«Coisa Mais Linda»: A Nova Série de Época Que a Vai Agarrar ao Ecrã

Quatro mulheres nos anos 50, no Brasil, decidem tomar as rédeas da sua vida numa aventura inspiradora. Por: Inês Aparício -- Imagens: © Aline Arruda / Netflix

Mal ouvimos o título da nova série brasileira da Netflix, começa a tocar naturalmente na nossa cabeça a Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A associação é inevitável até para os produtores, que a escolherem, na sua versão inglesa, para o genérico da série Coisa Mais Linda. É assim que iniciam os sete episódios da produção original da plataforma de streaming, que viaja até à década de 50 para mostrar como era ser mulher no Brasil dessa época.

A série, que estreou no passado dia 22 de março, é um retrato do desafio às normas e costumes da altura, pela ótica de quatro mulheres de condições sociais, valores e histórias de vida bastante diferentes. Maria Luíza (Maria Casadevall), Adélia (Pathy Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa) são as quatro mulheres que formam o coração desta série. Cada uma destas mulheres é feminista, numa altura em que a palavra ainda nem existia, juntas acabam por se influenciar umas às outras e lutar pelos seus direitos quebrando todas as convenções e descobrindo uma nova forma de ser mulher no Brasil daquela década.

As quatro garotas de Ipanema

A história começa com Maria Luíza, uma ‘patricinha’ típica que tem a ousadia de renunciar a tudo para seguir um sonho louco. Filha única, de uma tradicional  família rica da cidade de São Paulo nos anos 50, a protagonista de Coisa Mais Linda «tem reunidas todas as condições para que não precise, em nenhum momento, de questionar a sua própria condição», nota Maria Casadevall em entrevista à ELLE. Contudo, quando o marido desaparece com todo o seu dinheiro e uma amante, esta tem de fazer uma escolha: permanecer no Rio de Janeiro e seguir sozinha o sonho de ter âmbar com música ao vivo  ou voltar para a casa dos pais, onde pode continuar a sua vida despreocupada e luxuosa de dondoca junto ao do seu filho. A paixão pela cidade carioca – que representa, para Maria Luíza, «a transgressão, o sonho e a música» – e a vontade de ter algo seu, sem depender de homem nenhum, leva-a a tomar a decisão de se manter no Rio de Janeiro.

É aí que esta personagem conhece Adélia, uma jovem negra que sempre teve de trabalhar para se sustentar a si, à filha e à irmã, sem ajudas externas. Pathy Dejesus explica que esta é a representação de «uma realidade muito difícil à qual não existiam muitas alternativas» quando se era mulher e negra.

Lígia espelha a sociedade característica dos «Anos Dourados» no Brasil, nos quais as classes média e alta tinham uma vida próspera a nível económico e social. Lígia tinha uma vida tranquila(e chata) até ao dia em que começa a tomar decisões sem consultar o marido e a mostrar os seu desejo revoltar a cantar. É nessa altura que a amiga de infância de maria Luíza começa a sofrer repressões sociais e violência doméstica. «Vejo a Lígia como alguém que não se pode expressar, como uma voz abafada. Não pode ter direitos ou vontades», conta Fernanda Vasconcellos à ELLE diretamente do Brasil.

Ao contrário das restantes, Thereza é uma mulher independente, à frente do seu tempo. Mel Lisboa descreve-a como «um farol que ilumina as outras personagens, mostrando-lhes o seu potencial e a possibilidade de escolherem qual o caminho que querem tomar para as suas vidas». A sua personagem, jornalista de uma revista feminina cuja equipa é composta quase na sua totalidade por homens, traz à série uma realidade muito atual, a da desigualdade de géneros no trabalho, e do machismo.

A atualidade da série

Podem distar cerca de 70 anos entre a altura em que a série se passa e a atualidade, mas as diferenças entre ambas as épocas não são tão evidentes quanto seria de esperar. «Acho que as pessoas ficam surpresas quando assistem a série, porque a primeira impressão que têm é que vão retroceder no tempo e, consequentemente, pensar ‘Nossa, nessa época era assim’. Mas depois começam a identificar-se e a aperceber-se de que costumam ver esta realidade no quotidiano. Muita coisa não mudou. Não desmerecendo o que foi conquistado, mas muita coisa não mudou», reflete Pathy Dejesus.

Esta ideia é subscrita por Maria Casadevall: «Obviamente não podemos desvalorizar todas as conquistas que já foram feitas. Vemos muitas mudanças, mas percebemos também que, mais de 60 anos depois, ainda temos de discutir algumas questões que já poderiam estar claras, ter evoluído». Deste modo, a Coisa Mais Linda serve como meio de consciencialização para a sociedade. «A série, na verdade, faz com que o espetador reflita sobre o contexto atual», completa Mel Lisboa.

A voz, atitude e discurso feminista da série, que se perpetua na conta de Instagram de Coisa Mais Linda, é também um traço que liga a série aos dias de hoje. «Consigo trazer essa Maria Luíza do começo da história para os dias de hoje. Acho que o que aconteceu no caso das mulheres brancas foi uma conquista de escolha e vejo cada vez mais mulheres a poderem escolher não ser a Maria Luíza do início [da Coisa Mais Linda]. Vejo também Marias Luízas no sentido de [as mulheres] estarem a tomar consciência dessa opressão de género e de classe», frisa Maria Casadevall.

 

 

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Coisa Mais Linda é conquistarmos nossos sonhos juntas.

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A Bossa Nova toca de fundo

Além do feminismo existe outro grande motivo para ver esta série: a música. Este drama de época traz para cena a Bossa Nova, que, na década de 50, se começava a afirmar, e é ao seu ritmo leve, doce e emocionante que se assiste a esta história inspiradora de superação. É este estilo de música que se reinventa no palco do clube que Maria Luíza decide criar no Rio de Janeiro, o Coisa Mais Linda.

«A Bossa Nova é uma forma de procurar uma nova identidade para a música. É a música a reinventar-se, é uma nova cultura. É esse direito de se expressar, de tocar uma música diferente, de ter uma identidade própria. E tem essa ligação com as personagens também», afirma Mel Lisboa. «Por isso acho que a Bossa Nova é um personagem da série, porque também se quer reinventar e criar um espaço para ela, criar uma nova linguagem», defende.

Apesar dos anos 50 serem uma época bastante revisitada pelo cinema e televisão, esta diferencia-se, de acordo com Maria Casadevall, pela perspetiva trazida por estas quatro personagens femininas. E é esta apenas uma das razões apontadas pelas atrizes para que o público, quer do género feminino como masculino, veja a Coisa Mais Linda.

«Esta não é uma série apenas para o público feminino, mas sim para o público no geral. Os homens não surgem aqui como antagonistas. Aquilo que vemos são forças de revolução contrastadas com outras forças opressoras, que não são necessariamente de género feminino ou masculino», sublinha Fernanda Vasconcellos. «A série está muito bonita: a fotografia é muito bonita, o guião é incrível e é uma série que chama a atenção pela época, pelas relações humanas, pelos conflitos, além de tocar na questão do que é ser mulher em 1950», conclui.

Depois disto, supomos que já tenha planos para esta noite.

P.S: O guarda-roupa está incrível.