O Que Trouxe A Conversa Sobre Astrologia Novamente Para Cima Da Mesa

Tentamos explicar o crescente número de adeptos da Astrologia. Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: Imaxtree.

Basta-nos abrir o Instagram para, automaticamente, sermos bombardeados por uma dezena de publicações (tanto no feed como nas stories) sobre como Mercúrio retrógrado vai afetar a nossa vida desta vez, como os movimentos lunares estão a mexer com o nosso estado emocional, ou qual vai ser o impacto que o próximo eclipse solar terá em cada um dos signos do zodíaco. A quantidade de posts feitos sobre a temática é de tal forma imensa que se tornou praticamente impossível evitar tudo isto. Graças a isso, até a sua amiga mais descrente de todas, ou a que está sempre com a cabeça no ar e só abre as redes sociais uma vez por semana, sabe sempre quando alguma coisa está a mexer-se no Espaço – graças às sirenes de perigo que vão sendo publicadas no universo digital como se de uma bomba radioativa se tratasse.

Atenção, não nos entenda mal, não estamos a tentar criticar tudo isso (aliás, basta abrir o nosso site, o nosso Instagram, ou até mesmo esta revista, para perceber que este tema para nós é #vida), a única coisa que estamos a tentar fazer é reconhecer o que diariamente nos é esfregado na cara tão repetidamente quanto os números de telefone de valor acrescentado das televisões: a Astrologia está em alta. Ela é o Millennial Pink em 2017. Ela é a miúda mais popular da escola. Ela é a Beyoncé (talvez nem tanto, mas entendeu). Mas como e porquê é que tudo isto aconteceu, agora?

Não queremos avançar e responder a estas questões sem antes deixar claro aquilo em que consiste esta pseudociência. Para isso, contamos com a ajuda da astróloga residente do espaço Cabana do Sol (em Lisboa), Carina Pinheiro, que nos explica que «a astrologia é uma ferramenta de autoconhecimento. Basicamente, ela é a nossa impressão digital no mundo (…) ela consegue definir a forma como tu és, a maneira como pensas, como te comportas, como te relacionas, e ainda nos indica alguns dos pontos em que tens mais dificuldades na vida, e outros em que fluis com mais facilidade. Ela consegue ainda contar-nos o que é que tu vieste aqui fazer, e o que é mais compatível contigo em termos profissionais.» (Sim, tudo isto parece incrível, e de facto é).

Magnetismo astrológico

Muito provavelmente, neste momento, quer ir já a correr/ imediatamente/neste instante/mesmo agora, fazer o seu mapa. E nós percebemos isso. Afinal, a possibilidade de ter acesso a toda esta informação sobre nós é bastante sedutora. Aliás, é provavelmente uma das principais razões pelas quais tantas pessoas se apaixonam pela Astrologia. No caso de Beatriz Teixeira foi assim: «A minha irmã gémea sempre se interessou por Astrologia e investigou muito sobre o tema online. Quando estava na faculdade, começou a fazer mapas astrais para as amigas e eu comecei a interessar-me depois de ela me mostrar o nosso.»

Após ter provado um pouco do sumo que podia tirar deste doce fruto, Beatriz nunca mais o largou: «Sinto uma necessidade gigante de encontrar significados para tudo na vida (chega a ser cansativo e posso culpar o meu ascendente em Caranguejo) e a astrologia surge, muitas vezes, como esse significado/resposta para diversas coisas. É quase impossível para mim não pensar imediatamente ‘de que signo serás tu?’ quando conheço alguém.»

Foi esta capacidade que tem de nos ajudar a compreender melhor as pessoas também o que atraiu Patrícia Domingues a este bonito departamento que tem o teto pintado em tons de azul-escuro e luzes LED aplicadas que nos fazem lembrar estrelas: «Sempre gostei de saber muito sobre as pessoas e a Astrologia é mais uma forma de lá chegar (…) A partir do momento em que percebi os potenciais de (auto)conhecimento da Astrologia, comecei a interessar-me mais e mais.» Este gosto evoluiu e hoje a Astrologia faz parte integral da sua vida: «A primeira coisa que faço quando acordo é ir ler o meu relatório da Co-Star (aplicação de Astrologia). Também é das primeiras coisas que quero saber sobre alguém, aquela pergunta nada assustadora que fazes quando conheces alguém: ‘Qual o dia, a hora e o local em que nasceste?’» Nós compreendemos-te, Patrícia, nós compreendemos-te…

Vibrações planetárias

Ainda que a Astrologia seja uma excelente ferramenta para nos conhecermos a nós mesmos, grande parte das pessoas vê nela mais uma forma de responder a questões não só ligadas ao nosso presente e ao nosso passado, mas também ao nosso futuro. Aliás, arriscamo-nos mesmo a dizer que, em grande parte dos casos, é esta possibilidade de nos falar sobre o que está para vir que atrai as pessoas para este universo que vibra com os movimentos planetários. Afinal de contas, todos temos perguntas, mas nem sempre as respostas…

Para Rita Barroso, uma curiosa pelo tema que gosta de estar sempre informada sobre os astros e as implicações que poderão ter na sua vida, a Astrologia acabou por se tornar uma ferramenta de auxílio na hora de tomar decisões. «Recorro à Astrologia quando sinto que tenho situações pendentes na minha vida ou quando, de certa forma, procuro respostas», focando-se «nas previsões, nos esclarecimentos e nas interpretações desses mesmos movimentos no meu caso particular».

