Porque Temos Tanta Curiosidade Sobre o Que Dizem As Cartas de Tarot

Refletimos sobre o sentimento de descrença e desafiamos o conceito de coincidência. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagens:

No preciso momento em que estou a escrever este texto, passa na televisão Ghost: O Espírito do Amor. Sim, aquele filme em que Patrick Swayze e Demi Moore
fazem olaria ao som de Unchained Melody. Numa cena, a médium interpretada por Whoopi Goldberg pergunta à sua cliente antes de iniciar uma sessão de contacto com o mundo dos mortos: «Sabe, Sra. Santiago, sobre o além nunca se sabe. Tem de acreditar, Sra. Santiago. É crente?» A resposta da senhora é afirmativa, sem qualquer tipo de hesitação.

Desde já, assumo que não partilho totalmente as mesmas crenças da Sra. Santiago. Não porque tenha algo contra, mas porque nunca pensei muito sobre o assunto. Não é algo que pertença à minha realidade. As conversas mais espirituais que tive com os meus pais enquanto crescia foram sobre religião – a minha mãe é devota e praticante e o meu pai foge a sete pés quando o tema aparece. A única ligação que mantenho com o universo espiritual resume-se à utilização do horóscopo como um meio de autovalidação. Algo do género: «Continuo solteira enquanto toda a gente com quem andei na escola já está casada porque o horóscopo diz que hoje é um dia mau para os nativos do signo Leão se apaixonarem». Tudo o que sei sobre Tarot ou Astrologia é por conversas com amigos e posso dizer que o meu conhecimento não é proporcional à quantidade de conversas que já presenciei sobre o tema.

Todos querem saber o que dizem os Astros

É claro o interesse crescente pelo esotérico. Segundo o jornal britânico The Telegraph, 13 milhões de italianos procuram, todos os anos, tarólogos e videntes depois do período de crise económica intensa que passaram. A empresa de jogos de Tarot Us Games Systems anunciou um crescimento de 30% nas vendas em toda a indústria em 2017. A quantidade de livros sobre Tarot ou obras ficcionais inspiradas neste universo aumentou de ano para ano, e até a indústria da moda deu o seu selo de aprovação; exemplo disso é a coleção Resort da Christian Dior em 2018, onde Maria Grazia Chiuri foi buscar inspiração às cartas de Tarot Motherpiece de Vicki Noble e Karen Vogel.

Nas cartas estava escrito Paris

Para mim, o meu ritual de iniciação aconteceu no início de 2017. No meio de uma daquelas conversas de amigos sobre tudo e nada, alguém partilhou que tinha ido a uma taróloga. Entre risos e perguntas pertinentes, um amigo decidiu ir também a uma leitura e eu decidi juntar-me a ele. Não se passava nada de particularmente entusiasmante na minha vida: o meu emprego não era de sonho, mas estava bem e também estava solteira, é um facto, mas isso não era problemático, na maioria dos dias.

Ainda traumatizados pelos jogos dos copos que jogávamos nos balneários do ginásio antigo no colégio, decidimos ir juntos. Mesmo sendo quase por desporto, as borboletas no estômago estavam bravas no dia. Quando entrei no espaço do tarólogo, o ambiente era bastante similar ao que tinha imaginado (com a exceção de ser um homem a fazer a leitura): escuro, com muitos santos e ligeiramente intimidante. Primeiro foi o meu amigo e depois entrei eu. Recordo-me de que a leitura foi dividida em duas fases. A primeira pareceu-me ser mais de contexto, quase como se fosse um momento de apresentação da minha vida, com avaliação do boletim de saúde e tudo. Algumas coisas bateram certo, outras não. Depois seguiu a parte das perguntas, onde poderia fazer questões específicas. Sendo o mais previsível possível, fiz apenas duas: sobre amor e sobre a minha profissão. Não é que estivesse mal com o meu emprego na altura; aliás, eu gostava muito do meu emprego e gostava ainda mais das pessoas com quem trabalhava, só que não sou uma pessoa original. «Dentro de pouco tempo, vais voltar a trabalhar em Paris», disse-me, ao que respondi que isso era impossível. Até àquela data só tinha estado na capital francesa uma vez, aos 12 anos, numas férias em família. Ele voltou a confirmar e disse que eu iria voltar para Paris ou que algo ligado a França ia acontecer. Depois de sair, tentei estabelecer uma relação e procurar uma referência, mas não consegui, por isso pus essa informação de lado.

O Tarot está de volta

Porque é que o Tarot está de volta? Talvez porque as pessoas têm perguntas para as quais precisam de respostas, que não estão a encontrar nos meios  tradicionais. Inês Pereira Pina (@ inespereirapina), taróloga e autora do livro Tarot e Espiritualidade (ed. Lua de Papel) concorda: além de já não haver estabilidade profissional, «as pessoas têm tantas decisões para tomar que precisam de se apoiar de alguma forma em quem faz este tipo de trabalho como o meu», refere. É quase como um sentimento de insegurança permanente e, por isso, desenvolvemos a necessidade de validação dos outros para as nossas tomadas de decisões. Assim, o Tarot assume um papel de orientação ou de ferramenta de reflexão com o objetivo de encontrar soluções.

Esta democratização das cartas foi muito possível graças às redes sociais. Recentemente, quando falava com Pina sobre este assunto, a taróloga explicava-me que «as redes sociais aproximaram as pessoas a este mundo porque disponibilizou muita informação», e fê-lo de uma forma acessível, «com leituras em direto no Facebook, por exemplo», destaca a taróloga, além do conteúdo no Instagram se apresentar de uma forma esteticamente apelativa e mais atual. Outro facto curioso que Inês Pereira Pina destaca é a quantidade de pessoas que agora querem aprender a fazer leituras «para utilizarem como uma ferramenta no dia a dia, de forma a complementar a tomada de decisões», revela. Chega a ser refrescante ver que, num mundo tão tecnológico, ainda temos a necessidade de incorporar alguma magia no nosso dia a dia.

O regresso a Paris

Se está questionar-se sobre se consegui perceber qual o significado de Paris na minha leitura, sim, percebi passados cinco meses da leitura – quando a Sandra Gato, a diretora da ELLE (título francês), me enviou uma mensagem a convidar-me a voltar a esta revista depois de aqui ter estagiado três anos antes. Dessa leitura, a nível de previsões, só me lembro mesmo desta questão, muito provavelmente porque foi a única que se concretizou. Sim, sobre a resposta à pergunta do amor ainda não vi resultados, o que já me fez questionar: será que foi tudo uma coincidência? Se calhar, isto é sinal de que está na hora de voltar a encontrar-me com as cartas de Tarot.

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição de outubro da Elle.