Porque é Que o Nosso Amor Por Comédias Românticas Passou a Ser Segredo?

Especialmente quando se tratam de filmes tão icónicos. Por: Carolina Adães Pereira Imagens: © Twentieth Century Fox Home Entertainment, Inc.

Falar de comédias românticas é falar sobre amor, é falar sobre filmes que já vimos centenas de vezes, sozinhas ou acompanhadas pelo nosso grupo de amigas com um copo de vinho e pipocas à mistura. Se estivermos na disposição de criar expectativas completamente surreais sobre como as relações devem ser, é este o programa escolhido, e é um favorito do público se tivermos como indicação a quantidade de estreias a invadirem as salas de cinema, as grelhas de programação dos canais de televisão e as plataformas de streaming todos os anos.

O amor de Hollywood pelas “rom com” já foi consumado há muito e é exibido com orgulho pela indústria, mas não é adorado pela crítica. Para ter uma ideia, a última comédia romântica a ganhar um Oscar de Melhor Filme foi Annie Hall de Woody Allen, com Diane Keaton no papel de protagonista feminina. Estávamos em 1978. Passados mais de 40 anos, os filmes deste género foram entregues à devoção de um público feminino fiel (na sua maioria). Aconteceram alguns picos de notoriedade, como nos anos 90, com trabalhos como o de Nora Ephron, «que foi assim uma carta fora do trabalho porque conseguiu filmes com argumentos muito bons e que iam buscar um bocadinho o espírito clássico de um Frank Capra [realizador italiano que se destacou nos anos 30 e 40], que no seu tempo conseguiu fazer grandes comédias, excelentes filmes num grau que hoje a comédia romântica já não consegue atingir ou, pelo menos, não tem dado provas disso», partilha Inês D. Lourenço, crítica de cinema do jornal Diário de Notícias. Foi graças a Ephron que hoje temos filmes como When Harry Met Sally (1989) e You’ve Got Mail (1999) .

Então, o que se passou desde essa altura? Todos os anos há comédias românticas a verem a luz do dia. Mais: em tempos recentes, com o aparecimento das plataformas de streaming e com o seu investimento em produções próprias, de repente há filmes novos praticamente todas as semanas que (quase) nos obrigam a ficar em casa. Mas mesmo assim há sempre desconfiança no ar. Se pensarmos bem, os últimos dez anos foram dominados por filmes de animação ou de super-heróis, normalmente associados ao público masculino. Porque é que os filmes que estão associados ao público feminino não têm a mesma exposição ou são até vistos com algum preconceito? «O problema, se calhar, é que as comédias que se fazem neste momento só têm uma fórmula e repetem-se muito», comenta Inês. «Os clichés, mais ou menos todos os filmes lidam com eles, agora é preciso saber trabalhá-los da forma menos cansada. E o que se sente muito é que as fórmulas das comédias estão um pouco cansadas», conclui.

Esta questão sobre a fórmula que Inês destacou foi precisamente o que levou Elizabeth Sankey, realizadora e atriz britânica, a fazer o documentário Romantic Comedies, que integrou a programação da última edição do Indie Lisboa. «Cresci a assistir a comédias românticas e a amá-las. No entanto, depois de me ter casado, voltei a ver os meus favoritos e percebi que eles representavam uma versão muito estreita do que são o romance e o amor, e que a representatividade a nível do elenco não era nada boa», afirma Sankey. «Todos os atores eram brancos, héteros e de classe média, e todas as mulheres só queriam encontrar um homem e formar família. Perturbou-me quando percebi o quão esses filmes afetaram a forma como vivia a minha vida e os meus relacionamentos. E, no entanto, continuava emocionada com esses filmes, apesar das suas falhas», conta à ELLE a realizadora.

A repetição das narrativas enumeradas por Elizabeth é muito percetível, e talvez sejam essas repetições que fazem com que as suas mensagens deixem de ser credíveis, de ter interesse, e que levem a que estes filmes sejam rotulados como fúteis ou o guilty pleasure de quem os vê. No entanto, 2019 deu-nos algumas indicações de mudança, com filmes como Crazy Rich Asians, a comédia romântica mais bem-sucedida dos últimos três anos em termos de bilheteiras a uma escala global e com um elenco todo asiático (que não foi exibida nas salas nacionais), assim como a inclusão de Rebel Wilson como protagonista de Isn’t it Romantic ao lado de Liam Hemsworth. Podemos interpretar estes exemplos como sinais de uma tentativa de mudança, de manter as comédias românticas válidas usando narrativas atuais, ao mesmo tempo que se começa a deixar a fórmula gasta para trás. Até porque toda a gente gosta de uma boa história de amor, certo?. «Elas são – e sempre foram – uma parte essencial da condição humana», lembra Sankey. Só precisamos de voltar a acreditar nelas.

 

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de fevereiro de 2020.