Há Uma Boa Razão Para Estarmos Sempre a Cancelar Planos

O «cortar-se» está a definir a nossa geração. Por: Eva Wiseman -- Imagens: © Imaxtree

Era uma tarde normal de junho que de repente se transformou numa caixa de Pandora de drama familiar. Um convite para o casamento de uma prima em segundo grau que tinha sido enviado para a minha mãe… De repente o sol de verão foi tapado por uma nuvem de tule branco.

Não só porque não guardei o convite, ou não apontei o dia na minha agenda, mas principalmente porque não queria ir. Não queria ter de comer canapés, não queria usar saltos altos, não queria ter que pensar no vestido e passar a noite a bocejar. Não era nada pessoal. Era mesmo muito universal. Aquela sensação que eu e todas as outras pessoas que acordam às seis da manhã e têm uma lista de séries da Netflix que não se vê sozinha, sentem a maioria dos fins de semana – o desejo de cancelar tudo.

«Geração do cancelamento»

Então, era junho e a minha mãe, como um anjo de pessoa, telefonou para o pai da minha prima. Claro que não ia ser eu a ligar – acha mesmo? Disse que a culpa era dela. Que não me tinha dado o convite, e por isso lamentava muito ligar no dia anterior, mas a Eva não poderia comparecer ao casamento. Houve um momento de pausa. Uma longa pausa. Eles já tinham tudo preparado, incluindo o catering. Será que ele estava à espera que eu pagasse a minha parte à mesma? A minha mãe ligou‐me assim que terminou a chamada. Quando ela me disse que eles tinham combinado eu entregar um cheque de 35 euros pelo prato vegetariano, tive que parar um momento para refletir. Trinta e cinco euros, tão simples. Colocar um preço no cancelamento de compromissos, esta pode ser a resposta para todos os nossos problemas. Tinha acabado de comprar o direito de não me sentir culpada. Dei‐me permissão a mim mesma para desfrutar daquele momento de alegria e pensei que deveria ser incluída uma opção extra a cada RSVP: sim, não, e “obrigada mas fica para a próxima, aqui estão 35 euros”.

Este é o momento do «cortar‐se». Graças à tecnologia que torna os encontros mais fluidos e flexíveis, à cultura moderna do estarmos sempre ocupados e a crescente ambiguidade das nossas amizades (especialmente os que nascem no universo online), o ato de cancelar planos está a definir a nossa geração. Um estudo realizado no Reino Unido, com 2000 entrevistados, concluiu que somos a «geração do cancelamento». Em média, cada pessoa faz 104 planos sociais por ano, mas cancela metade deles. “Não, quinta‐feira não dá”, diz um homem ao telefone, folheando a sua agenda nos famosos cartoons da revista The New Yorker. “Que tal nunca – nunca dá para si?”. Embora Bob Mankoff tenha feito esta ilustração em 1993, ela é presença regular no Instagram nos dias de hoje por ser tão atual. «Agora, a frase está firmemente enraizada na nossa cultura», diz Mankoff, «tanto que pode ser referida como se fosse um aforismo anónimo». Para a maioria de nós, o processo de desmarcação começa com boas intenções. Nós realmente queremos nos encontrar com o amigo com quem já não estamos há muito tempo. Quando dizemos sim é porque realmente acreditamos que é sim. E é bom dizer sim! Mas depois, inevitavelmente, algo acontece.

Sim, algo acontece, independentemente de ser a constatação de que, na condição de pessoa que gosta de agradar os outros, aceitou milhares de convites e vai a correr para o WhatsApp para cancelar uma festa de aniversário e uma ida ao cinema. Ou, nos momentos em que um compromisso de trabalho chega – um deadline, por exemplo – e este assume estatuto prioritário. Ou, à medida que o dia se aproxima e uma nuvem de ansiedade social se instala, e dá por si acordada a meio da noite a planear formas de não ter que comparecer – fazer conversa fiada numa sala cheia de gente? Mentir é preferível a esse cenário. Depois há o último tabu: preguiça. A hipótese de tomar um banho de imersão, arranjar o cabelo, passar duas horas nas redes sociais a beber vinho e acordar com uma ressaca do tamanho da Itália…

