Imprensa Cor-de-Rosa: É Impossível Resistir-lhe e Há Uma Boa Razão Para Isso

A imprensa cor-de-rosa tem um poder curativo impressionante quando tomada nas doses certas. Por: K.B. e Carolina Adães Pereira -- Imagem: D.R.

Alguns dizem que é fútil, outros até lhe atribuem a culpa pelo mal do mundo, mas será que a imprensa cor‐de‐rosa pode ter poderes curativos? De rumores em rumores, procuramos a resposta.

O dia em que percebi que tinha ansiedade pós‐parto – e que deitar‐me no chão a chorar não era uma parte intrínseca ou necessária da maternidade –, fiz o que devia fazer: falei com o meu médico, recebi uma prescrição para comprar Zoloft, sentei‐me numa cadeira muito confortável nas sessões de terapia, criei um plano para tratar da minha saúde mental e pesquisei métodos – assustadores para mim até a este momento – como a meditação consciente. Tudo isto ajudou, mas, mesmo assim, ainda precisava de encontrar um caminho de volta para mim mesma.

O poder curativo de uma boa fofoca

Um dia, calcei os meus ténis, coloquei o meu filho recém‐nascido no seu carrinho de bebé e cliquei play num podcast hilariante sobre fofocas de celebridades. Estava à espera que os meus pensamentos ansiosos se afastassem com a brisa, mas, juro, as fofocas ajudaram mais nessa tarefa do que o ar fresco. Quando coloco os meus auscultadores para ouvir programas como o Who? Weekly, esqueço‐me, ainda que temporariamente, dos meus medos avassaladores.

Outros, no seu momento de meditação, podem visualizar riachos balbuciantes ou fins de tarde calmos, mas eu conjurei todas as aparições públicas de Meghan Markle e do príncipe Harry como uma forma de aliviar o meu isolamento e stress. Ouvir pessoas a falarem sobre os altos e baixos de cada participante do reality show do momento fez com que eu sentisse que o meu cérebro estava a receber uma massagem com pedras quentes. Como é que podia preocupar‐me com a minha orientação espiritual quando estava a saber tudo sobre a separação da Khloé Kardashian?

Será que este novo hábito é realmente útil ou eu estava a tentar desesperadamente convencer‐me de que era? De acordo com especialistas, os cérebros ansiosos como o meu têm um modo hipersensível, quase de luta ou fuga, que é uma resposta fisiológica e instintiva ativada durante períodos de muito stress. Quando me distraio com histórias como “Porque é que Pete Davidson e Kate Beckinsale estão numa relação?”, o meu cérebro distrai‐se e deixa de se concentrar nas ameaças reconhecidas, que estão num modo de loop infinito – e para de projetar sinais de angústia.

As minhas sessões semanais de Who? Weekly também são muito divertidas, o que é uma estratégia introdutória utilizada na terapia comportamental cognitiva, a afirma Judith Laposa, psicóloga da Divisão de Transtornos de Humor e Ansiedade do Centro de Dependência e Saúde Mental em Toronto.«Muitas vezes, quando estamos deprimidos [ou ansiosos], afastamo‐nos do mundo», a afirma Laposa. «Uma das primeiras coisas que fazemos quando iniciamos o tratamento é devolver às pessoas a prática de atividades que lhes dão uma sensação de prazer.»

A imprensa cor‐de‐rosa é, admito, um guilty pleaure. Mas, tive de dizer a mim mesma que não sou a única a gostar disto. Lainey Gossip, o meu site de fofocas favorito, dirigido por Lainey Lui, tem mais de 18 milhões de visualizações mensais de páginas, enquanto o Who? Weekly é descarregado por milhares de pessoas todas as semanas.

Gossip à portuguesa

Em Portugal, a força da imprensa cor‐de‐rosa também não é novidade, tendo‐se reinventado nos últimos anos em novos formatos. Se antes só se discutia celebridades em revistas especializadas ou em rubricas de programas do daytime, a expansão da televisão por cabo, o crescimento da internet e a criação de novos formatos de entretenimento brindaram‐nos com novas referências de informação.

Exemplo disto é o site Dioguinho: criado na segunda edição do reality show da TVI, A Casa dos Segredos, para acompanhar os acontecimentos do programa e as polémicas que se desencadeavam fora da casa, em 2013 tinha, em média, três milhões de visitas por mês. Outro exemplo é o canal SIC Caras: não só carrega no nome e o ADN de uma das revistas mais populares do País, como dedica a sua programação à exploração dos temas mais quentes das celebridades do momento. O programa Passadeira Vermelha, formato de sucesso do canal temático desde o seu lançamento, saltou para a grelha da SIC generalista no verão de 2018 e, desde aí, não é estranho ler nos sites especializados que o programa apresentado por Liliana Santos liderou no seu horário frente à TVI ou à RTP.

