A História Inspiradora de Hélène Lazareff, a Fundadora da ELLE

Esta é a sua história (e, por consequência, a nossa também). Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: Alain Dejean, Jean Saurin, Martine Richier e D.R

Não era a pessoa mais ternurenta do mundo, mas deixava-se governar pelos seus sentimentos e derretia-se perante uma boa conversa de “revista cor-de-rosa”. No trabalho liderava com pulso de ferro e luva de veludo e, ao longo da vida, foi às palavras – que tantas vezes foram o seu refúgio – que foi beber conhecimento (sem saber que, um dia, seria atraiçoada por elas). Hélène Lazareff era tudo isto e muito mais, mas não queremos dar continuidade a este texto num tom muito saudosista, e muito menos lamechas (ela detestava lamechices). Fiquemo-nos antes pelos factos e pelos vários acontecimentos da sua vida que fizeram com que esta fosse tudo menos aborrecida.

Hélène Lazareff no seu escritório na Rue Réaumur.

Back in the U.S.S.R.

Hélène nasceu a 21 de setembro de 1909, na Rússia da antiga União Soviética, na cidade de Rostov do Don (zona sul do país), em berço de ouro, graças ao seu pai, Boris Gordon, que, além de ser dono de um jornal com tiragem diária de 150 mil exemplares, de um teatro e de uma pista (e estábulo) dedicada às corridas de cavalos, tinha ainda em sua posse grande parte da indústria de tabaco no país. Infelizmente, estes tempos de grandes luxos foram curtos na sua vida, pois quando se deu início à revolução Russa, que aboliu a monarquia e terminou com a tomada de posse de Lenin, Hélène foi obrigada (ela e a sua família de origem judaica) a fugir do país.

Após uma curta e breve passagem por Londres, foi em Paris que acabaram por assentar, e encontraram a sua nova pátria. Aprendeu a falar inglês e francês ao mesmo tempo, e enquanto o seu pai vivia obcecado por voltar a conquistar o sucesso financeiro para garantir um estilo de vida semelhante ao que tinha na Rússia para ela e para a sua família – ainda que sem grande sucesso –, Hélène estudava no Liceu Vic- tor-Duruy (formando-se com distinção) sem nunca deixar que esta questão do dinheiro lhe fizesse grande diferença.

O casamento de Hélène Lazare

Após ter concluído os estudos, decidiu casar-se, aos 19 anos, com Paul Raudnitz, com o qual teve uma filha: Michèle Rosier (que viria a tornar-se jornalista e cineasta). A relação foi curta, devido a grandes divergências entre ambos – muito devido ao facto de ela não querer ser apenas dona de casa –, e o matrimónio terminou após três anos.

Procurando tirar proveito desta sua nova liberdade, decidiu matricular-se no curso de Etnologia e Letras na Universidade de Sorbonne, onde viveu uma das experiências que viriam a marcar a sua vida: uma expedição ao Mali durante três meses para estudar os hábitos e costumes da tribo Dogon. Assim que terminou essa experiência, decidiu escrever sobre ela, publicando uma série de artigos no jornal L’Intransigent, e fazendo assim com que o “bichinho” do jornalismo nascesse.

Pessoal e profissional

As portas para o mundo da comunicação começaram a abrir-se para a jovem Hélène após esta experiência, mas foi em 1936 que a sua carreira mudou denitivamente, quando, numa noite, em casa do explorador francês Paul-Émile Victor, conheceu aquele que viria a ser o seu futuro marido: Pierre Lazareff. O encanto que ambos sentiram um pelo outro foi quase instantâneo. Na altura, Lazareff era já o diretor do jornal francês Paris-Soir, e convidou-a para ser responsável pela rubrica Crianças no jornal. A este trabalho vieram ainda juntar-se as suas colaborações com o Daily News e com a revista Marie Claire.

Tudo corria de vento em popa para o inseparável casal Lazareff, até que em 1939 (o mesmo ano em que os dois se casaram e se mudaram para uma casa na rue de Montpensier) começou a instalar-se um clima de tensão nas ruas de Paris com o aproximar da Segunda Guerra Mundial. Os dois tentaram permanecer o máximo de tempo possível na cidade, contudo em 1940 viram-se obrigados a mudar-se para Nova Iorque.

Assim nasceu a ELLE

Encontrar trabalho não foi difícil. Hélène Lazareff falava inglês desde criança (língua que lhe havia sido ensinada pela sua ama, Miss Woodell, a qual lhe tinha também passado o gosto pela literatura anglo-saxónica) e, por isso, conseguiu rapidamente tornar-se colaboradora de títulos como o New York Times e a Harper’s Bazaar.

