A Realizadora da Nova Vaga Francesa Agnès Varda Morreu Com 90 Anos

Agnès Varda deixa-nos um último filme autobiográfico antes de partir. Por: Rossana Mendes Fonseca -- Imagens: © GTRESONLINE

Agnès Varda, realizadora da nova vaga (ou nouvelle vague) francesa, morreu esta madrugada, quinta-feira, 29 de março, aos 90 anos, depois de recentemente ter estreado um novo filme no festival de cinema de Berlim.

Nascida na Bélgica, Varda desenvolveu todo o seu trabalho em França. A sua carreira cinematográfica está ligada sobretudo à nova vaga francesa, mas os filmes de Agnès sobressaem pela sua estética única: a coexistência da ficção e do documentário, a presença de uma forte componente biográfica feminina, a errância das personagens e o aspeto formal dos planos parados, insistentes numa imagem só, que o seu background de fotógrafa terá formado.

Da nouvelle vague à «cinécriture»

A realizadora de «Duas Horas na Vida de uma Mulher/Cléo de 5 à 7» — um dos seus filmes mais emblemáticos de 1962 com Corinne Marchand — foi companheira do realizador Jacques Demy durante mais de 30 anos, até à sua morte em 1990. O realizador, um dos pioneiros da nova vaga francesa ao lado de Agnès Varda, foi sempre lembrado, ao longo dos anos, com grande afeto no cinema de Varda: de «Jacquot de Nantes», de 1991 — filme dedicado à infância de Demy —, a «Praias de Agnès», de 2008 — filme no qual as memórias da vida e obra da realizadora são re-ficcionadas. Esta caraterística mais autobiográfica continuará, quando, quase 10 anos mais tarde, volta ao grande ecrã, ao lado do artista de rua e fotógrafo, JR, para criarem «Olhares Lugares».

Ainda este ano, Agnès Varda levou, em fevereiro, à Berlinale, o seu derradeiro filme «Varda par Agnès», que na lógica da nouvelle vague nos remete para «J.L.G/J.L.G» (por extenso, Jean-Luc Godard por Jean-Luc Godard, o filme autobiográfico do realizador mais famoso deste movimento). A autora de «Les créateurs» de 1966, com Catherine Deneuve, «Sem eira nem beira/Sans toit ni loi» de 1985, com Sandrine Bonnaire, e «Respigadores e a Respigadora» de 2000, deixa-nos um filme autobiográfico, ainda a estrear nas salas portuguesas de cinema. O filme fala da sua carreira de realizadora e daquilo que apelida de «cinécriture/cinescrita», para que a possamos lembrar.