Não Morriam Tantas Mulheres Portuguesas Durante a Gravidez e o Parto Desde 1991

Portugal é dos países da Europa com a taxa de mortalidade materna mais elevada. Por: Inês Aparício -- Imagens: © D. R.

Os últimos dados relativamente à taxa de mortalidade materna, que datam de 2017 e foram agora revelados, mostram que Portugal é o quarto país da Europa com o valor mais elevado. De acordo com os números divulgados pelo Jornal de Notícias, morreram, durante esse ano, nove mulheres durante a gravidez, parto ou pós-parto, em 86.154 nascimentos (o equivalente a mais de 10 óbitos por 100 mil nascimentos, o valor referência). Estas estatísticas colocam o país atrás da Estónia, Hungria e Letónia, num resultado que não era tão alto desde 1991, quando se registaram 12 mortes de mulheres por cada 100 mil nascimentos.

A Direção-Geral de Saúde garante que irá analisar os dados com detalhe, mas adianta, desde já, que este aumento poderá estar relacionado com a idade avançada das grávidas. Segundo esta instituição, apesar de, entre 2014 e 2017, apenas 30% das mães terem 35 anos ou mais, foram as mulheres neste intervalo etário que representaram 60% das mortes maternas.

«A idade mais elevada da mãe, a patologia subjacente que lhe está associada, como por exemplo a hipertensão arterial, os antecedentes obstrétricos, podem aumentar a possibilidade de morte materna», explicou a DGS ao Jornal de Notícias. Este argumento foi corroborado pelo presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal.

Números deixam especialistas preocupados

Estes dados são, de acordo com o presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, João Bernardes, alarmantes. «É assustador termos a quarta pior taxa da UE. É preocupante», frisou em declarações ao JN. «Desde 2013 que [a taxa] está a subir ao nível de uma morte por ano. Nove mulheres é uma subida importante e significativa», adicionou.

Também o diretor do serviço de Ginecologia do Hospital de São João, no Porto, admitiu que «é preciso analisar a dez anos e perceber quais são as causas. Estudar caso a caso e saber o que se passou».

Já o presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, Luís Graça, admitiu, em entrevista à TSF, que não é caso para dramatizar. Contudo, esta situação deve ser estudada. «Isto pode significar apenas um aumento pontual e não propriamente uma tendência. O mais importante neste momento é tentar perceber quais são as causas adjacentes», declarou.

Evolução ao longo do tempo

Desde 1991, marca da maior taxa de mortalidade materna, que os números foram diminuindo até 2000, ano em que atingiu o seu valor mais baixo das últimas três décadas. Nesse ano foram registados entre dois e três óbitos por cada cem mil bebés nascidos vivos. A partir daí, a taxa tem aumentado progressivamente, com algumas quebras em 2005, 2007 e 2011.

O Expresso notou que um relatório de 2015, elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Unicef, Fundo das Nações Unidas para a População e Grupo do Banco Mundial, mostrava que a mortalidade materna havia diminuido 41,2% em 25 anos. Na altura, Portugal ocupava a 35ª posição numa lista de 183 países, na qual era analisada a evolução da mortalidade materna entre 1990 e 2015.