É Impossível Ficar Indiferente à Casa de Christian Louboutin em Lisboa

O designer de calçado, que se intitulou como um colecionador sentimental, abriu-nos as portas do seu lar. Por: ELLE Portugal Por: Soline Delos - Imagem: Nicolas Matheus

Na casa erguida no alto das colinas de Lisboa, o casario da cidade e o Tejo são a paisagem diária de Christian Louboutin que, com um só olhar, alcança ambos. Esta vista, tão bonita quanto tranquilizante, é uma das fontes de inspiração do mestre dos sapatos na criação das suas coleções. É nesta casa que nos recebe. Um edifício do século XIX com a fachada coberta de azulejos e composto por várias assoalhadas. Todas elas estão decoradas com uma infinidade de objetos, quadros e móveis descobertos por este viajante insaciável nos seus vários passeios pelos quatro cantos do mundo. Alguns, como as máscaras dos índios Hopi do Arizona, as cerâmicas italianas de Taranto, as peças de porcelana Wedgwood e um retrato de Louis de Beaveau foram recentemente apresentados numa exposição no Palais de la Porte Dorée, em Paris. Uma mostra que prestou homenagem ao universo Louboutin, um convite para mergulhar no imaginário fértil que preenche cada um dos refúgios que tem pelo mundo, seja em Luxor no Egipto, em Melides no Alentejo ou aqui em Lisboa.

«Tenho a doença da pedra», brinca Christian Louboutin, que trata as suas casas como se fosse um arqueólogo. «Oiço a alma do lugar, para preservar aquilo que existe e restaurar o que já existiu. Numa casa contemporânea, fazer uma remodelação total não tem problema, mas em casas com história isso não é possível», explica. Foi isso que aconteceu na sua casa lisboeta, comprada em conjunto com o sócio, Bruno Chambelland. Contratou os mais prestigiados artesãos para restaurar os tetos, vitrais e chão e voltou a dar à casa, que tinha sido subdividida e descaracterizada ao longo dos tempos, a sua nobreza original. Esta é, provavelmente, uma forma de se aproximar do seu sonho de infância de ser arquiteto.  «A vontade passou-me aos 12 anos, no dia em que ouvi a história de um edifício que ruiu e do seu arquiteto, que se suicidou. De um momento para o outro, percebi até que ponto era um trabalho sério, com responsabilidades imensas. Ser arquiteto implica ser 100% adulto, enquanto que, ao desenhar sapatos, posso continuar a ser criança!». De facto, em Christian Louboutin, a infância está sempre presente. Tanto no seu trabalho como no brilho permanente no olhar num rosto pelo qual o tempo parece não passar.

«Não me considero um colecionador daqueles que procuram freneticamente uma peça ou vendem as peças que têm, mas antes um acumulador», refere Christian Louboutin. Sentimental assumido, Louboutin fala de cada objeto, quadro ou móvel que tem em sua posse como «encontros felizes», explicando: «Amo-os como são, com os seus defeitos». Cada um conta uma história, como por exemplo o tapete colorido que comprou numa leiloeira, descobrindo depois que tinha pertencido ao Chatêau de Groussay, um local que tinha visitado previamente. Fala-nos ainda do lustre veneziano, de um azul leitoso – «uma cor única» –, cujo restauro confiou ao grande especialista do vidro veneziano, o seu amigo Marcantonio Brandolini, pedindo-lhe para não alterar em nada o design da peça. Relembra ainda o jantar na casa do galerista Pearl Lam, onde ficou extasiado com os castiçais do artista. Final da história: veio-se embora com eles.

 A sua linha de raciocínio é simples: «Nunca pensei: porque é que eu comprei isto?», acrescentando: «Só nos arrependemos daquilo que não compramos».