De Que Forma a Pandemia Impactou os Relacionamentos Amorosos

Será que o que já estava em será que foi só o que já estava em risco de ruina se desmoronou? Imagens: © Imaxtree.

Como diz o ditado: uma desgraça nunca vem só. Em março, estava isolada no campo, na casa dos meus pais quando, lá fora,  uma tempestade se agravava com o aparecimento de novos casos da COVID-19. Devido ao confinamento, dei por mim separada do meu parceiro de sete anos e meio por uma longa autoestrada; uma barreira apenas ligeiramente maior do que o enorme abismo que se criou entre nós. Já tínhamos problemas antes, mas, em maio, quando consegui voltar à cidade para estar com ele, as coisas pareciam não ter salvação. Discutíamos sobre onde fazer a quarentena, sobre a quantidade de atenção que deveríamos dar um ao outro durante o confinamento e sobre quão pouca atenção prestávamos um ao outro mesmo antes da pandemia, já que ambos ocupávamos as nossas agendas com os nossos compromissos profissionais e vida social. Mas, na verdade, a grande questão que nenhum de nós tinha coragem de levantar era: se morrêssemos durante esta crise de saúde, partiríamos felizes por saber que tínhamos passado tantos anos “presos” um ao outro? Ou, pelo contrário, tristes por não termos tido outras experiências?

Pode parecer dramático pensar que um vírus pode ditar a sentença de morte do que antes era considerado uma relação “para sempre”, mas a verdade é que o caos (e a procura metafísica a que o caos nos inspira) resultou no fim de inúmeras relações pelo mundo inteiro.

À medida que tudo encerrava na Europa, em março, a China levantava as suas restrições. E, com essa notícia, o relato de um aumento significativo nos pedidos de divórcio. A pandemia, ao que parecia, tinha-se tornado um barril de pólvora para os casamentos. Por se verem obrigados a confinar juntos, os casais começaram a ter de se suportar 24 horas por dia. Correu mal para muitos. A situação na China funcionou como um aviso sério para o resto do mundo e, depois, tal como o vírus, os efeitos começaram a surgir bem próximo de nós.

«Numa relação amorosa, quando as pessoas tem formas de se proteger diferentes, podem surgir ainda mais conflitos.»

«Não há dúvida de que o confinamento colocou pressão nas relações», afirma Sandra Davis, sócia de uma sociedade de advogados especializada em Direito da Família, em Londres, que trabalha em casos de divórcio há 40 anos, com clientes que incluem a Princesa Diana e Jerry Hall. «Com o confinamento, acabaram as atividades extracurriculares. Sem as saídas habituais, a negatividade que existia nas relações intensificou-se e as fragilidades, que já existiam, transformaram-se em rupturas», explica. Desde o início do confinamento que os pedidos de divórcio se multiplicaram, com um aumento significativo em Julho, quando as restrições diminuíram e os casais que tinham estado a viver juntos e infelizes finalmente conseguiram ver uma luz ao fundo do túnel. «Temos estado muito ocupados. Muitos advogados afirmaram que têm tido muito mais pedidos do que o habitual para estar altura do ano», confirma Davis que diz também que, atualmente, alguns casais estão a planear com antecedência eventuais confinamentos futuros porque sabem, agora, o que pode estar ao virar da esquina: «As pessoas têm estado a tomar decisões. Acredito que, em parte, as pessoas que temem outros confinamentos num futuro mais ou menos próximo, querem sair de casa agora, antes disso acontecer», conclui.

A velocidade a que os casais estão a tentar terminar as suas relações – em Portugal registou-se um aumento de 235 pedidos de divórcio entre 1 de julho e 30 de Setembro face a 2019  – deve-se a uma mudança drástica de contexto. «As crises aceleram estes processos nas relações amorosas», explica Esther Perel, terapeuta de casais e autora do best seller Mating In Captivity (à venda na Wook). «As pessoas ou pensaram ‘A vida é curta, vamos ter filhos’ ou pensaram ‘A vida é curta, sinto-me infeliz, é  hora de seguir em frente’».

As crises também funcionam como amplificadores. «Todos nós aprendemos a criar mecanismos de defesa. Quando somos pequenos, esses mecanismos mantêm-nos seguros. Mas, na idade adulta, o contexto muda e, por vezes, esses mecanismos deixam de funcionar. Quando as pessoas passam por um período de incerteza prolongada – como é o caso de uma pandemia – mudam de perspetiva. E numa relação amorosa, quando as pessoas tem formas de se proteger diferentes, podem surgir ainda mais conflitos».