A tecnologia matou a noção de compromisso

A stylist Gemma Rose Breger e o jornalista Sam Silver do @ThisIsMothership publicaram uma imagem no Instagram que dizia: “Sempre vamos jantar hoje?” e depois: “Importa‐se se cancelarmos e re-agendarmos várias vezes até perdermos o contacto completamente?”. Dizem eles: «Prometemos muita coisa, com níveis de entusiasmo enormes, geralmente no dia anterior ao nosso imenso cansaço se instalar, mas quando se trata de ver o plano em vias de ser concretizado, uma em cada três vezes encontramos algum tipo de desculpa para cancelar». E quando são os outros a cancelar os planos? Há um momento de fúria, mas o alívio logo se segue. Estas são as etapas do cancelamento, dizem Breger e Silver. «Primeiro surge a ideia no nosso cérebro – tentamos esquecer mas ela continua a crescer. Imaginamos várias desculpas diferentes; esperamos para ver se a outra pessoa cancela primeiro, enviando uma mensagem do tipo “Está de pé o nosso almoço?”. Finalmente, a pequena chama transforma‐se num fogo que consome tudo; está a queimar e somos nós que temos que o apagar». Inevitavelmente, os amigos íntimos, os que mais adoramos, são os mais atingidos pelas nossas “tampas”. Porque sabemos que as pessoas que mais nos amam vão entender, acabamos por gastar mais tempo com amigos “menores”, que até nos intimidam. Os pais de Gemma e Sam falam‐lhes da altura em que se fazia planos para fazer uma chamada telefónica para alguém. Depois tinha‐se que andar até a uma cabine telefónica, sabendo que a outra pessoa estava à espera perto do telefone. «Marcavas um compromisso, cumprias e eras pontual», relembram. Agora, a tecnologia matou a noção de compromisso.

O “cortar‐se” tornou‐se inevitável, tomando conta das nossas mensagens de texto. Uma mulher escreveu para uma agony aunt, Heather Havrilesky, da New York Magazine, descrevendo‐se como “uma introvertida que enganou o mundo fingindo ser extrovertida, o que significa que tenho muitos amigos e estou assustada com a perspetiva de ter que manter tantas relações reais». O seu sonho seria «morar numa pequena cabana algures, focar‐me no meu trabalho e nunca mais receber uma mensagem a dizer “Um copo ASAP?”». Havrilesky percebe‐a. «Fazer planos hoje em dia, por vezes, é aquele part‐time que nunca quisemos ter», afirma. «Acho que estamos à procura de uma maneira de viver a vida de uma forma mais genuína e autêntica», acrescenta. Para fazer isso, é preciso aprender a dizer não sem sentir necessidade de se desculpar. Há uma maneira, segundo Havrilesky, de manter relacionamentos sem desenvolver sentimentos de culpa e também sem ter que sair todas as noites para jantares. Mas envolve aprender a partilhar com as pessoas aquilo que precisa. «Hoje, muitas pessoas queixam‐se de se sentir como se estivessem sempre numa passadeira rolante», afirma Abigael San, psicóloga, «quase como se tivessem que ser e fazer tudo sem nunca parar. Isso significa que vão falhar nalguma coisa». E conduz aos montes de planos cancelados espalhados em caixas por todos os cantos da nossa vida.

Assumir o «cortar-se»

As relações digitais tornaram‐se a norma; então, a vida real provoca ansiedade», acrescenta San. «O instinto é remover a causa. E há um reforço negativo: o cancelamento traz uma sensação de alívio». No entanto, há uma maneira de cancelar de forma correta. Precisamos, enfatiza San, de sermos honestos sobre o porquê de estarmos a desmarcar. «A honestidade pode parecer ser a pior opção, mas a longo prazo pode ter um melhor impacto porque não há espaço para a outra pessoa preencher as lacunas». Esta ideia até me faz tremer um pouco. «Ana, desculpa‐me, mas não quero ir no sábado porque preciso de pelo menos duas horas para conversar com o meu namorado sobre o nosso futuro. Mariana, podemos falar por Snapchat em vez de ir ao café? Ficas um pouco chata depois de duas bebidas e não tenho paciência neste momento». Talvez, a psicóloga sugere, a ascensão do cancelamento possa ser algo positivo. Embora anteriormente nos tivéssemos arrastado para compromissos que não queríamos, hoje somos capazes de nos manifestarmos. O que significa cancelar os nossos compromissos. «Será este um sinal de que estamos a encontrar as nossas vozes e a lutar por aquilo que queremos?», questiona San, mesmo que seja algo tão simples como passar algum tempo sozinha ou dormir. «Será isto um sinal que as pessoas estão a validar os seus próprios direitos?».

Será que esta é a grande verdade secreta desta geração do cancelamento? Uma tempestade perfeita de tecnologia e ansiedade conduziu‐nos a este momento, quando temos a facilidade de cancelar encontros que não nos enriquecem ou não nos fazem felizes. Se formos honestos sobre o que queremos e quando o queremos, ninguém se magoa. Na verdade, é essa honestidade que nos permite sermos mais abertos, vulneráveis até. E capazes de assumir que um bar lotado ou em um casamento cerimonioso não nos faz felizes. Será que o “cortar‐se” pode ser aquilo que nos salva?

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de abril de 2019.