Pela Sexta Vez, Islandesas Fizeram Greve Para Reivindicar a Igualdade Salarial

Mulheres de todo o país interromperam os seus trabalhos e saíram à rua como forma de protesto. Por: Cátia Pereira Matos -- Imagem: © Rut Sigurðardóttir

Islândia, 24 de Outubro de 1975: cerca de 25 mil mulheres de todo o país reúnem-se nas ruas de Reiquejavique e tiram “um dia de folga” do trabalho e das tarefas domésticas como forma de protesto contra a desigualdade salarial entre homens e mulheres. Nesse dia, não comparecem nos empregos, não cozinham para a família nem fazem as lides da casa. Estão em greve total e exigem «igualdade, progresso, paz».

43 anos depois, o momento — que ficou mundialmente conhecido como Women’s Day Off — repetiu-se. Ontem, milhares de mulheres islandesas abandonaram os seus postos de trabalho às 14h55 (hora local) e juntaram-se na colina de Arnarhóll, no centro da capital da Islândia, para reivindicar o fim da disparidade salarial e protestar contra a violência e o assédio sexual no local de trabalho. Foi a sexta greve deste tipo no país desde 1975, depois de protestos idênticos em 1985, em 2005, em 2010 e em 2016.

Organizada sob o mote «Don’t Change Women, Change the World!» (Não Mudem as Mulheres, Mudem o Mundo, numa tradução literal), a greve de ontem contou com a participação de mulheres de diversas faixas etárias, de vários pontos do país, e ficou marcada pelos discursos feministas de diversas ativistas e políticas, entre as quais a antiga primeira-ministra islandesa, Jóhanna Sigurðardóttir.

Luta pela igualdade salarial

Jóhanna Sigurðardóttir, antiga primeira-ministra, discursou sobre a necessidade e a premência de um protesto deste tipo em 2018, mesmo num país como a Islândia, que há nove anos consecutivos encabeça, pela positiva, o Relatório Global Sobre as Disparidades de Género (em inglês Global Gender Gap Report) do Fórum Económico Mundial. «A Islândia é commumente reconhecida como o país com a maior igualdade de género no mundo, mas isso só mostra como as coisas estão más para as mulheres nos restantes países», começou por dizer Sigurðardóttir.

A islandesa, que não só foi a primeira mulher no país a assumir o cargo de primeira-ministra (entre 2009 e 2013), como foi também a primeira chefe de Estado assumidamente homossexual, olha para a desigualdade salarial como um «roubo», sendo por isso inadmissível. «As mulheres mantêm o crescimento económico ao mesmo tempo que são grosseiramente subvalorizadas nos salários. Precisamos de reavaliar imediatamente o trabalho das mulheres na Islândia (…) A discriminação salarial é um roubo do salário», afirmou, antes de apelar a uma união entre as mulheres que conduza a uma mudança positiva na sociedade. «Venham, mulheres! Temos um trabalho a fazer. Não paremos até que as contribuições das mulheres sejam avaliadas de forma justa e o mercado de trabalho seja mudado para atender às necessidades das mulheres.»

Fim aos assédios no local de trabalho

A luta das mulheres islandesas pela igualdade de género nos locais de trabalho ultrapassa a questão da remuneração salarial e estende-se à segurança, ao conforto e à dignidade, como notou Áslaug Thelma Einarsdóttir. Para a ativista, é inaceitável que, em 2018, «as mulheres ainda vivam à sombra da opressão e da discriminação» nos empregos. «Mulheres, vamos parar de tentar adaptarmo-nos», pediu. «Os nossos locais de trabalho são os nossos espaços, não são apenas espaços masculinos».

Sólveig Anna Jónsdóttir, presidente do sindicato de trabalhadores da Islândia Efling, envolvido na organização da greve, partilha da mesma opinião e considera que a discriminação a que as mulheres estão sujeitas nos empregos não pode ser desprezada: «As mulheres que vieram antes de nós reconheceram a opressão e começaram a lutar pela libertação das mulheres. Temos para com elas uma dívida histórica. Mas devemos encarar de frente o facto de que as mulheres continuam a ser sistematicamente oprimidas; ainda sofremos violência, o nosso trabalho é desvalorizado e o nosso conhecimento desprezado». «Chegou a hora de as mulheres trabalhadoras receberem o que merecem. Chegou a hora de lutarmos contra o roubo dos salários e do poder das mulheres. Chegou a hora de vivermos livres da opressão: opressão sexual, opressão de género e opressão económica», rematou.

Os números da desigualdade salarial na Islândia

A razão pela qual as mulheres islandesas foram ontem encorajadas a abandonar os locais de trabalho, às 14h55 em ponto, prende-se com o facto de estas deixarem de ser pagas precisamente a partir desta hora. As estatísticas mais recentes sobre a remuneração salarial na Islândia, avançadas pelo RUV, indicam que o salário médio de uma mulher islandesa é em 26% inferior ao salário médio de um homem. Considerando o modelo tradicional de uma jornada de trabalho (das 9h00 às 17h00), isto quer isto dizer que as mulheres só são efetivamente pagas pelas primeiras cinco horas e 55 minutos de trabalho.

Para por fim a este fosso salarial, a Islândia implementou, em janeiro, uma lei que proíbe o pagamento de salários diferentes a homens e mulheres que desempenham as mesmas funções e prevê multas para as entidades empregadores que não cumpram esta diretiva.