As Razões Para Ser Viciado no Trabalho e as Consequências Deste Vicio

Trabalhar horas a mais do que é suposto não deve ser motivo de glorificação. Por: Wing Sze Tang -- Imagens © Unsplash

Naomi Mdudu percebeu que alguma coisa estava errada quando nenhuma quantidade de sono parecia ser suficiente para a deixar descansada. Como coordenadora do Lifestyle Edit, um website focado em carreiras para criativos, a empresária construiu um negócio de coaching para mulheres, produz conteúdo para a sua plataforma e tem um podcast; tudo isto enquanto se divide entre Londres e Nova Iorque.

No fim do ano passado, Mdudu, grávida de poucos meses, à procura de casa, a planear o seu casamento e a tempo inteiro no seu site, fez algo a achar que isso ia acabar com todo o seu trabalho duro até ao momento: entregou as rédeas à sua equipa durante alguns meses e largou temporariamente o seu trabalho fatigante. «Aprendi que não devo torturar-me e fazer tudo sozinha», diz Naomi, depois de descobrir a vantagem de delegar tarefas.

Abrandar no trabalho, é mais fácil falar do que pôr em prática.

Hoje, a ideia de que o sucesso pertence apenas ao grupo dos viciados no trabalho que vemos a ser proclamada em todo o lado, desde publicações no Instagram («Tens tantas horas no dia como a Beyoncé») até a artigos do género «Como conseguir» sobre os hábitos madrugadores dos CEOs. Sim, se tivermos em conta as declarações de Marissa Mayer, ex-CEO da Yahoo, à Bloomberg, qualquer pessoa poderia trabalhar 130 horas numa semana «se agendar as suas horas de sono, quando toma duche e quantas vezes vai à casa de banho de forma estratégica», acrescentou.

A advocacia, a banca de investimento e outras áreas exigentes há muito que são comparadas a uma vela que queima dos dois lados, mas esta cultura de horas extra foi amplamente popularizada no advento da tecnologia. É o famoso workaholic dos anos 80, mas reinventado à luz do mundo digital. Ser apaixonada pela profissão é uma coisa, mas acreditar na ideia de que o sucesso só é possível se houver um esforço constante e se sacrificar outras partes da vida é algo completamente diferente. Essa forma de pensar não só é meio caminho andado para um esgotamento (o cada vez mais famoso burnout), mas também é algo terrível de se sentir: se ainda não é um sucesso, a cultura das horas extra está a sussurrar ao seu ouvido que não está a empenhar-se o suficiente.

«Claro, estar sempre a trabalhar não é a mesma coisa que ser workaholic», refere Katy Kamkar, psiquiatra. Não é necessariamente prejudicial se se sentir feliz, saudável e satisfeita com isso. «É uma escolha pessoal perceber o que se adequa a si própria», diz. «Mas quando existe um desequilíbrio [na vida profissional], o risco de problemas psicológicos e de saúde aumenta.» Alguns sinais de que o trabalho nonstop está a ser demasiado: experienciar o que Kamkar chama de «interferência trabalho-casa»; andar constantemente stressada com o trabalho; entrar em conflito com os seus colegas e familiares; e, o sinal mais óbvio de todos: sentir-se infeliz.

Por vezes, o vício no trabalho é uma maneira de disfarçar incompetência ou sentimentos de fracasso, diz Kamkar. Claire Booth, empresária, chama a esta combinação de constante esforço e insegurança crónica “a febre das expectativas”. Depois de cinco anos numa posição de chefia, Booth percebeu que se sentia miserável. «Sentia-me num comboio a ver a minha vida passar diante dos meus olhos», afirma a empresária, que durante um ano embarcou num novo projeto sobre mudança de vida, um pouco na linha da autoajuda, e escreveu o livro The Achiever Fever Cure: How I Learned to Stop Striving Myself Crazy {disponível na Amazon}. Esta mentalidade do faz tudo tem-se tornado o novo normal, particularmente nas mulheres. Estamos a alcançar aquilo que nos foi impedido em tempos: «Estão a aparecer mais oportunidades para as mulheres, por isso temos de aumentar a nossa quantidade de trabalho quando já estamos cansadas.»

Uma questão de geração?!

