«La Casa De Papel» é Uma Série Feminista Antes de Qualquer Outra Coisa

Não acredita? Então leia o artigo até ao fim e vai ver «La Casa de Papel» com outros olhos. Por: Margarida Brito Paes -- Imagens: © D.R

A terceira temporada de La Casa de Papel até pode ser vendida como uma série de ação emocionante, onde os tiros e a estratégia nos prendem ao ecrã, mas na verdade, antes de tudo isso, esta é uma série feminista. E não dizemos isso só porque é um bando de assaltantes com uma boa quota de mulheres.

O feminismo de La Casa de Papel estende-se do guião, às personagens, passando pelos diálogos. Esta série arrasa com pelo menos dois estereótipos machistas que são incutidos socialmente há muito tempo.

La Casa de Papel desafia estereótipos conjugais

Em primeiro lugar esta temporada conta a história do resgate de Rio, e ao contrário da narrativa mais comum, no que diz respeito a salvamentos entre casais apaixonados, é a mulher que assume o papel de salvadora. Ao ser Rio a ficar em apuros e a ser capturado, enquanto Tóquio consegue escapar enfrentando também muitos perigos, assim esta assume um papel de força.

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Ao ser retratada desta forma Tóquio assume o papel de heroína e ao ser a grande mobilizadora para o resgate de Rio, a sua personagem é retratada como protetora. No entanto, é uma proteção movida pela força e pela coragem, características muito associadas aos homens nos filmes de ação, e não uma proteção maternal, que é geralmente a que é associada às personagens femininas.

Mas mesmo antes de serem apanhados e ser necessário um salvamento, este casal já desafiava os estereótipos, já que o membro retratado como mais dependente é Rio. Outro desafio à ordem instalada.

Inspetora Sierra: a grávida maléfica

Tudo o que se espera de uma grávida é que seja terna, emocional, e de alguma forma debilitada. Por isso, quando vemos a Inspetora Sierra pela primeira vez a interrogar Rio recorrendo à tortura, não nos passa pela cabeça que quando se levanta exiba uma barriga de final de gravidez. Mas estamos a falar de La Casa de Papel, e aqui tudo é possível, ainda bem.

Há lá forma mais eficaz de abalar todas as crenças sociais ligadas às mulheres, que escolher a personagem mais perversa da série para estar grávida?! Não nos conseguimos lembrar de nada mais eficaz que isto!

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Inspetora Alicia Sierra

Piropos não são benvindos em La Casa de Papel

Além da narrativa e da construção de personagens, há ainda alguns diálogos absolutamente épicos. É o caso do piropo «inocente» que Bogotá lança a Nairobi. O ladrão especialista em soldar cofres e caixas fortes, elogia o corpo de Nairobi dentro de um fato justo de mergulho e ela responde-lhe à letra. Nairobi não reage bem ao comentário e lembra a Bogotá que ali é chefe dele, e aquele tipo de comentário, só porque ela é mulher, é absolutamente inapropriado naquela situação.

Uma mulher não pode largar os filhos sem se sentir culpadas. What?!

Mónica e Denver como qualquer casal têm as suas discussões, mas há uma que deixa a ex-refém tão furiosa que está três dias sem falar ao marido. A razão? Antes do assalto Denver sugere que Mónica não devia participar para ficar em casa a tomar conta do filho. O ladrão dá a entender que essa é a obrigação dela e que se devia sentir culpada por deixar o filho, ainda que ele estivesse num lugar seguro, onde seria bem tratado e não correria qualquer risco.

Se fosse connosco também ficávamos três dias sem falar a Denver.