Há um ano atrás, Ana sentia-se mais tranquila do que nunca. Ela e o marido, de 26 anos, tinham criado uma relação duradouro e feliz, viajado pelo mundo juntos e falado abertamente sobre o que os unia. Para o mundo exterior – e também para Ana – eram um “casal para sempre”. Como em todas as relações, havia fragilidades. No final do ano passado, Ana começou a suspeitar que o marido escondia coisas dela. Uma noite, depois de o marido adormecer, olhou para o telefone dele e encontrou mensagens de uma amiga sua. «Ele andava a trair-me», disse. «Foi um choque completo, mas eu não queria perder o que tínhamos, por isso decidi ficar». Nos meses seguintes, tentaram resolver as coisas através de terapia para casais e Ana estava a lidar com a ansiedade crescente que sentia. Foi então que surgiu a pandemia.

Durante o confinamento, Ana começou a ver mais claramente no que o seu casamento se tinha transformado: «Ele estava sempre quieto e sossegado, já não era brincalhão nem mostrava interesse nas coisas das quais costumava gostar. E, claro, a sua atitude comigo mudou drasticamente».

«Conseguir equilibrar tudo tem sido um grande fator de stress para um grande número de casais»

A COVID obrigou-os a verem-se um ao outro – e em quem se tinham tornado ao longo do tempo – de uma forma mais clara. «O facto de estarmos juntos o dia todo, todos os dias, permitiu-me perceber isso», afirma. A relação ia esmorecendo à medida que o seu marido se ia afastando (cada vez mais) dela. No final, tornou-se demasiado difícil e, assim que as medidas mais restritivas foram levantadas, Ana decidiu mudar-se para a casa dos seus pais, a mais de 400 quilómetros de distância. Ela acabou por preencher o pedido de divórcio passado pouco tempo. «Não me sinto sozinha», revela, «Vim-me embora porque a opção de ficar já não existia».

«Os casais estão sempre a delegar emoções um ao outro», diz Perel. «Um minimiza; outro maximiza; um implode; o outro explode. Mas, em situações de elevado stress, essa polarização torna-se mais intensa». Para a maioria das relações, estes períodos  são superáveis. A vida em casal envolve um certo grau de separação: não estamos juntos o tempo todo. Contudo, na pandemia, essa polarização agudizou-se, e os casais perderam o sentido de liberdade e individualidade. «As nossas vidas e funções são contextualizadas por localizações físicas», frisa Perel. «Nós passeamos o cão, vamos ao ginásio, estamos no escritório, passamos tempo em casa. Nos últimos meses vimos estes contextos desaparecerem. Não estamos a viver este período apenas a trabalhar a partir de casa, estamos a trabalhar com a casa. Todos os aspetos da nossa vida acontecem no mesmo lugar, dia após dia. Isto pode causar uma série de desafios para os casais – incluíndo o impacto no desejo sexual que sentem um pelo outro. «O sentimento de desejo pelo outro requer mistério e quando estamos em cima um do outro durante 24 horas por dia, a noção de mistério não faz nenhum tipo de sentido».

Tal como o desejo, há a questão do dinheiro e da divisão do trabalho, relativamente ao emprego e às tarefas domésticas. Depois da recessão de 2008, houve um aumento de 5% nas separações conjugais, um padrão que também ocorreu depois da recessão dos anos 90. Os especialistas em divórcio atribuem isso à tensão causada por uma crise económica e ao facto dos casais estarem mais dispostos a tolerar problemas conjugais se houver dinheiro suficiente. Agora que a Europa parece estar prestes a mergulhar noutra recessão económica – possivelmente uma depressão – o stress financeiro e a pressão para continuar a ter um emprego é um fator determinante no fim das relações.

O trabalho e o dinheiro criaram uma tensão à qual foi impossível Amanda e o seu companheiro dos últimos 10 anos, João, escaparem. 2020 representava um novo começo depois de se terem casado em Agosto de 2019 e terem decidido ir viver para outra zona do país, em Janeiro, com o seu filho de quatro anos (uma ideia de Amanda que João aceitou). Foi então que chegou o mês de março – e com ele a pandemia – e as coisas começaram a piorar. «Tínhamos acabado de nos instalar na casa nova», recorda Amanda. No auge da pandemia, o seu marido contraiu o vírus e a família teve de ficar em quarentena durante três semanas. No entanto, as verdadeiras dificuldades surgiram quando ele regressou ao trabalho; O ambiente ficou cada vez mais tenso quando ficou claro que ele estava a ter dificuldades em adaptar-se à mudança. João estava infeliz no seu novo trabalho e, como resultado, começou a ficar hostil para com Amanda, que era o “ganha-pão” da família. Além disso, como era necessário cuidar do filho durante 24 horas por dia, sete dias por semana, o trabalho desigual em casa tornou-se motivo para discussões, com Amanda responsável pela maioria do trabalho.

