Tudo o Que Precisa de Saber Sobre as Três Novas Fragrâncias da Chanel

De Paris a Deauville, passando por Biarritz e depois Veneza, estes aromas são uma viagem neles próprios. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagens: D.R.

Gabrielle foi uma mulher de aventuras. Daquelas que puseram (e continuam a pôr hoje) gerações inteiras a sonhar. O seu sentido de decisão e de autenticidade está espelhado não só na sua história pessoal como na história da marca que fundou e que tem o seu nome. É na vida da sua fundadora que a Chanel se inspira para nos continuar a encantar, quer com as mil e uma reinterpretações do tweed por Karl Lagerfeld como na continuação do seu legado na área da perfumaria.

Inspirada nos destinos de férias de verão de Coco, a maison francesa lança agora Les Eaux, uma nova coleção de eau de toilette surpreendente e, ao mesmo tempo, muito familiar. São três no total e cada uma tem um destino de viagem específico, com Paris como o único ponto de partida. Pronta para começar esta viagem?

 

Paris – Deauville

A pequena cidade costeira na região da Normandia serve de refúgio de fim de semana a muitos parisienses e serve também de ponto de partida nesta viagem. Foi aqui que Gabrielle decidiu sair da sua zona de conforto e apresentar um novo código de vestuário para as mulheres francesas do século XX. Numa França ainda presa por corpetes e roupa tapada, a designer ousou despir os preconceitos, de forma literal. As peças assumiram silhuetas mais desportivas e confortáveis, perfeitas para as mulheres conseguirem usufruir do verão e do tempo mais quente.

Seguiu-se a abertura da primeira loja em Deauville, em 1913, com Gabrielle Chanel em letras capitulares e pretas na fachada a anunciar a chegada da mudança do paradigma social. A seu lado neste momento, Gabrielle tinha Boy Capel, investidor financeiro da sua marca e o grande amor da sua vida.

A loja fechou uns anos mais tarde, mas é impossível negar o impacto que esta cidade teve no percurso da Chanel e a influência que a marca ainda tem em Deauville. Fugindo ao óbvio, Olivier Polge, perfumista oficial da casa, optou por celebrar a água de colónia Paris – Deauville com a «ideia que as pessoas citadinas têm quando sonham em passar um fim de semana no campo», explica. O seu aroma é cítrico, com a laranja a fazer-se notar de imediato e o manjericão a dar um ar da sua graça. No entanto, quando em contacto com a pele, este eau de toilette evolui para algo ligeiramente amadeirado, fazendo despertar memórias de outros tempos.

 

Paris – Biarritz

Continuamos a nossa viagem em direção ao Sul de França, para o destino de férias por excelência da alta sociedade francesa, onde Coco abriu a sua segunda loja de roupa no luxuoso centro da cidade, em 1915. Podemos dizer que esta foi uma opção estratégica por parte de Coco. Afinal, os seus clientes multiplicavam-se na mesma medida em que a sua própria influência na moda ia aumentado.

Uma loja a prosperar, dias passados entre ver as partidas de golfe de Capel, mergulhos no oceano Atlântico e festas glamourosas com os seus amigos russos para terminar as noites, todos os olhos estavam em Biarritz. Como ainda estão até hoje. Quase 100 anos passaram desde essa altura, mas algo se manteve intacto: a sensação de tranquilidade tão presente no mar. Foi precisamente nela que Polge se inspirou para Paris – Biarritz. «Queria criar aquela sensação de que a pele está a ser banhada por cada um dos ingredientes», explica o perfumista. E isso traduz-se numa fragrância refrescante e revitalizante, com toranja e tangerina como notas de topo e o delicado jasmim a finalizar.

Paris – Venise

Embarcámos no Expresso Oriente para o destino final desta viagem olfativa até Veneza. Foi aqui que Coco Chanel fugiu para fazer o luto de Boy Capel, após a sua morte. Corria o ano de 1920 e todo o ambiente de opulência do círculo aristocrata que a criadora frequentava foi instrumental para a sua recuperação emocional e, como ainda é possível constatar pela imagem da marca, foi essencial para reacender a chama criativa de Gabrielle.

A tradução deste momento para a eau de toilette Paris – Venise está longe de ser um conceito simples. Aliás, um pouco à imagem da designer, é ousado, sumptuoso e, ao mesmo tempo, aconchegante. «É, provavelmente, a fragrância mais urbana da coleção», constata Olivier. E não é difícil de perceber porquê. Segundo as influências barrocas e bizantinas tão características de Veneza, este é o aroma com uma presença cítrica menos marcada. É possível perceber a existência de flor de laranjeira e gerânio (de Grasse), mas a nota de baunilha combinada com âmbar traz mais calor e um toque oriental a esta fragrância, depois de absorvida pela pele. De toda a coleção, Paris – Venise é, sem dúvida, a opção mais misteriosa por se manifestar de uma forma tão subtil e, simultaneamente, tão sensual.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de setembro de 2018