Porque é Que a Nossa Busca Pelo “Wellness” Nos Pode Estar a Fazer Mal

Qual será o impacto que um estilo de vida baseado no bem-estar teve na nossa saúde? Imagens: © Shepperton Studios / Unsplash: Trust Tru Katsande, Inspired Horizons e Bruce Mars / Pexels: Rui Dias - Texto: Sophie Wilkinson

Até há pouco tempo vivia em modo bem-estar 24 horas por dia, sete dias por semana. Seguia um plano que comprei online, as minhas refeições eram à base de pós proteicos, pedaços de carne e brócolos cozidos a vapor, com cada ingrediente pesado à grama. Ia ao ginásio cinco vezes por semana, fazendo com o máximo rigor os treinos do plano com o propósito de parecer – e eventualmente – sentir-me melhor.

E funcionou. No início. Emagreci. Estava orgulhosa do que a minha força de vontade inabalável era capaz de fazer ao meu físico. Mas o controlo que ganhei sobre o meu corpo, perdi em relação  à minha mente. Fiz da minha aparência uma prioridade ao ponto de passar o meu tempo todo a cozinhar, a fazer pranchas e a repreender-me por fazer/comer o que me dava alegria… Até que perdi o foco de todas as minhas outras ambições: o meu trabalho, as minhas amizades e a minha felicidade.

O impacto no meu corpo também começou a fazer-se notar: comecei a coxear devido a uma lesão no joelho por ter feito vários agachamentos com pesos de uma forma errada. Os meus dentes ficaram cobertos de placa, devido aos resíduos do pó da proteína que se foram acumulando. E o corpo de wellness que eu mesma esculpi tornou-se rapidamente vítima da única alegria que me restava: a comida de conforto. Ou seja, o meu esforço de tentar ficar bem estava, de facto, a fazer-me mal.

Sentir-se bem costumava ser um estado de estar passivo. Era normal perguntarmos uns aos outros, quase como um cumprimento: “Estás bem?”. Mas ao longo da última década, esta expressão simpática assumiu um novo significado porque “estar bem” hoje em dia significa algo totalmente diferente. Trata-se de uma escolha de estilo de vida com um capital social. Estar bem tornou-se um objetivo estético e uma obrigação quase moral, que pode ser alcançado com foco, determinação e depois de se comprar uma série de coisas.

A noção de wellness como forma de otimizar a saúde e felicidade, sem depender de médicos e tratamentos vocacionados para tratar a doença, foi introduzida pelo livro High Level Wellness de L Dunn, publicado em 1961, e enraizou-se na Califórnia nos anos que se seguiram. Os pioneiros deste modo de vida foram principalmente médicos e pensadores, do género masculino, que tinham desistido da medicina tradicional e queriam explorar os limites da medicina alternativa como forma de prevenir, e não curar, doenças. O wellness era visto como a última opção para aqueles que já tinham perdido toda a fé na ciência ou que haviam, literalmente, perdido o rumo.

Trinta anos depois, a narrativa mudou a favor do bem-estar. Alguns dos seus maiores patronos, incluindo o endocrinologista que virou autor espiritual Deepak Chopra, tornaram-se nomes conhecidos. No início da década de 90, Oprah Winfrey, que nessa época já era considerada uma grande celebridade, deu-lhes a sua bênção, dedicando grande parte dos seus programas a estas figuras quase New Age. O jogo virou.

Em pouco tempo começámos a ver um novo tipo de ginásios e centros de fitness: os espaços passaram a ser glamorosos, aspiracionais, levando corpos e mentes ao limite da resistência, com treinadores que tinham (quase) o estatuto de semideuses. O pioneiro foi o Barry’s Bootcamp. Criado em West Hollywood pelo ex-personal trainer Barry Jay, este ginásio ficou conhecido pelo treino de alta intensidade intervalado (HIIT) combinado com pesos (que, na verdade, é inspirado no bom e antigo treino militar). Tudo acontecia num estúdio que mais parecia um bar elegante do que um ginásio. Filas formavam-se à volta do quarteirão. Conseguir uma vaga era tão difícil quanto conseguir uma mesa no Cafe Gitane em Nova Iorque. O SoulCycle veio a seguir, revolucionando o indoor cycling com instrutores que lançavam mantras motivacionais para os seus alunos durante as aulas.