«Vai ser preciso, pelo menos, mais um ano até vermos o impacto total e real que a pandemia teve nos casamentos».

Com muito pouco apoio, a sua nova vida claustrofóbica começou a pesar e ela começou a sentir um ressentimento crescente em relação ao marido. Duas semanas antes do seu primeiro aniversário de casamento, João saiu de casa enquanto Amanda estava no trabalho e enviou uma mensagem a pedir a custódia partilhada do filho. Apesar de inicialmente se ter sentido arrasada e forçada a fingir que estava tudo bem pelo filho, atualmente confessa sentir-se aliviada por ter conseguido algum espaço para respirar longe do seu ex-parceiro.

Embora as discussões sobre as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos não sejam novidade entre casais que se querem divorciar, de acordo com Caroline Elliott, dirigente da sociedade de advogados Shakespeare Martineau Nottingham, o grande aumento na carga de trabalho que surgiu com a pandemia e a proximidade constante provocada pelo confinamento agravou todos estes problemas. «Conseguir equilibrar tudo tem sido um grande fator de stress para um grande número de casais»,  explica.

Por causa das regras do confinamento, que ditavam que só se podia sair de casa para fazer exercício físico ou ir às compras de bens essenciais, as pessoas tinham muito pouco tempo para estabelecer contacto, em privado, com advogados. «Tive pessoas que me ligavam a caminho do supermercado ou quando estavam a dar um passeio com o cão porque estavam presas em casa e não conseguiam ligar a alguém para pedir aconselhamento», revela Elliott.

Adicionalmente, a divisão de bens pode ser problemática – particularmente quando a economia tem uma queda abrupta e o valor da propriedade, por exemplo, se torna mais incerta. É o caso de uma das clientes de Elliott, que foi colocada em lay-off durante o confinamento. Como o seu casamento se desmoronou, decidiu pagar a parte da casa do marido, para que ele saísse. Mas como ser despedida era um risco real, foi tudo mais complicado. «Em circunstâncias normais, ela podia pedir um pouco mais na hipoteca e pagar a parte dele mas, assim, o mais provável é que tenham que vender a casa», conclui Elliott.

Nem todos os casais que viram o seu casamento terminar estão a enfrentar processos de divórcio longos e complicados. The Divorce Surgery, criada pelos advogados Samantha Woodham e Harry Gates em 2018, ajuda os casais a entenderem-se para um resultado final mais justo e sem ser necessário ir a tribunal. A empresa é pioneira num novo modelo de advocacia que se resume ao lema “um casal, um advogado”. O trabalho, disse Woodham, não tem fim, principalmente devido ao enorme stress que a COVID-19 tem tido no sistema judicial familiar – muitos julgamentos foram adiados e algumas audiências decorrem por vídeo ou através de uma chamada telefónica. «É um instrumento tão impessoal para um processo tão sensível e cheio de nuances», afirma ela, acrescentado que o acumular de processos no tribunal se cruzou com um procura crescente por uma abordagem mais humana e sensata aos processos de divórcio; uma dinâmica começada pelo processo de separação consciente de Gwyneth Paltrow e Chris Martin.

«Agora, mais do que nunca, existe uma perceção de que o casamento não foi um erro, apenas algo que chegou ao fim»

«Esta pandemia global deu-nos um perspetiva mais abrangente sobre o que é a vida», sublinha Woodham. «Tem havido uma grande reação contra o tipo de divórcio estilo Guerra das Rosas dos anos 80, onde cada membro do casal tem um advogado e se atacam mutuamente. Criar conflito sem qualquer motivo é algo que pessoas já não querem. Agora, mais do que nunca, existe uma perceção de que o casamento não foi um erro, apenas algo que chegou ao fim».

De acordo com a advogada de divórcios Sandra Davis, podemos ainda nem ter visto a escala real da situação.  Como ela própria afirma: «Vai ser preciso, pelo menos, mais um ano até vermos o impacto total e real que a pandemia teve nos casamentos».