Numa Era Onde Autodeterminar o Género É Possível, O que Significa ser Mulher

No dia da mulher, damos espaço a um ideal fluido e ouvimos outras vozes femininas. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagem: © Imaxtree.

Munroe Bergford: o nome é-lhe familiar? Modelo inglesa, ativista e editora LGBTQ+ da plataforma de beleza da Dazed and Confused. Em 2018, Bergford participou num documentário do canal Channel 4 com o nome What Makes a Woman? (o que faz uma mulher, em português) falando da sua cirurgia de feminização facial – como mulher trans, este era um dos passos mais importantes para se sentir bem na sua pele.

No início deste ano, a editora recorreu ao seu perfil no Instagram para partilhar uma reflexão com os seus mais de 110 mil seguidores: «Temos de parar de usar a expressão ‘mulher real’… Por oposição a quê? Uma de ficção? Este é o tipo de linguagem que não só funciona contra as pessoas trans, como também nos faz regredir para uma noção antiquada de que ser mulher só é válido se se encaixar num critério. A feminilidade não são as tuas mamas ou o teu tamanho. Não é a tua vagina, ou o útero, ou se podes gerar um filho. Não é o teu ciclo menstrual. Não é o teu vestido ou as calças que escolhes usar. Não é o tom da tua voz e não é o teu gosto musical ou filmes. A feminilidade é aquilo que tu dizes ser e quem tu dizes ser. Por isso, quando dizemos ‘mulher real’, o que é que realmente queremos dizer?». E será possível definir se uma pessoa é mulher o suficiente?

Voltando a um conceito mais primário, se pensarmos no binómio dominantes/dominados, o homem é sempre apresentado como dominante e a mulher como dominada. «A mulher é muito invisível. A própria sexualidade da mulher é muito invisível», afirma Sara Malcato, psicóloga clínica e coordenadora do Serviço de Apoio Psicológico da ILGA Portugal. «Quando vemos na rua duas mulheres de mãos dadas, nós nem sequer assumimos que elas possam ser namoradas. Automaticamente pensamos que são amigas ou irmãs. Duas mulheres que moram juntas, são colegas de casa. Nunca nos passa pela cabeça que aquelas mulheres são seres sexuais, e que têm relações afetivas e que vivem toda a sua sexualidade. Porque, lá está, as mulheres são muito invisíveis», explica.

Se analisarmos as reações a manifestações feministas, independentemente da sua escala e da exposição mediática que têm, há sempre vozes contra. Porquê? Porque «há toda uma tentativa de calar as vozes das mulheres feministas porque elas vêm de facto contrariar uma misoginia latente», refere Malcato. E se a reação ao facto das mulheres quererem ser tratadas como iguais é tão adversa, conseguem imaginar qual é a recepção às minorias dentro do género feminino?

Esta sou eu

Mulheres trans, o outro do outro. Anos de dúvidas, incertezas, muita tristeza e solidão. Numa primeira fase pelo medo de partilhar, de mostrarem ao mundo quem realmente são e enfrentarem reprovação. Numa segunda fase, já depois da aceitação, todos os processos de transição são únicos. Não se trata de não haver partilha porque é no conforto da aceitação e normalização que devemos viver, mas não há experiências iguais porque não há pessoas iguais.

Processos burocráticos longos, que se revelam penosos tanto a nível financeiro, como emocional e físico, foram um pouco atenuados desde agosto de 2018 com a lei da autodeterminação a declarar que já não é necessária a apresentação de um atestado médico para autorizar a mudança de nome e género no registo civil. Segundo dados do Ministério da Justiça, desde 2011 até junho 2018, 255 mulheres mudaram o seu nome e género no cartão de cidadão.

Daniela Bento, de 32 anos, mais conhecida por Dani, foi uma delas. A sua história não é típica: não teve aquela consciência de estar a viver no corpo errado desde nova. O seu percurso de vida é de autodescoberta e de evolução enquanto ser humano. Engenheira de software de profissão, tem muito presente quando perdeu o seu privilégio masculino: «Quando comecei a ser lida socialmente enquanto mulher, deixei de trabalhar porque me deixaram de falar sobre temas técnicos e passaram a falar sobre maquilhagem. Perdi as chefias de equipas. Nas oficinas começaram a tratar-me como burra porque deixei de perceber sobre carros e eu até gosto de carros. Em muitas esferas sociais comecei a ter um tratamento diferente. Comecei a sofrer assédio que era algo que não acontecia», lembra Dani.

Como é que se consegue lidar com esta mudança? «Ao princípio é assustador porque, basicamente, é teres consciência de uma coisa que para a mulher cisgénero acontece desde sempre. Para mulheres trans é diferente no sentido em que depois de passarmos por esta mudança, vivemos uma dupla opressão: o facto de sermos trans e não sermos consideradas verdadeiramente mulheres e o facto de sermos lidas como mulheres e sentirmos a opressão de sermos mulheres», conta a engenheira.

