Mulheres Que Lutaram Para Poderem Conduzir na Arábia Saudita Sofrem Tortura

Choques elétricos e privação de sono estão entre os alegados maus-tratos aplicados nas prisões. Por: Cátia Pereira Matos -- Imagem: © GTRESONLINE.

O aparente progresso da Arábia Saudita, impulsionado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, esconde uma face obscura: a tortura. Um artigo publicado ontem à tarde no The Washington Post denuncia a aplicação de práticas violentas nas prisões a mulheres ativistas que foram detidas em maio, depois de terem sido acusadas de comprometer a segurança do reino.  Também o Observatório dos Direitos Humanos (Human Rights Watch) e a Amnistia Internacional divulgaram, entre a tarde de ontem e a manhã de hoje, informações sobre alegados maus-tratos infligidos às mulheres nas prisões da Arábia Saudita, baseadas em testemunhos de pessoas próximas das pessoas detidas.

Estas denúncias surgem semanas após a morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi, que a 2 de outubro terá sido torturado e assassinado no consulado da Arábia Saudita em Istambul, Turquia.

Maus-tratos passam por abusos físicos e psicológios

De acordo com a Human Rights Watch, pelo menos três mulheres foram submetidas a abusos físicos e psicológicos durante os interrogatórios policias, tais como a administração de choques elétricos. A Amnistia Internacional não avança números concretos mas refere que «várias mulheres» foram sujeitas a maus-tratos durante as primeiras fases dos interrogatórios. «As ativistas foram repetidamente torturadas por eletrocussão e açoitamento», aponta a organização. «De acordo com um testemunho, uma das mulheres detidas foi submetida a assédio sexual por interrogadores mascarados».

Os depoimentos obtidos pelas duas organizações de defesa dos direitos humanos revelam que as mulheres que sofreram maus-tratos mostravam dificuldades em andar e apresentavam marcas e arranhões no corpo. Ao The Washington Post, um oficial saudita cujo nome não foi identificado negou a aplicação de tais práticas nas prisões. «O sistema judiciário do Reino da Arábia Saudita não tolera, promove ou permite o uso de tortura», disse.

Ativistas detidas lutaram para poderem conduzir

Entre as mulheres que foram alegadamente torturadas fazem parte ativistas que se manifestaram publicamente contra a proibição que, durante décadas, impediu as pessoas do sexo feminino de conduzirem nas estradas da Arábia Saudita. Uma proibição que foi oficialmente suspensa este ano, em junho, e que foi apontada como um sinal de progresso. No entanto, nem todas as opiniões acerca desta suspensão foram favoráveis: nas semanas que antecederam o levantamento da proibição, as mulheres sauditas que haviam lutado por uma carta de condução estavam a ser detidas.

«Fico feliz por a Arábia Saudita ter suspendido a única proibição mundial sobre a possibilidade das mulheres poderem conduzir. Mas também estou preocupada. Ao invés de ser um passo significativo em direção ao progresso, como a maior parte da cobertura sugere, a suspensão da proibição é exatamente o oposto. Permitir que as mulheres estejam ao volante é uma jogada de relações públicas da Arábia Saudita, projetada não para modernizar o reino, mas para tornar um regime repressivo mais agradável ao palato» escrevia em junho a jornalista Arwa Mahdawi num artigo de opinião do The Guardian.

A detenção arbitrária de mulheres ativistas que se opõem ao regime tem sido uma prática recorrente na Arábia Saudita. Ainda em agosto, a ativista Israa al-Ghomgham arriscou pena de morte por atos considerados criminosos, como a participação em manifestações de oposição ao governo e o incitamento ao protesto.