Juízas Descredibilizam Alegada Vítima de Violação Pela Sua Aparência

Os dois homens que terão cometido o crime foram ilibados pelo tribunal de segunda instância. Por: Inês Aparício -- Imagens: © GTRESONLINE.

Corria o ano de 2015, quando uma jovem, na altura com 22 anos, decidiu acompanhar as colegas de curso a um bar no final de uma aula. E, nesse mesmo dia, a rapariga, de origem peruana, terá sido violada por dois homens. A vítima levou o caso para tribunal, e, um ano depois, na primeira instância, ambos foram acusados de violação. No entanto, em 2017, depois recorrerem da decisão, os alegados violadores foram ilibados pelo tribunal de segunda instância, em Ancona, Itália, composto apenas por juízes do género feminino.

A razão da absolvição foi agora revelada, a 8 de março, após a decisão do Supremo Tribunal italiano de anular a sentença e ordenar a repetição do julgamento. De acordo com o The Guardian, os homens terão sido ilibados devido à aparência da vítima. Estes defenderam que, por a vítima ser «demasiado masculina», não se sentiam atraídos por esta e, consequentemente não faria sentido tê-la violado, o argumento foi aceite em tribunal.

«Li a sentença, em 2017, e foi por isso que recorremos ao Supremo Tribunal», esclareceu Cinzia Molinaro, a advogada da jovem, em declarações ao jornal. «Foi repugnante lê-la. As juízas expressaram várias razões para decidir absolvê-los, uma delas foi devido à afirmação dos réus de que nem gostavam dela, porque era feia. Estas escreveram também que a fotografia [da vítima] refletia isso», notou.

O mesmo título avança ainda que os médicos revelaram que a jovem apresentava lesões consistentes com uma violação, além de um elevado nível de benzodiazepinas (fármacos usados para tratar a ansiedade e insónias) no sangue, mas, mesmo assim, a história da vítima foi descredibilizada pela sua aparência. A advogada, Cinzia Molinaro, alega que as bebidas da cliente terão sido drogadas e que vítima terá sido violada por um dos homens, enquanto o outro vigiava.

O caso irá ser novamente julgado num tribunal em Perúgia, Itália, numa data ainda a ser confirmada. Entretanto, a jovem terá regressado para o Peru, uma vez que se terá sentido julgada na sua localidade, depois de denunciar os dois homens.

Protestos em frente ao tribunal italiano

A decisão do tribunal deu origem a protestos de várias organizações de defesa dos direitos das mulheres italianas em frente ao tribunal de Ancona, esta segunda-feira, 11 de março. Estas levantavam cartazes onde era possível ler #indignato (em português, indignado) e acusavam o sistema judicial de misoginia e «caça às bruxas», nota a SBS.