Em meados da década de 90, aconteceram quatro eventos muito significativos no Ocidente, deixando algumas lacunas nas vidas de pessoas que estavam prontas para as verem preenchidas por este novo universo do bem-estar: uma epidemia de saúde que levou ao aumento dos diabetes, obesidade e doenças relacionadas com o stress; o advento da revolução tecnológica; a crise financeira global que nos levou a trabalhar mais horas e a ter vários empregos; e uma jovem atriz, vencedora de um Óscar, de seu nome Gwyneth Paltrow.

Em 2008 foi lançada uma newsletter chamada Goop. Apresentando-se como uma mistura de guias de viagens, receitas nutritivas e conselhos sobre saúde e fitness, a Goop não foi o primeiro projeto deste género. Mas foi o primeiro criado na mesa da cozinha de uma grande estrela de Hollywood. Paltrow interessou-se pelo lado alternativo da medicina depois de perder o seu pai, o realizador Bruce Paltrow, devido a um ataque cardíaco em 2000. Depois disso, a atriz afirmou que queria servir de cobaia para todas as coisas relacionadas com o wellness, a fim de evitar doenças. Segundo Paltrow, funcionou. Ela falava num idioma novo, que recomendava a eliminação de alimentos processados, que as ervilhas deveriam ser cozidas a vapor e «que devemos nutrir o nosso aspeto interior». O mundo riu… Depois leu, e depois aceitou este mundo New Age e os seus purificadores, o pilates e os ovos de jade para equilibrar as hormonas.

Hoje, a Goop está avaliada em mais de 205 milhões de euros, com conferências mundiais permanentemente esgotadas e quatro lojas independentes. O SoulCycle agora vale mais de 85 milhões de euros, enquanto as aulas e estúdios inspirados no Barry’s Bootcamp podem ser encontrados em todas as grandes cidades da Europa. Quanto à indústria do bem-estar: vale cerca de três triliões de euros e cresce a uma taxa de 10% a cada ano.

Contudo, o seu crescimento também aconteceu devido à abordagem de mais-é-mais. De acordo com Jessica Smith, investigadora criativa sénior da LS: N Global’s The Future Laboratory, «O bem-estar está em “modo acelerador”. O setor foi vítima de uma narrativa que diz aos consumidores que têm constantemente de tentar ultrapassar-se». Isto é visível também na oferta de serviços, com os ginásios a terem as portas abertas 24 horas por dia e aplicações como a ClassPass a facilitarem o acesso a diferentes aulas consoante o desejo do utilizador no momento.

Em vez de melhorar as nossas vidas, o bem-estar está a levar muitos de nós ao limite, físico e mental. «Tempo é dinheiro e conseguir fazer muitas coisas é algo que é aplaudido pela sociedade», afirma o personal trainer Georgie Okell. «O problema é que a estrutura física do nosso corpo não consegue lidar com tanta pressão».

O nutricionista Rick Miller concorda: «Os regimes de bem-estar rigorosos que vejo os meus clientes adotarem está simplesmente a adicionar fatores de stress às suas vidas e a prejudicar o seu estado saúde». O resultado é o número crescente de pessoas que chegam ao seu consultório com casos extremos de esgotamento e sintomas que incluem insónias, vício em cafeína e um ressurgimento de distúrbios alimentares previamente controlados. «Estou a ter casos muito graves de burnout, ao ponto de dizer aos pacientes que a minha opinião profissional é que eles deveriam interromper totalmente os seus regimes de wellness ou as suas carreiras, vidas familiares ou saúde sofrerão a longo prazo», afirma. «O problema é que às vezes é tarde demais, pois muitos justificam os sintomas, reforçam que estão em processo de detox e que apenas precisam de insistir até ultrapassar esta fase».

A luta constante por mais pode, de facto, ser prejudicial. Mark Golton, fisioterapeuta, observou um aumento nas lesões entre pessoas entre os 25 a 50 anos, incluindo lesões na parte inferior das costas e nos ombros causadas por um aumento repentino no levantamento de pesos e pessoas que dão tudo nas aulas de HIIT. «Há uma falta de informação generalizada sobre quanto tempo o corpo precisa para se curar e se recuperar. A nossa mente pode estar pronta para ir mais um dia ao ginásio, mas o nosso corpo precisa de tempo para recuperar». Há um medo generalizado entre os discípulos do bem-estar de que, se alguém parar, não conseguirá manter o controlo e perderá todo o trabalho duro que já fez.