A História do mexericos

E se as notícias sobre as vidas de celebridades me ajudaram a sentir que estava no controlo da minha vida, estas também não poderão ter outros benefícios sociais? Quer dizer, a imprensa do social existe desde sempre, então deve ter valor, certo? Algumas teorias datam as origens dos mexericos há quase dois milhões de anos.

Naquela época, baseavam‐se em contar histórias à volta daquilo que se passava nas cavernas ou nas aldeias. Nessas comunidades, muitas vezes isoladas, permitiam que as pessoas compartilhassem informações e reforçassem a moral e os seus valores. São também uma forma de criar e de reforçar laços: hoje conectamo‐nos a debater sobre quem mordeu em Beyoncé; há milhares de anos, podíamos ter tido a mesma conversa sobre os nossos vizinhos. «É uma parte muito importante da natureza humana; não percebo termos de justificar porque é que isto nos une», conta Lainey Lui ao telefone, num intervalo das gravações dos seus programas, The Social e Etalk, e do trabalho no seu website. Lui é uma defensora da validade da imprensa cor‐de‐rosa há anos, documentando este universo no seu blog desde 2004 com uma perspetiva crítica – o que lhe valeu um convite para dar aulas sobre a área em diferentes universidades. «Precisamos destas histórias, especialmente em momentos negativos ou em períodos das nossas vidas em que nos sentimos mais em baixo», reforça. Se as crises das celebridades estiverem embrulhadas com um bonito laço, ainda melhor, observa Lui, pois é uma resolução que tantas vezes falta nas nossas próprias vidas.

Anne Helen Petersen do website BuzzFeed, que se concentrou na história da imprensa social para a sua tese em Estudos dos Média, argumenta que as narrativas de celebridades podem agir como um espelho para as nossas próprias vidas: «Eles oferecem uma oportunidade para introspeção.» Por exemplo, diz Petersen, é provável que a sua obsessão com o estado do útero de Jennifer Aniston esteja diretamente relacionada com os seus próprios e complicados sentimentos sobre a maternidade.

Quando a imprensa deixa de ser assim tão cor-de-rosa

Mas e se o que ouvimos e partilhamos não for verdade? «Quando a notícia é irresponsável e não foi devidamente produzida, é o reflexo de alguns dos aspetos mais negativos da nossa cultura», refere Lui, que verifica e confirma escrupulosamente com as suas fontes antes de publicar notícias sobre celebridades, como quando Brad e Angie foram para África para o parto da sua filha Shiloh, em 2006. «Temos um grande segmento da nossa sociedade que é misógino, racista e injusto; então, muitas notícias serão misóginas, racistas e injustas».

O oeste selvagem da internet – onde muitos de nós consumimos informação – não veio ajudar em nada esta área do jornalismo. O reinado do Perez Hilton e do agora extinto The Superficial não é nada comparado com os rumores de hoje e com o poder do Twitter. Talvez me sinta atraída por estas fofocas de celebridades porque a minha distância emocional dos retratados – a Beyoncé e eu não somos melhores amigas, infelizmente – faz com que haja um risco muito baixo de a negatividade deles contribuir para a minha ansiedade. «Para algumas pessoas, o gossip sobre celebridades pode ser uma forma de escapar da sua própria existência no dia a dia», explica Laposa. Uma coisa é debruçar‐se sobre os detalhes do diz‐que‐disse sobre Tristan Thompson/ Jordyn Woods e outra bem diferente é falar com a minha amiga sobre os seus sogros tóxicos, especialmente porque vou voltar a vê‐los no próximo churrasco em sua casa.

Dois anos de fofocas de celebridades depois, a minha ansiedade está sob controlo. Ainda estou medicada, mas sempre que sinto um ataque de pânico, descarrego um episódio de Who? Weekly no meu telemóvel e pego nos ténis. O meu nó no estômago diminui quando ouço os anfitriões Bobby e Lindsey a falar sobre o casamento‐surpresa da cantora country Miranda Lambert com um polícia giro. O meu pulso diminui quando ouço os detalhes do noivado de JLo. A imprensa cor‐de‐rosa pode parecer superficial, mas também é um lembrete reconfortante de que, independentemente de seres uma estrela country a encontrar o amor ou uma mãe recente a tentar ultrapassar mais o dia, estamos juntas nisto.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de agosto de 2019.