Hélène Lazareff no departamento gráfico, durante a produção da ELLE.

Esta temporada foi provavelmente uma das mais importantes da sua vida, não só porque entrou em contacto direto com o mundo das revistas femininas, tendo tido a oportunidade de privar com nomes icónicos como Diana Vreeland e Carmel Snow, mas também porque foi precisamente durante essa temporada na cidade que nunca dorme (que já era dominada pelo consumismo extremo) que teve uma das mais brilhantes ideias da sua vida, enquanto passeava pelas ruas da Broadway: criar um título feminista que, através de um rigor jornalístico exímio, conseguisse comunicar para uma mulher moderna, uma mulher independente, uma mulher que não tinha medo de questionar as ideias e os padrões preconcebidos pela sociedade para o género feminino, e que ao mesmo tempo era apaixonada por moda, beleza, cultura. Esse título foi, claro, a ELLE.

Uma Boss Lady

A ideia do lançamento da ELLE ficou em “banho-maria” durante algum tempo, mas foi ( finalmente) cozinhada em 1944, quando Hélène regressou a Paris, e no chão do seu apartamento na avenue Kleber, começou a colar e a descolar textos e imagens para criar maquetes daquilo que viria a tornar-se a primeira edição da revista. No dia 21 de outubro foi então lançada a ELLE.

A perspicácia, a intuição e a curiosidade voraz de Lazareff, acompanhadas pelo tom otimista, empoderador e destemido dos artigos, fizeram com que o sucesso fosse imediato. No entanto, trabalhar com ela não era (como dizem os americanos) “all fun and games”. Temos uma melhor perceção da sua personalidade, e de como geria a revista com pulso de ferro e luvas de veludo, através do artigo publicado por Françoise Tournier (que trabalhou diretamente com ela), em outubro 1990, na ELLE Portugal: «Semicerrava os olhos para observar melhor as pessoas. Ou ela gostava imediatamente, e podiam assim entrar no círculo de giz que parecia traçar à sua volta, ou, caso contrário, nunca ali entrariam (…) era narcísica e, por vezes, muito dura. Mas também juvenil e desarmante. Odiosa e irresistível. Apenas acreditava nas coisas concretas da vida. Se o artigo que acabáramos de escrever não lhe agradava, pegava nele e pousava-o sobre as grainhas das uvas que petiscava o dia inteiro. Quando deixava de gostar de alguém, nem sequer olhava para essa pessoa no corredor. A desgraça era por vezes tão insuportável que não aguentávamos mais, e despedíamo-nos (…) detestava os artigos chatos e as pessoas vazias (…) tinha pânico da violência física e das gritarias. Preferia esquivar-se a enfrentar um confronto. Autocraticamente, decidia sozinha o que devia e o que não devia publicar na revista (…) Alimentava-se apenas de paixões. A ternura não era um sentimento para ela.»

Quer se gostasse de Hélène quer não, a verdade é que foi graças à sua personalidade, e à da equipa de mulheres de caráter, com ideias próprias (sobre temas como sexo, contraceção, aborto, política, trabalho, moda) que com ela trabalhavam que a ELLE (sediada na rue Réaumur) se tornou um sucesso tremendo, ajudando-a a impor nomes como os de Brigitte Bardot, Coco Chanel, André Courrèges, Bettina Graziani, Sophie Litvak, Sylvie Gélin, Twiggy, Nicole de Lamargé e Marcel Pagnol.

Eterna casa de campo

Se, durante a semana, Paris era a sua casa e o seu escritório, ao fim de semana era em Louveciennes que tudo acontecia. Além de muitas edições da ELLE terem sido ali pensadas, a casa de campo da diretora e fundadora da revista era ainda um verdadeiro palco de celebridades (como Aristóteles Onassis, Maria Callas, Martin Luther King, Simone Signoret, Henry Kissinger e Coco Chanel), que eram pontualmente convidadas para os seus faustosos almoços de domingo, em que ela se punha a par de todos os mexericos.

Hélène gostava tanto desta casa que a escolheu para passar os últimos anos de vida com a sua família depois de, em 1972 (ano da morte do seu marido, Pierre Lazareff), ter deixado o posto de comando na ELLE, decisão que tomou cerca de dois anos após lhe ter sido diagnosticada a doença de Alzheimer. Hélène acabou por morrer a 16 de fevereiro de 1988, é certo, mas o seu legado perdura até aos dias de hoje, tendo-se multiplicado pelo mundo e contando atualmente com 45 edições da revista, espalhadas por todos os continentes.