BFC Alerta O Governo Para As Consequências De Um Brexit Sem Acordo Na Moda

As preocupações do British Fashion Council prendem-se essencialmente com o comércio e os próprios criadores. Por: Inês Aparício -- Imagens: © Imaxtree.

A uma semana do início da Semana de Moda de Londres, o British Fashion Council (BFC) emitiu um comunicado no qual frisa o impacto negativo de uma saída da União Europeia sem acordo, tal como é possível que aconteça dadas as intenções do atual primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson. Deste modo, a organização urge o governo britânico a evitar que tal cenário aconteça, sublinhando as prováveis consequências de um Brexit sem acordo na indústria da Moda, das quais faz parte um custo estimado de £850 (cerca de €935) a £900 milhões (cerca de €990 milhões), proveniente de uma mudança para a regulamentação da Organização Mundial do Comércio.

«Enquanto indústria que vale £32 mil milhões ao Reino Unido e emprega mais de 890 mil pessoas – quase tantas quanto o setor financeiro -, insistimos para que o governo procure um acordo com a União Europeia que garanta um crescimento saudável e estável da indústria da Moda, além de conceder acesso a um financiamento que assegure que as marcas dos designers britânicos se mantenham competitivas a nível internacional, através de acordos comerciais, livre circulação e apoio à promoção», pode ler-se na nota publicada no site do BFC.

Este documento é fruto de um seminário realizado especificamente para abordar questões relacionadas com o futuro dos designers ingleses, de maneira a que estes estejam preparados para uma saída da UE sem acordo. Neste, foram identificados os riscos e os desafios para as marcas dos criadores, assim como assegurada a adaptação às regras da OMC no caso não ser conseguida nenhuma resolução até 31 de outubro, data apontada por Johnson para a conclusão do Brexit.

Preocupações ao nível do comércio

Cada peça de roupa é produzida, muitas vezes, em diversos pontos do globo, quer seja pelo fator preço (sendo os países asiáticos destinos de eleição, devido aos reduzidos custos de, por exemplo, mão de obra) ou especialização (o setor de luxo vive essencialmente de produtos com a etiqueta «Made in Italy»). Assim, o British Fashion Council mostrou as suas preocupações relativas às taxas praticadas nas fronteiras, que terão, não só um grande impacto em novas marcas e criadores mais jovens com orçamentos reduzidos, como no próprio aumento dos preços dos produtos, caso não seja conseguido um acordo para a saída do Reino Unido da UE.

Além disso, a organização frisou a impossibilidade de aguardar 24 horas para o envio das peças, como é solicitado pelo HM Revenue & Customs. «Para competir internacionalmente, os produtos têm de ser expedidos de forma imediata», declarou o BFC, lembrando mais uma vez o forte impacto desta situação em marcas pequenas.

Receios relacionados com os próprios criativos

Tal como a edição britânica da Elle nota, o Reino Unido tem uma longa história de apoio a novos talentos, tendo colocado sob os holofotes os nomes de Alexander McQueen, Stella McCartney, Simone Rocha ou Christopher Kane. Contudo, este trabalho será dificultado, dadas as questões relacionadas com o aumento das taxas alfandegárias e as incertezas associadas à imigração.

De modo a contrariá-lo, o British Fashion Council tem trabalhado com o Ministério do Interior para lidar com matérias relativas à imigração, levando a uma nova legislação que poderá ajudar a enviar jovens criadores e modelos para o Reino Unido.

Ainda assim, a organização salienta que «estas mudanças e as propostas de alterações no sistema de imigração não irão cobrir trabalhadores especializados e mal pagos, desde mecânicos a linguistas, tornando as lacunas nas aptidões da indústria numa preocupação».