfortáveis e na dúvida. Cozinhar para os flexi pode assumir contornos de missão impossível. Eles dizem que comem peixe, mas o único peixe que parecem efetivamente comer é linguado. Será que sabem qual é o preço de um linguado nos dias que correm? E em relação à carne? Eles comem carne, ou não? Ninguém sabe ao certo.

Enquanto que algumas pessoas sorririam com a perspetiva de um cachorro de roulotte de rua, podemos concordar que seria um absurdo total questionar os vendedores sobre a proveniência do porco que deu origem à salsicha. No restaurante da vida, a tolerância é o prato principal. Assim sendo, estamos muito felizes que tenha encontrado um regime alimentar que funciona para si.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de março de 2019.