Assim como ela, também Ana Matos procura informações sobre trânsitos que possam auxiliá-la: «Quando me deparo com alguma dificuldade, procuro ajuda na Astrologia (…) Confesso que estou muitas vezes atenta a isso e, apesar de ainda não ter entendido algumas coisas (…), acho fascinante a influência que os planetas (e não só) têm sobre nós.»

O auxílio que a Astrologia nos dá é também mencionado pela astróloga Carina Pinheiro, que a indica como um dos principais motivos pelo qual é procurada nas suas consultas: «As pessoas chegam a uma fase da vida em que olham para si e dizem ‘eu não sei bem o que é que hei de fazer. Tenho decisões para tomar e não sei por onde começar, tenho a vida virada do avesso e não sei como dar a volta’ (…) e então olham para a Astrologia como um ‘arranja-me uma reposta para a minha vida. Uma solução. O que é que os planetas dizem sobre o meu caminho, o meu rumo.’»

A supernova

Tudo o que foi dito até agora, quer fosse de melhor ou pior forma, já era, há séculos, do conhecimento geral de grande parte da população. Perdão, séculos não, milénios (uma vez que se acredita que os sumérios, em 4000 a.C., já recorriam à Astrologia), tendo influenciado cientistas e até mesmo designers como Christian Dior. Portanto, se já tudo era mais ou menos sabido, porque é que só agora as pessoas voltaram a dar-lhe importância?

A resposta à questão parece recair sobre dois principais fatores: primeiro, redes sociais (aka Instagram), onde toda esta informação é disseminada ao expoente máximo; e segundo, um despertar (de nós, seres humanos) para uma nova consciência que dita que somos mais do que robôs. «Grande parte do interesse recente pela Astrologia está relacionada com um interesse generalizado por nós mesmos. Não no sentido egocêntrico e egoísta, mas no de estarmos a começar a prestar verdadeira atenção ao nosso interior (ainda que não tanta como ao exterior), procurando informarmo-nos sobre nós mesmos ao invés de apenas funcionarmos (…) Isto tudo e ter-se percebido o potencial de memes da Astrologia no Instagram, claro», partilha Patrícia Domingues.

Assim como ela, também Ana Matos indica esta busca pelo nosso verdadeiro ‘eu’ como uma das principais razões, indo, no entanto, um pouco mais longe: «Eu acredito que estamos numa nova era. Numa era do despertar da consciência. Já começou há alguns anos, mas só agora começamos a manifestar-nos e, de certa forma, a quebrar o tabu. É quase como se as pessoas tivessem começado a questionar e a ganhar consciência daquilo que somos e, dessa forma, tal como eu, procuram respostas no que outrora foi chamado ‘mundo oculto/místico’. Acho que, daqui em diante, Astrologia, espiritualidade, energia, vão ser palavras cada vez mais frequentes no nosso dia a dia.»

Ambas as opiniões são corroboradas pela nossa astróloga de serviço, que nos conta ainda como os planetas explicam este regresso às luzes da ribalta: «Neste momento, atravessamos uma fase planetária em que os trânsitos presentes são muito fortes. Vamos ter agora, no final do ano, um trânsito muito marcante que é a conjunção de Plutão e Saturno no signo de Capricórnio. E o que é que isto faz? Plutão quer restruturar as sociedades (…), então ele vai chegar, e tudo que está podre, ou não faz sentido em termos sociais, ele vai colocar à tona. Saturno quer uma nova estrutura social sólida, afetando por isso de forma geral o mundo inteiro. Então, tudo isto vai fazer com que as pessoas procurem uma nova forma de se curarem, de irem à procura de algo, porque o trânsito é realmente muito pesado e forte. Porque é transformar e reestruturar. É morrer e renascer (…) mas não é só. A era de Aquário (em que entrámos há cerca de dois anos) trouxe-nos uma abertura para estas pseudociências alternativas. Aquário pede ‘o novo’. O antigo é importante, mas precisamos de coisas novas, precisamos de respirar coisas novas, o antigo por si só já não está a funcionar. Então, a partir do momento em que entras na era de Aquário com toda esta restruturação social, as pessoas abrem-se para as “novas” terapias.» E nós recebemo-las de braços abertos.

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição de outubro da revista Elle.