Milhares De Mulheres Indianas Retiram O Útero Para Não Deixarem De Trabalhar

Estas cirurgias são levadas a cabo em casos simples, nos quais a medicação seria a solução. Por: Inês Aparício -- Imagens: © D. R.

O modo como as mulheres são vistas quando estão menstruadas tem evoluído ao longo do tempo, mas, em alguns países, nomeadamente orientais, estas são ainda consideradas impuras ou portadoras de azar. A Índia é um destes exemplos. Neste país, a menstruação é encarada de forma preconceituosa e, de acordo com relatos recentes avançados pela BBC, milhares de mulheres têm sido sujeitas, nos últimos três anos, a procedimentos cirúrgicos de remoção do útero, de maneira a deixarem de ter o período e, consequentemente, não serem impossibilitadas de trabalhar.

De acordo com a estação britânica, a maioria das jovens indianas que se submete a estas cirurgias fá-lo com a intenção de se juntar às colheitas de cana-de-açúcar, para onde, todos os anos, centenas de famílias dos distritos de Beed, Osmanabad, Sangli e Solapur emigram para trabalharem durante seis meses. Estas mulheres vêm de origens pobres e não têm qualquer formação, pelo que não sabem das implicações irreversíveis desta intervenção na sua saúde.

Alguns ativistas que exercem na região, designada por «faixa do açúcar», revelaram que vários médicos encorajam as trabalhadoras a retirar o útero (a operação chama-se histerectomia), «mesmo em problemas ginecológicos simples que conseguiriam ser resolvidos apenas com medicação». Estes poderão ser causados pelas condições precárias verificadas nos locais de trabalho, onde não existem casas de banho, as famílias vivem em cabanas ou tendas próximas dos campos e o corte de cana-de-açúcar não tem um horário estabelecido, sendo possível faze-lo de noite.

Mais de 4 mil histerectomias em três anos

No mês passado, depois do deputado Neelam Gorhe ter levantado esta questão na assembleia nacional, o ministro da saúde de Maharashtra, Eknath Shinde, admitiu que foram registadas, desde 2016, 4605 histerectomias apenas no distrito de Beed. Além disso, frisou que os procedimentos cirúrgicos não foram apenas levados a cabo apenas em mulheres que trabalham no corte da cana-de-açúcar. Contudo, o ministro regional garantiu que foi criado um comité para investigar estes casos.

Prajakta Dhulap, jornalista da BBC, visitou a aldeia de Vanjarwadi, em Beed, e constatou que metade das indianas que aí vivem fez uma cirurgia para remover o útero. Segundo esta, as mulheres têm todas menos de 40 anos, existindo algumas com idades na casa dos 20.

Em conversa com algumas delas, percebeu que a sua saúde se deteriorara desde as histerectomias. Enquanto que uma revelou ter «uma dor persistente nas costas, pescoço e joelhos» e que acorda todas as manhãs com «as mãos, rosto e pés inchados», outra contou que sofre de «contantes tonturas» e que passou a ter «dificuldades a caminhar, mesmo em curtas distâncias». Deste modo, ambas as jovens tiveram de abandonar o trabalho nos campos.

Desigualdades de género na Índia

Apesar de existirem mulheres que passam por estes procedimentos cirúrgicos para poderem se poderem juntar às colheitas da cana-de-açúcar, existe ainda uma relutância por parte dos proprietários destes campos em contratar mulheres, alegando que este é um trabalho difícil para estas e que teriam de se ausentar num ou dois dias devido à menstruação. Esta é uma das provas das desigualdades de género que são verificadas no país, no qual a presença do sexo feminino no mercado laboral diminuiu de 36%, em 2005-2006, para 25,8%, em 2015-1016.