Mas não são apenas as aulas de HIIT que contribuem para o esgotamento do wellness. Nahid de Belgeonne, instrutora de ioga das celebridades há mais de 20 anos, explica como «antes, tínhamos um professor com quem aprendíamos de forma lenta e pausada. Agora, as pessoas querem a experiência de aula. Querem professores que os incentivem a gabarem-se e partilhar fotos no Instagram», refere a instrutora de ioga.«Agora temos alunos itinerantes que estão à procura do fator wow em cada aula que vão. É tudo muito impaciente. As pessoas querem tentar fazer as grandes poses antes de conseguirem fazer os movimentos básicos sequer». Como resultado, Belgeonne vê «corpos a colapsar enquanto se esticam demais». Ioga, uma prática outrora espiritual, evoluiu no Ocidente para uma experiência competitiva e comercial de t-shirts com os slogans “Namasté na Cama” e “Comer. Dormir. Ioga. Repetir”. «O ioga não foi feito para ser fitness. É suposto haver, primeiro, uma mudança interior individual através da sua prática e, de seguida, cada qual levar essa lição de mudança para o mundo através de ações diárias», diz Belgeonne.

A tecnologia do bem-estar, por sua vez, exacerbou o problema. Monitores da atividade física – outra forma de aferir resultados individuais – podem estabelecer metas arbitrárias e irreais, como Alan Tomlinson, professor universitário, explica: «Essas metas estabelecidas por pseudoprofissionais podem tornar-se contraproducentes porque criam stress devido às expectativas excessivas que os indivíduos colocam sobre si mesmos». Existem também pequenos grupos de pesquisa que estão a investigar os efeitos prejudiciais dos monitores de condicionamento físico, que têm sido associados a distúrbios alimentares.

A socióloga Barbara Ehrenreich defende no seu livro Natural Causes (disponível na Amazon) que o wellness encoraja-nos a tratar os nossos corpos como «uma máquina de autocorreção cada vez mais perfeita, capaz de estabelecer metas e avançando em direção a elas com determinação». Mas os nossos corpos não são máquinas e, mesmo se fossem, não temos já programas suficientes abertos?

Esta mentalidade não podia estar mais longe do que se vive em Silicon Valley, onde estrelas da tecnologia, como Jack Dorsey, do Twitter, endossam publicamente o jejum intermitente, que restringe o tempo em que as refeições são realizadas para permitir que o corpo regenere (Dorsey afirma que jejua durante o fim de semana e apenas janta), e o biohacking – otimizar o desempenho humano encarando o nosso corpo da mesma forma que uma máquina, como se fosse um robô ou uma nave espacial.

Mas para Claire Mysko, CEO da Associação Nacional dos Distúrbios Alimentares dos Estados Unidos, essa abordagem extremista ao bem-estar é preocupante: «A promoção do jejum intermitente e a defesa do biohacking refletem muito daquilo que ouvimos de pessoas com transtornos alimentares», explicou no podcast Recode Decode de Kara Swisher. «Todo o enquadramento da comida como forma de alcançar a perfeição ou produtividade ideal… Tudo isto é um discurso familiar para alguém que trabalha na área dos transtornos alimentares».

Então, o que podemos esperar da indústria do wellness a partir de agora? Um ritmo mais lento parece benéfico e é isso mesmo que a empresa de previsão de tendências LS: N Global intitula de “desaceleração consciente”. «Há um desejo crescente de substituir a mentalidade de resultados rápidos por uma abordagem mais calma de forma a construir hábitos a longo prazo e criar espaço para respirar, tanto física quanto metaforicamente», diz Smith.

À medida que entramos numa nova década, essa é uma perspetiva esperançosa – e eu também o estou. A minha relação com o meu próprio bem-estar felizmente mudou. Estou a tentar estar mais presente no mundo físico, fazendo longas caminhadas em vez de aulas de ginástica e a cozinhar comida por prazer, não apenas como combustível. Mas, mais importante, também estou a tentar não me recriminar tanto se não conseguir seguir as minhas novas regras, estou a pôr-me a mim em primeiro lugar.