Enquanto a cultura das horas extra é transversal entre gerações, os millennials parecem ser os mais propensos a esta ideia, tendo crescido numa era em que a segurança de ter um emprego é pouca e a pressão para alcançar sucesso em nome próprio é maior do que nunca. Um estudo constatou que o perfeccionismo como objetivo final aumentou imenso junto dos jovens universitários nos últimos 30 anos. Os investigadores dizem que a tendência reflete a sedução que a premissa da meritocracia exerce sobre nós.

«Também caímos na tentação de usar o trabalho como cura», acrescenta Booth, «por pensarmos ‘se eu trabalhar mais, vou sentir-me melhor’, mas, surpreendentemente, isso nunca acontece.» Uma das suas revelações foi perceber que, independentemente do seu esforço, tinha sempre aquela voz que lhe dizia que não estava a fazer o suficiente. Claire procurou outras pessoas com posições similares à sua para entrevistar para o seu livro e encontrou algo em comum: «Perguntei quão fortes eram as suas vozes interiores, com 10 a ser equivalente a ‘isto massacra-me todos os dias’. A pontuação média nas mulheres foi de 8.» A lição aprendida? «Persiga os seus sonhos, mas não avalie a sua autoestima pelos seus objetivos», diz Booth.

Até mesmo na indústria da tecnologia, a que glorifica as horas extra, tem havido manifestações de insatisfação. Alexis Ohanian, cofundador do Reddit, descreveu esta forma de estar profissionalmente como um absurdo total e um perigo para o trabalho e para o bem-estar individual. Cada vez mais empresas, quer atuem no meio tecnológico quer não, estão a experimentar diminuir os dias de trabalho. Recentemente, Adam Grant, professor universitário e especialista em Psicologia Organizacional, argumentou que os dias de trabalho deviam acabar às 15 horas. «Teríamos a mesma quantidade de trabalho feita», diz Grant, porque as pessoas, geralmente, desperdiçam muito tempo. No ano passado, na Nova Zelândia, uma empresa foi alvo de estudo devido à sua jornada de trabalho piloto, de quatro dias por semana: percebeu-se que o staff estava menos stressado, mais criativo e mais produtivo.

Embora nem todos nos possamos dar ao luxo de ter um fim de semana prolongado todas as semanas, o poder de definirmos os nossos limites é individual, e isso significa planear a nossa vida e encontrar o nosso equilíbrio. «Como é que acordaria de manhã?», «Que tipo de impacto quer ter no mundo?», «Que condições deveriam existir para ter uma vida preenchida?», pergunta Mdudu, que regressou da sua pausa com uma cláusula não negociável: nada de trabalhar noites e fins de semana. Claro que nem todas as pessoas têm o mesmo grau de controlo sobre o trabalho, e quando o seu chefe passa a vida a enviar-lhe e-mails, pode sentir que não há mais nada a fazer a não ser responder rapidamente. Mas definir limites, algo que seja benéfico para si, é um começo. «Quanto mais colocar a si própria essas questões, mais depressa começará a perceber que a felicidade é mais acessível do que imagina», diz Mdudu. Se precisa de mudança, lembre-se: o chefe da sua vida é você.

Como contrariar a cultura das horas extra

Estabeleça limites cedo – É muito mais fácil gerir expectativas sobre responder a e-mails às 22 horas logo no início de um trabalho. Já vai tarde para impor esta regra? «Responda com ‘Tratarei disto amanhã de manhã.’ Desta forma, o seu chefe sabe que está em cima do assunto, e depois de algum tempo, ele ou ela deixará de esperar uma resposta imediata», diz Sara Vermunt, coach e autora do livro Career Rookie.

Crie alianças – «Se não quer parecer desleixada, mas não quer trabalhar todo o m de semana, peça ao seu chefe para a ajudar a estabelecer prioridades», diz Vermunt sobre a sua estratégia do «ajude-me a ajudá-lo». Diga: «Dado que tenho muitos projetos importantes, mas o meu tempo está limitado, a que gostaria que eu desse prioridade?»

Seja persistente – Se diz que vai fazer – ou não vai fazer – algo, seja el aos seus princípios, diz Vermunt. «Não pode apenas estabelecer limites, tem de os cumprir, o que significa permanecer forte perante qualquer imprevisto.»

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de setembro de 2019.