A forma como são percecionadas pelos outros é muito importante para as mulheres trans, no sentido em que a sua aparência exterior é o passa-palavra da sua condição de mulher. A imagem pode ser um problema importante na construção do sentido do ser. «Lembro-me claramente de ter dito isto: senti-me mulher pela primeira vez que cheguei à rua e senti uma enorme violência por todo lado. Foi mesmo aí a constatação de que sou mulher. Eu percebi que era lida como mulher pela sociedade porque comecei a sentir uma violência que não enfrentava, ou que não sentia da mesma forma quando era lida socialmente como um ser masculino», partilha Dani.

Identidade fluida

Mas nem tudo tem de ser binário. Héloïse Letissier, cantora conhecida como Christine and the Queens e que encurtou recentemente o seu nome/alter ego para Chris foi questionada pela BBC News, em setembro de 2018, sobre a sua aparência mais masculina. «Sou uma mulher, mas decidi desconstruir a definição do que é ser uma mulher. Eu, na condição de jovem mulher, senti-me asfixiada pelos limites impostos à definição do que é ser mulher. Digo que sou fluida porque acredito que a minha feminilidade é feita de insinuações masculinas, de dúvidas e hesitação. Não tenho assim tanta certeza do que é ser mulher», disse.

Também Dani Bento, apesar de fisicamente continuar a identificar-se com o corpo feminino, admite que já vê «o género como algo que é um sistema de opção social. O género e o sexo. Não acredito nessas opções e quero combatê-las. Por isso mesmo, trabalho para desconstruir esse sistema. O género e o sexo não deviam influenciar em nada a situação das pessoas», acredita.

Falamos do não-binarismo, «que nos vem dizer que o espectro da identidade é fluido. Fluido significa que não existem [só] duas opções – homem e mulher – existe um vasto espectro e dentro dele a pessoa pode localizar-se onde quiser. Sendo que um pólo é o masculino e o outro é feminino, as pessoas podem localizar-se onde quiserem. (…)Pessoas que, por exemplo, não querem fazer a cirurgia porque encaram o corpo como uma tela em branco onde podem projetar a sua forma de identidade. A ambiguidade é a sua binariedade e o ser ambíguo é a sua identidade», explica a psicóloga Sara Malcato. Em termos legais, esta situação é complexa, dado que em Portugal o género neutro não é reconhecido como uma terceira opção, como já acontece na Alemanha e outros países.

Meu corpo, minhas regras

A questão do terceiro género foi levantada quando também na lei da autodeterminação foi declarado o fim de tratamentos e intervenções cirúrgicas com fins meramente estéticos a pessoas menores de idade que tivessem nascido com características biológicas femininas e masculinas (intersexo), sendo definido que estes só podem ser realizados depois da manifestação da identidade de género.

Enquadrando a questão, sabia que a percentagem de pessoas intersexo – 1,7% – é, segundo estatísticas das Nações Unidas, igual à de pessoas ruivas? Ou seja, a probabilidade de conhecer (ou vir a conhecer) alguém com cabelo ruivo é igual à probabilidade de conhecer (ou vir a conhecer) alguém intersexo. No entanto, a probabilidade de não o saber (nem nunca o vir a saber) é ainda mais elevada.

«A nossa necessidade de colocar as pessoas dentro de caixas é gigante. E de facto as caixinhas existem porque é a nossa forma de organizar o mundo. Existem categorias e elas permitem-nos organizar a realidade. E depois quando nos deparamos com pessoas que não têm lugar na nossa caixinha, queremos forçá-las a entrar. Portanto, se fica com um braço de fora, cortamos o braço porque ela tem que entrar», explica a psicóloga.

A modelo belga Hanne Gaby Odielle, intersexual assumida, concorda. Numa entrevista à ELLE Brasil em 2017, a musa de Alexander Wang afirmou que «não podemos colocar pessoas em caixas, com as etiquetas homem e mulher. Essas cirurgias tentam fazer essa distinção, mas não funciona. Desde que seja saudável, o que é que precisa de ser corrigido? A vida tem muitos espectros». Não só a vida, o conceito de mulher também tem uma definição fluida.

Os rótulos e as funções de cuidadora, de gerar vida no ventre que nós atribuíamos ao sexo feminino foram, desde sempre, os principais argumentos utilizados para definir uma pessoa como mulher. Quando desprovida desses elementos, a sociedade retrai-se. No entanto, como Marta Ramos, diretora executiva da ILGA afirma: «Hoje em dia sei que não é o meu corpo que me define nem é a minha expressão de género que me define. Eu sinto-me mulher. Eu sei que sou mulher e felizmente vivo num país e numa sociedade em que tenho voz, se bem que eu tenha que, em muitos contextos, gritar para ser ouvida, mas posso tê-la e posso exigi-la e isso para mim é que é ser mulher. Saber que temos o direito de sermos quem somos, independentemente dos nossos corpos e da nossa expressão de género».

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de março de 2019.